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É o caminho que nos define

O caminho por si só não existe. Viver é fazer o caminho, é o nosso andar que o faz e nos define.

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O depoimento de Miriam Leitão — jornalista liberal e considerada de direita por muitos — a Luiz Cláudio Cunha no Observatório da Imprensa detalhando os horrores sofridos por ela durante os três meses em que ficou presa entre 1972 e 1973, revelou bem mais do que a nossa vista ou interpretação de texto e entrelinhas é capaz de alcançar.

Miriam nunca escondeu ter sido torturada, apenas evitava focar na questão pessoal sempre que defendeu nosso direito à memória, à verdade e à justiça. Poucos foram os textos em que assumiu o lugar de vítima da arbitrariedade que já ocupou. Diz ela que não gosta desse lugar, e tem esse direito.

Numa entrevista a Jô Soares que assisti há alguns anos atrás, lembro dela ressaltando que foi presa porque ousou pensar e manifestar seu pensamento, discordante do imposto pela ditadura. Miriam, que hoje é liberal, foi militante do já clandestino PCdoB no início dos anos 70 quando era estudante, usava o codinome “Amélia”, o que poderia até ser piada não fosse o quão trágico é isso tudo.

Atenção nisso. A ditadura militar prendeu, torturou, matou e desapareceu não apenas com esquerdistas ou “terroristas” da luta armada, mas também com liberais, com pessoas que convergiam com o sistema econômico defendido pela ditadura. É esse o caso de Rubens Paiva. Não era preciso ser comunista. Aliás, a “ameaça comunista” sempre foi apenas uma desculpa para instalar o terror, sabemos. Só imbecis acreditam nisso e/ou repetem essa bobagem. Bastava uma pequenina discordância, que no caso dos liberais era óbvia, era a falta de democracia. Eles e nós sabemos que o capitalismo não precisa se impor à força e sob o terror.

A decisão de Miriam Leitão de relatar os detalhes da tortura que sofreu, grávida, comoveu muitos e reforçou a necessidade de passarmos a limpo os fatos tenebrosos desse passado não muito distante, e tornou mais forte nossa necessidade por justiça. Porém fez emergir também a boçalidade feroz que pretende deixar tudo como está. Afinal, quem hoje morre na tortura ou é executado sumariamente pelo aparelho repressivo do Estado não são pseudos roqueiros sem causa ou colunistas reacionários da classe média supostamente politizados. Quem luta hoje por memória, verdade e justiça e, consequentemente, pela democracia, são os mesmos de antes, os sobreviventes ao terror e à cooptação do sistema.

Infelizmente a boçalidade feroz emergida nos últimos dias que debocha, duvida e tripudia do terror sofrido por Miriam, transpassa fronteiras ideológicas e cores partidárias. Os boçais se unem no método, nos meios defendidos. Nessa lama, junto com constantinos, rogers, reinaldos e outros uivantes — que não surpreendem — estão os que usam o passado guerrilheiro de Dilma, Zé Dirceu e Genoino apenas de forma oportunista e eleitoreira, sem o menor respeito, compaixão ou desejo de justiça.

O que nos define é a nossa trajetória, o andar pelo caminho, e não o ponto de chegada. A história já nos mostrou que esquerdistas podem ser tão canalhas, cruéis, desumanos e boçais quanto reacionários de direita. Não há seletividade admissível quando o assunto é direitos humanos. Discordo e muito em zilhões de coisas de Miriam Leitão, mas não uso isso e nem minha ideologia como desculpa para desrespeitá-la ou ser cruel. Não negocio com princípios, e prefiro perder uma batalha do que a dignidade.

