Arquivo do autor:Niara de Oliveira

Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo.

na corda bamba, uma síntese

instabilidade

há situações que me desgraçam a cabeça. minha geladeira e despensa não resistirem a uma semana de intempérie; a casa suja e bagunçada e estar ao mesmo tempo desanimada para limpar/arrumar; dever grana ou favor para amigue(s) e não conseguir pagar/devolver; estar desempregada; e todas essas situações atrapalhando minha criatividade e capacidade de superação.

tudo isso, junto ou separado, acaba me deixando doente. certeza que têm uma imensa influência no meu pescoço quase sempre empedrado, nas noites mal dormidas, nos nós das minhas costas e nas consequentes enxaquecas, e nos ataques do “asiático” _aquele oriental canalha e desgraçado!

esse é o quadro atual.

a boa notícia? é no meio desse caos que estou me livrando dos braços da depressão e nadando de volta a minha superfície. não poderei me dar o luxo de esperar um momento melhor.

esse já é o sexto ciclo. que não venha o próximo.não me afoguei por pouco dessa vez. e que em algum momento minha capacidade criativa dê jeito nesse caos, em meio a ele. acho que meu coração não suporta mais tanta instabilidade, tanta corda bamba…

eu gosto é de chão, firme, para caminhar descalça.

=/

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do que nos falta

há alguns anos uma pessoa com a qual estava tretando (nem lembro o assunto da treta) me chamou em privado e disse que estava me desamigando virtualmente antes que se estressasse ao ponto de ter um câncer, dizendo: “entre eu e você ter um câncer, tenha o câncer você”. sim, a pessoa me desejou um câncer por causa de uma treta de rede social.

há alguns meses uma amiga querida, dessas que gostaria de manter contato pra vida toda, meio que estava se afastando, e eu preocupada com sua saúde e bem estar escrevi perguntando dela. respondeu dizendo preferir “evitar as energias negativas” e por isso se afastou. sim, a pessoa se referiu a mim como energia negativa.

não é que falte amor ou empatia para as pessoas. falta é respeito e gentileza mesmo no trato com o outro no dia a dia. tratar as pessoas, qualquer uma, como gostaria de ser tratado deveria ser a condição primeira para a vida em sociedade. até eu que sou bem antissocial sei disso e me comporto de forma razoável.

vejo, escuto e leio coisas parecidas todos os dias. quando não é comigo são amigos reclamando de coisas tão absurdas quanto. e fico cá ruminando com meus botões… qual a necessidade disso? que bem pode trazer desejar o mal a outra pessoa?

de verdade? torço para que cada uma das pessoas acima tenha alcançado seus objetivos de bem estar se afastando de mim. porque eu, apesar de bem chocada com o mal e grosseria gratuitos, acabei por ficar aliviada com o afastamento.

fazer o quê, né?

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agora é só o queijo mesmo

queijo

fazia tempo que não comia queijo. muito tempo. as pessoas ficavam me dizendo “tem que comer queijo, não pode se entregar, não pode viver sem queijo”. e eu me esquivando. não sentia vontade. até pensava na possibilidade de forçar um tiquinho a minha barra e comer queijo mesmo sem vontade, mas cada vez que tentava era um desastre. e o queijo foi ficando cada dia mais distante.

semana passada comecei a sentir vontade de comer queijo, assim, “do nada”. combinei pra hoje. acordei cansada, já na negativa, mas fui deixando o dia correr. se tudo estivesse ok no horário combinado, hoje seria o dia de comer queijo de novo.

comi. foi bom. mas estou exausta. pensa que alguém a minha volta entendeu o tanto e o porquê da minha exaustão? “ah, se comeu queijo, comesse goiabada também”. respiro fundo e tento evitar os pensamentos de nunca mais comer queijo novamente.

poxa… respeita. uma coisa de cada vez. ok queijo com goiabada, mas a goiabada agora não.

ainda não.

agora é só o queijo mesmo.


e veio o dia 21…

não foi uma noite fácil. mas um combo de relaxante muscular e analgésico específico para enxaqueca mais um chazinho calmante me fizeram capotar enfiada debaixo do edredom a pedido da madrugada gélida de Satolep.

infelizmente não deu para esquecer. e nem é possível escrever a respeito ainda. mas… deu para decidir algumas coisas: nunca mais colaborarei com as violências sofridas e nunca mais me sujeitarei a fazer o que não quero, àquilo que até o corpo trava em negativa concordando com o cérebro. nunca mais!

vem aí um longo período de mudanças, que só deve encerrar no final de 2017, e vou aproveitar esse período para criar um ambiente mais dócil e amável para mim. afinal, lar é pra isso. né?

é impossível escrever ou produzir qualquer outra coisa onde é preciso lutar para garantir minutos de silêncio e paz ou para atividades que estimulem o pensamento e a criatividade.

enfim… é inverno. tempo de acumular energias para o desabrochar das flores. e é isso que vou fazer.

preciso de meias de lã.

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atropelamento e fuga

o dia hoje foi tão horrível, tão violento… me atropelou de um jeito… e me deixou lá esmigalhadinha no chão. e o único abrigo que encontrei foi justamente onde menos esperava.

está tão difícil até de lembrar _dirá tentar lidar com_ que minha única saída será fingir que não aconteceu. e assim será.

porém, foram tão raras as vezes que me senti no colo da minha mãe nesses quase 46 anos de vida que de hoje escolhi guardar só isso, a sua percepção e cuidado quando tudo era aspereza, agressão e horror.

no mais… vem ni mim 21 de junho!