“O processo, que envolvia 28 pessoas, a maioria garotos da nossa idade, nos acusava de tentativa de organizar o PCdoB no estado, de aliciamento de estudantes, de panfletagem e pichações. Ao fim, eu e a maioria fomos absolvidos. O Marcelo foi condenado a um ano de cadeia. Nunca pedi indenização, nem Marcelo. Gostaria de ouvir um pedido de desculpas, porque isso me daria confiança de que meus netos não viverão o que eu vivi. É preciso reconhecer o erro para não repeti-lo. As Forças Armadas nunca reconheceram o que fizeram.
(…)
O que eu sei é que mantive a promessa que me fiz, naquela noite em que vi minha sombra projetada na parede, antes do fuzilamento simulado. Eu sabia que era muito nova para morrer. Sei que outros presos viveram coisas piores e nem acho minha história importante. Mas foi o meu inferno. Tive sorte comparado a tantos outros. 
Sobrevivi e meu filho Vladimir nasceu em agosto forte e saudável, sem qualquer sequela. Ele me deu duas netas, Manuela (3 anos) e Isabel (1). Do meu filho caçula, Matheus, ganhei outros dois netos, Mariana (8) e Daniel (4). Eles são o meu maior patrimônio.
Minha vingança foi sobreviver e vencer. Por meus filhos e netos, ainda aguardo um pedido de desculpas das Forças Armadas. Não cultivo nenhum ódio. Não sinto nada disso. Mas, esse gesto me daria segurança no futuro democrático do país.” — trecho final do depoimento de Miriam Leitão a Luiz Cláudio Cunha.

Se por algum instante você achou justo, merecido ou razoável questionar a postura política de Miriam Leitão hoje com relação ao que sofreu (como se fosse obrigatório ao ser torturado numa ditadura ser/permanecer esquerda), cuidado!, estás mais próximo dos torturadores do que dos torturados. Com a desculpa de evitar o “golpe comunista” deram eles o golpe, mas o alicerce da ditadura militar-empresarial era a incapacidade de conviver com o pensamento discordante. É essa incapacidade que nos inciviliza, nos desumaniza e nos transforma em boçais, e não a ideologia. Fica a dica.

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VII Blogagem Coletiva #desarquivandoBR

Nossa luta é por justiça e pela preservação da memória dos mortos e desaparecidos. Para que se conheça, para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça.

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Está começando a sétima blogagem coletiva #desarquivandoBR
– 24 de março a 3 de abril –

Já faz quase um ano que a Comissão Nacional da Verdade foi empossada e está trabalhando. Ou seja, já sei foi metade do seu tempo regulamentar para dar conta de um período maior do que o da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985) e até agora pouco ou quase nada de relevante se apurou. Se estabeleceu entre os membros um rodízio na presidência da CNV, e já figuraram no comando geral Gilson Dipp, Cláudio Fonteles e recentemente assumiu Paulo Sérgio Pinheiro. Esse último, em recente entrevista, disse que as apurações da CNV permanecerão em sigilo até a entrega do relatório final em 2014 à presidenta Dilma Rousseff.

Sigilo? Numa comissão pública? Manter em sigilo um trabalho sobre o qual havia a expectativa de comoção do país e da opinião pública sobre os horrendos crimes praticados pelo Estado contra seus cidadãos, e dessa forma revertesse/compensasse o caráter não-punitivo da CNV? Isso é a comprovação de que nossas desconfianças e reservas quanto a CNV tinha razão de ser.

Entre as notícias recentes a mais chocante — do ponto de vista da possibilidade de chegarmos à verdade dos fatos da ditadura civil-militar — foi uma reportagem da Folha de São Paulo sobre ministérios — hoje, nesse governo — estarem retendo arquivos da ditadura militar (notem que a apuração e descoberta foi da imprensa, e não da CNV). No mesmo dia da publicação da denúncia, um domingo (03/03), o governo anunciou que encaminharia todo o material para o Arquivo Nacional. Três dias depois a FSP noticiou que arquivos de órgãos da ditadura estão desaparecidos. No dia 9 de março a Casa Civil entregou 412 caixas com os tais arquivos retidos ao Arquivo Nacional, mas negou o acesso aos documentos pela reportagem, que questionou: será que a Lei de Acesso a Informação é mesmo letra morta?

49 anos depois do golpe militar, a Comissão Nacional da Verdade, outras comissões públicas e da sociedade civil, bem como a Lei de Acesso a Informação ainda não deram conta dos cadeados que a democracia e seus meandros burocráticos colocaram nos porões da ditadura mantendo-os a salvo dos olhos do mundo e da luz da verdade.

Mais do que nunca a luta pelo desarquivamento do Brasil e pelo Direito à Verdade se faz necessária. É por isso que estamos começando hoje, 24 de março — Dia Internacional para o Direito à Verdade sobre Violações Graves de Direitos Humanos e para a Dignidade das Vítimas, a sétima blogagem coletiva #desarquivandoBR. Até o dia 3 de abril serão dez dias de esforço coletivo para lembrarmos os desaparecidos e mortos da ditadura, denunciarmos a omissão, descaso e iniquidade dos governos para com eles e sua memória, e para exigirmos justiça. 

Para participar da blogagem coletiva basta publicar texto, entrevista, poesia relacionado aos temas da blogagem (abertura dos arquivos, apuração e punição dos crimes cometidos pelo Estado, memória e justiça aos mortos e desaparecidos, revisão da Lei da Anistia) em seu blog e ao final linkar esse post convocatória e divulgar nas redes sociais. Quem não tem blog pode enviar seu texto para o email desarquivandobr@gmail.com que será publicado no DesarquivandoBR, devidamente assinado.

Nos dias  31 de março e 1º de abril, aniversário do golpe militar, realizaremos tuitaço a partir das 21h e concentraremos esforços nas postagens também no Facebook. Acompanhem pelo perfil @desarquivandoBR e/ou pela hashtag #DesarquivandoBR no twitter e na nossa fan page no Facebook e coloque a marca da campanha no seu avatar.

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Edições anteriores do #desarquivandoBR:
Entrevista com Criméia Almeida e Suzana Lisbôa, em 12/01/2010 e a 1ª blogagem
Proposta da 
2ª blogagem
Balanço da 
3ª blogagem
Convocação da 
4ª blogagem e post final com todos os blogs participantes
Avaliação da
5ª blogagem coletiva
Compilação da
6ª blogagem coletiva.


Eu, desumana

Faz um certo tempo que me desconheço. Não me reconheço em ações e atitudes e nem mesmo na revolta, minha velha parceira da vida inteira. Será esse o lado bom da dor? Não falo da dor extrema que vem em contrações porque já sabe de antemão que o corpo não vai aguentar, mas àquela dor moto-perpétuo.

Há um ano, numa tarde muito fria (tipo 5ºC no máximo) e ensolarada, olhei meu filho dormindo, me debrucei sobre ele na cama, dei um longo beijo nele e saí quase que correndo porta afora antes que perdesse a coragem. Ainda não voltei. Os planos ainda não funcionaram. Nada ainda deu certo e não há um dia em que não me pergunte se darão, se valerá a pena… Certo mesmo só essa dor, que já fez morada. No dia em que ela for embora é capaz que sinta o vazio, o buraco no peito.

Já não me acho mais humana. Mutei. Virei uma outra coisa qualquer, sem nome, sem definição. De vez em quando me divirto, rio e até consigo relaxar. Mas acho graça e um tanto estranho se alguém me pergunta se estou feliz… Sobrevivo com um pedaço meu imenso longe de mim. Como seria possível a felicidade assim?

Para não ficar muito chata eu digo que aguento, que seguro as pontas, que só alguns dias é que são piores… A incrível arte de tentar mentir para si mesma, respirar fundo e tentar racionalizar a dor dizendo que será só por mais um dia. Não será. Mas, tomara que não demore muito.

Se alguém tiver algum alento não se acanhe em oferecer.

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Mais?
Dias de Mudança
Estranhamento
O amanhã colorido
Vapor de água
O caminho escolhido


Filhote dinossauro… [2]

4h54 :: No exato momento em que esse post vai ao ar meu filhote dinossauro está completando 16 anos de vida. E, pela primeira vez não estou às voltas com seu bolo ou enchendo os balões e nem amanhã será dia de festa. Pelo menos não para mim.

É o primeiro aniversário do meu dino em que estou longe dele e não que esse dia doa mais do que todos os outros em que estamos separados, mas é significativo. É como se o punhal que faz sangrar meu coração diariamente afundasse mais e ainda girasse… Dor quase insuportável.

Vivo pelo dia do nosso reencontro, o dia em que poderei ficar contemplando seu rosto como nessa foto em que ele tinha só seis meses e poderei tê-lo debaixo da minha pata de mãe dinossaura de novo.

Para mim ele será sempre esse filhotinho.