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Minha noite com Bob

essa noite eu trepei com Robert Redford. “Bob”, foi assim que me pediu que o chamasse. sim, foi sonho. mas não interessa…EU TREPEI COM ROBERT REDFORD!

minha amiga Iaiá estava com problemas. era introspectiva demais e pouco falava da vida pessoal. numa sexta à noitinha sobramos só eu e ela da galera do trabalho no boteco, e ela parecia aflita. perguntei o que era e ela me disse que teria que passar o final de semana com o pai. já não era mais criança nem adolescente, mas fazia parte da terapia dos dois a reaproximação. ele já tinha outra família, uma madrasta oficial e outros dois ou três irmãos também já adultos.

Iaiá ligou para o pai e perguntou se poderia levar uma amiga, para o caso desse primeiro reencontro nesse formato ser mais difícil e tals. ele concordou. fomos direto do bar. e eis que o pai da Iaiá era ninguém mais ninguém menos do que ROBERT REDFORD! trombetas soaram dentro da minha cabeça. suava frio. coração disparado. como assim, eu estava diante de Robert Redford????????????????????

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por dentro estava num triplo twist carpado em looping, por fora totalmente paralisada. passado o susto, apresenta, cumprimentos, aperta a mão, meio abraça, finge que está tudo bem. respira. afasta. mostra a casa, os quartos de hóspede onde ficaremos, tenta nos deixar à vontade. pai e filha vão conversar em reservado, enquanto eu vou tomar um banho e tentar _veja bem, TENTAR_ me recuperar e resistir à ideia de pegar o celular e dar a notícia no tuíter.

jantar, sobremesa, vinho depois, música, Iaiá se recolhe, ele também. eu fico, né? quedê sono? quando finalmente me acalmo e penso em me recolher ele reaparece dizendo não conseguir dormir, que é um problema recorrente a insônia, notívago… eu também. engatamos um papo bom, daqueles que não para nunca mais, e começamos a rir e a chegar perto… e dicapoco ele me pede para chamá-lo apenas de “Bob”. eu chamo, né? vemmmmmmmmmmmm… veio.

desculpa, é i-m-p-o-s-s-í-v-e-l descrever a trepada. tal e qual em Proposta Indecente deixarei apenas a sugestão de como foi. não existem palavras para isso. acordei muito tarde no dia seguinte, perdi o almoço e achei que a Iaiá já estava melhor ambientada e decidi deixá-la só com esse pedaço da família e seguir os passos de sua terapia. Bob me acompanhou até a porta. eu flutuava.

no caminho para casa fui perseguida por bandidos irlandeses, máfia mexicana, fui parar num xópim, atiraram em mim, tentaram me empurrar escada abaixo, no poço do elevador…não interessa. apenas flutuava. EU TREPEI COM ROBERT REDFORD!

não sabia como ia contar isso pra minha amiga, podia ferrar a terapia e a reaproximação dela com o pai, estava me sentindo péssima [?????????????????]…não interessa. EU TREPEI COM ROBERT REDFORD!!!

foi só um sonho, sim, eu sei. mas, né… NÃO INTERESSA. e desculpa se pareço chata, pedante e repetitiva, mas… EU TREPEI COM ROBERT REDFORD!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

para. respira. com calma… obrigada, Iaiá! minha noite com Bob foi inesquecível. ❤


o que não fui

queria ter um mínimo de ânimo e disposição para me aventurar em algum projeto profissional. qualquer um. um que desse sentido a minha vida e a minha escolha pelo jornalismo. qualquer um que fizesse voltar a respirar a jornalista que morava em mim, em algum lugar, escondida. tão escondida que pode até ter ido embora e nem percebi…

jornalistas são contadores de histórias e alguns, os bons, guardiões da memória. e um dos vícios da profissão eu adquiri: contar o tempo. olhar pra trás pensando em fatos relevantes, datas, etc. daí que olhando para a minha própria história me dei conta que faltam poucos meses para completar 20 anos de formada. vinte anos. e doeu perceber. até pensei em perguntar a jornalistas amigos onde estavam quando completaram 20 anos de exercício da profissão, em que veículo, em que situação na vida, se estavam felizes, satisfeitos e talecoisa. mas… pra que fuçar ainda mais essa ferida, né?

há 20 anos eu finjo para mim mesmo que sou jornalista para não reconhecer que fracassei no meu único grande sonho e projeto individual. [respira fundo, seca as lágrimas] basta! é chegada a hora de assumir que não deu, e tentar lidar com isso da melhor maneira possível. pelo menos não precisarei passar por aquela cena dramática de rasgar o diploma, rá!, ele não vale mais nada faz tempo. vai ficar guardado amarelando como comprovante do que não vivi.

confesso que ainda não sei bem o que responder quando me perguntarem “profissão”, “o que tu faz”. ao menos não me sentirei mais uma fraude como quando verbalizava a resposta anterior.

então… ensaiando: sou Niara de Oliveira, pelotense, torcedora xavante, tenho 45 anos e ainda não sei muito bem o que vou ser. só sei o que não fui: jornalista.

fim