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Leia também: Dinossauro filhote…


O gosto das lembranças…

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Dia 26 — Um livro que lhe faz adormecer

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O livro que me faz/fazia adormecer — e talvez por isso eu durma tão mal de uns tempos para cá — é um livro de pequenos e deliciosos contos de Clarice Lispector, Felicidade Clandestina. Clarice escreve de um jeito como quem te pega pela mão e te leva para passear no jardim da sua infância, das suas mais ternas lembranças. E esse, em especial, é uma canção de ninar.

Teve uma época, confesso, que nutria um certo preconceito com Clarice, achava-a muito viajandona. Nessa época minha leitura era muito pesada, sólida e as letras de Clarice pareciam desvios. Até o dia em que peguei o caminho do desvio e me fui sem data para voltar.

O conto de abertura e que dá título ao livro é mágico. Uma menina (que parece ser a autora, o conto é escrito na primeira pessoa) sedenta pela leitura e sem recursos para custear sua fome de letras se deixava vitimar pelo sadismo de outra menina que a torturava em seu desejo de viajar nas páginas do livro prometido — Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Clarice termina esse conto dizendo: “Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Mas o conto com que mais vezes adormeci lendo, que conta sobre travessuras de guria roubando rosas e pitangas, vou socializar:

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Cem anos de perdão

Quem nunca roubou não vai me entender. E quem nunca roubou rosas, então é que jamais poderá me entender. Eu, em pequena, roubava rosas.
Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes. “Aquele branco é meu.” “Não, eu já disse que os brancos são meus.” “Mas esse não é totalmente branco, tem janelas verdes.” Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades, olhando.
Começou assim. Numa das brincadeiras de “essa casa é minha”, paramos diante de uma que parecia um pequeno castelo. No fundo via-se o imenso
pomar. E, à frente, em canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores. Bem, mas isolada no seu canteiro estava uma rosa apenas entreaberta corde-rosa-vivo. Fiquei feito boba, olhando com admiração aquela rosa altaneira que nem mulher feita ainda não era. E então aconteceu: do fundo de meu coração, eu queria aquela rosa para mim. Eu queria, ah como eu queria. E não havia jeito de obtê-la. Se o jardineiro estivesse por ali, pediria a rosa, mesmo sabendo que ele nos expulsaria como se expulsam moleques. Não havia jardineiro à vista, ninguém. E as janelas, por causa do sol, estavam de venezianas fechadas. Era uma rua onde não passavam bondes e raro era o carro que aparecia. No meio do meu silêncio e do silêncio da rosa, havia o meu desejo de possuí-la como coisa só minha. Eu queria poder pegar nela. Queria cheirá-la até sentir a vista escura de tanta tonteira de perfume.
Então não pude mais. O plano se formou em mim instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que eu era, raciocinei friamente
com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o seu papel: vigiar as janelas da casa ou a aproximação ainda possível do jardineiro, vigiar os transeuntes
raros na rua. Enquanto isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri somente o bastante para que meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo.
Eis-me afinal diante dela. Paro um instante, perigosamente, porque de perto ela ainda é mais linda. Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos.
E, de repente – ei-la toda na minha mão. A corrida de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo portão que deixara entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa, corremos literalmente para longe da casa.
O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso: ela era minha.
Levei-a para casa, coloquei-a num copo d’água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.
Foi tão bom.
Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.
Também roubava pitangas. Havia uma igreja presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que impossibilitava a visão da igreja. Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu não via nenhuma. Então, olhando antes para os lados para ver se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-a dentro da sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o úmido da frutinha. Muitas vezes na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais com os dedos que ficavam como ensangüentados. Colhia várias que ia comendo ali mesmo, umas até verdes demais, que eu jogava fora.
Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.

Cresci entre duas casas no mesmo bairro na periferia de Pelotas e nas duas tinha um quintal imenso, com árvores de frutas e flores e eu podia brincar com as flores — quando não tinha ataques alérgicos, como quando resolvi me pintar com o amarelo dos bem-me-quer e comê-los — e numa dessas casas, a da minha avó, tinha várias árvores de frutas; goiaba, laranja, bergamota, araçá, ameixa amarela, pera, caqui, butiá e pitanga! Então, eu não precisava roubar rosas e pitangas e achava graça e relaxava com esse conto. Mas, preciso confessar, roubava rapadurinha de leite que a minha avó fazia. Sempre que leio esse conto chego a sentir o gosto das rapadurinhas da minha avó que, tenho certeza, deixava-as sempre no mesmo lugar de propósito para que eu as roubasse.

Baixe daqui Felicidade Clandestina em pdf.

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No desafio 30 livros em um mês a Renata do As Agruras e as Delícias de Ser, a Marília do Mulher Alternativa, a Grazi do Opiniões e Livros, a Mayara do Mayroses, a Cláudia do Nem Tão Óbvio Assim, a Juliana do Fina Flor, o Pádua Fernandes de O Palco e o Mundo (quase no final), a Renata do Chopinho Feminino, a Júlia do Uma Noite Catherine Suspirou Borboletas e o Eduardo do Crônicas de Escola. E tem mais a Fabiana que posta em notas no seu perfil no Facebook.

A Luciana do Eu Sou a Graúna, a Tina do Pergunte ao Pixel e a Rita do Estrada Anil já terminaram o desafio.

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O livro mais lido, o mais querido e o que me faz lembrar muitas coisas, pessoas e épocas

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Dia 13 — Um livro que te faz lembrar de alguma coisa, um dia

Dia 14 — Um livro que te faz lembrar de alguém

Dia 23 — O livro que você leu mais vezes durante toda a vida

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Não estou fazendo combo e nem burlando o desafio porque me atrasei, é que não há diferença entre o livro dos dias 13, 14 e 23. O livro que me faz lembrar de um dia, uma época, alguma coisa e de alguém, e o livro que mais vezes li na vida é o mesmo. Ele é também o meu livro de cabeceira, o livro que mais vezes dei de presente e o mais querido. Foi uma decisão difícil não o citar no primeiro dia e só não o fiz porque sabia que haveria um dia como esse, triplo, especial. Foram pelo menos trinta exemplares presenteados. Toda vez que o comprava de novo para tê-lo sempre comigo, de novo o presenteava. E assim foram tantas vezes que parei de contar no 25º.

Que livro tão especial é esse pra mim? Cartas a Um Jovem Poeta do tcheco Rainer Maria Rilke. O último exemplar impresso que tive mandei para um amigo de João Pessoa em 2005. E esse último ficou mais tempo comigo justamente porque era emprestado. Que feio, né? Presenteei um livro que não era meu… Achei mais útil compartilhar o Rilke com quem ainda não o conhecia. Pronto, falei.

Cartas a Um Jovem Poeta me foi apresentado por uma amiga muito querida em meados de 1992 e em meio a um turbilhão de coisas que aconteciam ao mesmo tempo na minha vida, o contato com Rilke me fez parar no tempo e no espaço. Sabem aquelas cenas no cinema em que um personagem pára e o mundo segue no seu entorno num efeito meio mágico? Era isso que acontecia naqueles dias de primavera turbulentos cada vez que eu lia aquelas cartas. Desde então, cada vez que encontrava alguém com sensibilidade acentuada, falava do livro e se percebia o interesse — e sempre havia porque eu falava com tanta empolgação que até um insensível iria querer conferir –, o presenteava.

Cartas a Um jovem Poeta reúne as respostas de Rilke a um leitor de suas poesias, Franz Kappus, um jovem de 18 anos que desejava ser escritor e escreveu pedindo-lhe conselhos. Rilke trocou com ele várias cartas (entre fevereiro de 1903 e novembro de 1904 e uma última em dezembro de 1908) e ao invés de falar-lhe em teorias, regras ou práticas da escrita, se concentrou no mundo interior do ser humano por trás da caneta (pena ou teclas) e de onde deve brotar o escritor. Essa viagem de introspecção, de ensimesmação que Rilke propõe a Kappus é tão profunda e intensa que o livro acaba se tornando um elogio à solidão. Atrever-se a escrever só depois desse contato consigo mesmo e de se sentir parte da natureza, quando o ato de escrever se tornasse imprenscindível, visceral. Não é lindo isso? Aliás, o Rilke é conhecido como o poeta da solidão justamente por esse livro. E essa viagem de introspecção proposta por ele serve para qualquer pessoa, mesmo aquelas que não desejam um dia escrever.

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“Não se deixe enganar em sua solidão só porque há algo no senhor que deseja sair dela. Justamente esse desejo o ajudará, caso o senhor o utilize com calma e ponderação, como um instrumento para estender sua solidão por um território mais vasto. As pessoas (com o auxílio de convenções) resolveram tudo da maneira mais fácil e pelo lado mais fácil da facilidade; contudo é evidente que precisamos nos aferrar ao que é difícil; tudo o que vive se aferra ao difícil, tudo na natureza cresce e se defende a seu modo e se constitui em algo próprio a partir de si, procurando existir a qualquer preço e contra toda resistência. Sabemos muito pouco, mas que temos de nos aferrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom ser solitário, pois a solidão é difícil; o fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la.

Amar também é bom: pois o amor é difícil. Ter amor, de uma pessoa por outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo, ainda não podem amar: precisam aprender o amor. Com todo o seu ser, com todas as forças reunidas em seu coração solitário, receoso e acelerado, os jovens precisam aprender a amar. Mas o tempo de aprendizado é sempre um longo período de exclusão, de modo que o amor é por muito tempo, ao longo da vida, solidão, isolamento intenso e profundo para quem ama. A princípio o amor não é nada do que se chama ser absorvido, entregar-se e se unir com uma outra pessoa. (Pois o que seria uma união do que não é esclarecido, do inacabado, do desordenado?) O amor constitui uma oportunidade sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo, tornar-se um mundo, tornar-se um mundo para si mesmo por causa de uma outra pessoa; é uma grande exigência para o indivíduo, uma exigência irrestrita, algo que o destaca e o convoca para longe. Apenas neste sentido, como tarefa de trabalhar em si mesmos (“escutar e bater dia e noite”), as pessoas jovens deveriam fazer uso do amor que lhes é dado. A absorção e a entrega e todo tipo de comunhão não são para eles (que ainda precisam economizar e acumular por muito tempo); a comunhão é o passo final, talvez uma meta para a qual a vida humana quase não seja o bastante.”

(Trecho da carta de 14 de maio de 1904)

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Impossível não perceber nas palavras de Rilke um profundo respeito e carinho por seus leitores, não à toa as cartas trocadas com um leitor se tornou seu livro mais conhecido. Cartas a Um Jovem Poeta não é bom por ser conhecido, ele é o livro mais conhecido justamente por ser muito bom.

Ele me lembra amigos muito especiais, pessoas sensíveis com quem tive longas conversas que me marcaram profundamente em diferentes épocas da vida, um amor do tempo da faculdade que ainda guardo com muito carinho (Uia! Pronto, confessei.) e é a minha mais terna e profunda ligação com um livro. Não faço a menor ideia de quantas vezes o li.

Rilke ainda aparecerá pelo menos mais uma vez nesse desafio. 🙂

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Baixe aqui Cartas a Um Jovem Poeta em pdf. Mas aconselho a comprá-lo para tê-lo sempre a mão. A edição normal custa em média R$ 20, 00 e a edição de bolso entre R$ 8,00 e R$ 12,00. A tradução é de Cecília Meireles.

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Estão participando do desafio 30 livros em um mês a Luciana do Eu Sou a Graúna, a Tina do Pergunte ao Pixel, a Renata do As Agruras e as Delícias de Ser, a Rita do Estrada Anil, a Marília do Mulher Alternativa, a Grazi do Opiniões e Livros, a Mayara do Mayroses, a Cláudia do Nem Tão Óbvio Assim, a Juliana do Fina Flor e o Pádua Fernandes de O Palco e o Mundo. E tem mais a Fabiana Nascimento que posta em notas no seu perfil no Facebook. É um jeito outro de conhecer as pessoas através dos livros que as encantaram e encantam. Acompanhe nossa brincadeira.

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Hoje é o dia da choradeira…

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Dia 04 — O primeiro livro que lhe fez chorar

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O primeiro livro que me fez chorar me fez chorar muito. Muito mesmo.

Era inicinho de 1988, tinha 16 anos, estava dando meus primeiros passos como militante do movimento estudantil secundarista, me dizia comunista e me interessava por todas as histórias de outros militantes com os quais me pretendia igual. Era uma espécie de investigação particular, ficava tentando descobrir o que havia de semelhante entre eles e eu. Motivações, inadaptação com tempo, inconformismo com a vida…

Olga Benario foi a militante que mais me identifiquei até conhecer Pagu, e a narrativa do Fernando Morais é espetacular e torna sua história ainda mais especial. Ele te transporta para a Alemanha do final dos anos 20 e para dentro dos sonhos e da vida de Olga. É possível sentir sua coragem, sua ousadia, seu amor ao partido e aos seus ideiais, sua firmeza de caráter e cada pequena angústia e temor que todo militante por mais duro que seja sente.

Foi a primeira vez que tive certeza que o caminho escolhido pela minha ideologia era sem volta e foi a primeira percepção concreta do ódio que uma ideologia dissonante causa. Me sentia tão estranha e ao mesmo tempo tão confortável em me dizer comunista — eu só soneguei esse autointitulação nos tempos de filiação ao PT (1989-1999) porque soava estranho –, porque aqui no meu mundo “ser” assim não era/é normal.

Logo nas primeiras páginas de Olga, Morais relata o sequestro do professor Otto Braun (namorado de Olga) chefiado por ela (aos 16 anos de idade) e outros militantes da juventude comunista alemã e os dias seguintes à ação, como eles foram trocando de casa e contando com o abrigo e apoio dos moradores do bairro operário de Neuktilln e como eram aplaudidos nas sessões de cinema ao serem apresentados pela polícia como procurados.

Isso me deu uma outra dimensão da luta pela transformação do mundo. Em alguns lugares desse planeta os trabalhadores tinham consciência política de sua opressão e apoiavam os comunistas. Nem todos os lugares eram como o Brasil, onde até hoje somos vistos como estranhos no ninho e temos nossa ideologia distorcida porque a ampla maioria das pessoas é explorada calada, cabisbaixa e ainda acha que está certo assim.

Fernando Morais e Olga foram os responsáveis por desvelar para mim a verdadeira face de Getúlio Vargas, presidente que nos livros de história oficiais é descrito como popular, injustiçado e perseguido por defender o povo pobre. Mesmo eu, gaúcha e conhecedora de sua tradição de estanceiro e fazendeiro rico, não conseguia ver qualquer incongruência no seu estilo de vida e o que dizia defender — fruto também da escola que não incentiva o pensamento crítico. Ou seja, Olga Benario foi a responsável por me ensinar que não basta assumir uma ideologia para adquirir consciência de classe ou conseguir ler a realidade em todos os seus aspectos opressivos. É preciso ler muito, discutir coletivamente, aprender a analisar conjuntura e estar sempre muito bem informado. E isso também deu outro sentido ao meu sonho pessoal de ser jornalista. Foi quando comecei a ver o caminho onde o jornalismo se fundia com a minha causa.

Olga foi também responsável por me apresentar o lado mais humano e frágil de Prestes e certamente passei a respeitá-lo bem mais depois do livro (secundaristas tem uma pretensão e um desprezo quase que natural de quem divergem — imaturidade define).

Junto com todas as lágrimas que derramei lendo Olga — e elas começaram a rolar desde a emoção inicial com sua coragem –, vieram também duras constatações e descobertas. Fundamentais constatações e descobertas! Não lembro de outro livro com o qual tenha chorado tanto nem tão profundamente. Choro até hoje ao relembrar sua trajetória, chorei vendo o filme de Jaime Monjardim adaptado do livro (mesmo com todas as críticas cinematográficas) e acho que nunca deixarei de chorar por Olga.

“Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo.”

Uma dica: Para quem acha que conheceu Olga Benario através do filme de Monjardim, é melhor ler o livro.

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Baixe Olga em pdf daqui.

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Também estão participando da brincadeira a Luciana do Eu Sou a Graúna, a Tina do Pergunte ao Pixel, a Renata do As Agruras e as Delícias de Ser, a Rita do Estrada Anil, a Marília do Mulher Alternativa, a Grazi do Opiniões e Livros. A Mayara do Mayroses diz que começa hoje (é pra HOJE mesmo, May???). Mais alguém?

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