Arquivo do autor:Niara de Oliveira

Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo.

e veio o dia 21…

não foi uma noite fácil. mas um combo de relaxante muscular e analgésico específico para enxaqueca mais um chazinho calmante me fizeram capotar enfiada debaixo do edredom a pedido da madrugada gélida de Satolep.

infelizmente não deu para esquecer. e nem é possível escrever a respeito ainda. mas… deu para decidir algumas coisas: nunca mais colaborarei com as violências sofridas e nunca mais me sujeitarei a fazer o que não quero, àquilo que até o corpo trava em negativa concordando com o cérebro. nunca mais!

vem aí um longo período de mudanças, que só deve encerrar no final de 2017, e vou aproveitar esse período para criar um ambiente mais dócil e amável para mim. afinal, lar é pra isso. né?

é impossível escrever ou produzir qualquer outra coisa onde é preciso lutar para garantir minutos de silêncio e paz ou para atividades que estimulem o pensamento e a criatividade.

enfim… é inverno. tempo de acumular energias para o desabrochar das flores. e é isso que vou fazer.

preciso de meias de lã.

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atropelamento e fuga

o dia hoje foi tão horrível, tão violento… me atropelou de um jeito… e me deixou lá esmigalhadinha no chão. e o único abrigo que encontrei foi justamente onde menos esperava.

está tão difícil até de lembrar _dirá tentar lidar com_ que minha única saída será fingir que não aconteceu. e assim será.

porém, foram tão raras as vezes que me senti no colo da minha mãe nesses quase 46 anos de vida que de hoje escolhi guardar só isso, a sua percepção e cuidado quando tudo era aspereza, agressão e horror.

no mais… vem ni mim 21 de junho!

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Minha noite com Bob

essa noite eu trepei com Robert Redford. “Bob”, foi assim que me pediu que o chamasse. sim, foi sonho. mas não interessa…EU TREPEI COM ROBERT REDFORD!

minha amiga Iaiá estava com problemas. era introspectiva demais e pouco falava da vida pessoal. numa sexta à noitinha sobramos só eu e ela da galera do trabalho no boteco, e ela parecia aflita. perguntei o que era e ela me disse que teria que passar o final de semana com o pai. já não era mais criança nem adolescente, mas fazia parte da terapia dos dois a reaproximação. ele já tinha outra família, uma madrasta oficial e outros dois ou três irmãos também já adultos.

Iaiá ligou para o pai e perguntou se poderia levar uma amiga, para o caso desse primeiro reencontro nesse formato ser mais difícil e tals. ele concordou. fomos direto do bar. e eis que o pai da Iaiá era ninguém mais ninguém menos do que ROBERT REDFORD! trombetas soaram dentro da minha cabeça. suava frio. coração disparado. como assim, eu estava diante de Robert Redford????????????????????

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por dentro estava num triplo twist carpado em looping, por fora totalmente paralisada. passado o susto, apresenta, cumprimentos, aperta a mão, meio abraça, finge que está tudo bem. respira. afasta. mostra a casa, os quartos de hóspede onde ficaremos, tenta nos deixar à vontade. pai e filha vão conversar em reservado, enquanto eu vou tomar um banho e tentar _veja bem, TENTAR_ me recuperar e resistir à ideia de pegar o celular e dar a notícia no tuíter.

jantar, sobremesa, vinho depois, música, Iaiá se recolhe, ele também. eu fico, né? quedê sono? quando finalmente me acalmo e penso em me recolher ele reaparece dizendo não conseguir dormir, que é um problema recorrente a insônia, notívago… eu também. engatamos um papo bom, daqueles que não para nunca mais, e começamos a rir e a chegar perto… e dicapoco ele me pede para chamá-lo apenas de “Bob”. eu chamo, né? vemmmmmmmmmmmm… veio.

desculpa, é i-m-p-o-s-s-í-v-e-l descrever a trepada. tal e qual em Proposta Indecente deixarei apenas a sugestão de como foi. não existem palavras para isso. acordei muito tarde no dia seguinte, perdi o almoço e achei que a Iaiá já estava melhor ambientada e decidi deixá-la só com esse pedaço da família e seguir os passos de sua terapia. Bob me acompanhou até a porta. eu flutuava.

no caminho para casa fui perseguida por bandidos irlandeses, máfia mexicana, fui parar num xópim, atiraram em mim, tentaram me empurrar escada abaixo, no poço do elevador…não interessa. apenas flutuava. EU TREPEI COM ROBERT REDFORD!

não sabia como ia contar isso pra minha amiga, podia ferrar a terapia e a reaproximação dela com o pai, estava me sentindo péssima [?????????????????]…não interessa. EU TREPEI COM ROBERT REDFORD!!!

foi só um sonho, sim, eu sei. mas, né… NÃO INTERESSA. e desculpa se pareço chata, pedante e repetitiva, mas… EU TREPEI COM ROBERT REDFORD!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

para. respira. com calma… obrigada, Iaiá! minha noite com Bob foi inesquecível. ❤


o que não fui

queria ter um mínimo de ânimo e disposição para me aventurar em algum projeto profissional. qualquer um. um que desse sentido a minha vida e a minha escolha pelo jornalismo. qualquer um que fizesse voltar a respirar a jornalista que morava em mim, em algum lugar, escondida. tão escondida que pode até ter ido embora e nem percebi…

jornalistas são contadores de histórias e alguns, os bons, guardiões da memória. e um dos vícios da profissão eu adquiri: contar o tempo. olhar pra trás pensando em fatos relevantes, datas, etc. daí que olhando para a minha própria história me dei conta que faltam poucos meses para completar 20 anos de formada. vinte anos. e doeu perceber. até pensei em perguntar a jornalistas amigos onde estavam quando completaram 20 anos de exercício da profissão, em que veículo, em que situação na vida, se estavam felizes, satisfeitos e talecoisa. mas… pra que fuçar ainda mais essa ferida, né?

há 20 anos eu finjo para mim mesmo que sou jornalista para não reconhecer que fracassei no meu único grande sonho e projeto individual. [respira fundo, seca as lágrimas] basta! é chegada a hora de assumir que não deu, e tentar lidar com isso da melhor maneira possível. pelo menos não precisarei passar por aquela cena dramática de rasgar o diploma, rá!, ele não vale mais nada faz tempo. vai ficar guardado amarelando como comprovante do que não vivi.

confesso que ainda não sei bem o que responder quando me perguntarem “profissão”, “o que tu faz”. ao menos não me sentirei mais uma fraude como quando verbalizava a resposta anterior.

então… ensaiando: sou Niara de Oliveira, pelotense, torcedora xavante, tenho 45 anos e ainda não sei muito bem o que vou ser. só sei o que não fui: jornalista.

fim


Cheguei aos 45. Ê.

meu bolo de níver feito pela mamis (pêssego, chantilly e chocolate)

meu bolo de níver feito pela mamis (pêssego, chantilly e chocolate)

Completando 45 anos com aquela cara (exageraaaaaada) e ânimo de 90, resmungando muito e achando que a vida foi cruel demais comigo. E achando que estava pouco, mandou mais. Esse ano só quero esquecer. Não consegui viajar e rever pessoas queridas, mergulhei na depressão de novo e no comecinho de dezembro fui demitida. Eu estaria reclamando do mesmo jeito mesmo sem tudo isso, cêis sabem, mas parece que 2016 resolveu me dar motivo para reclamar. Então… pronto, reclamei.

Dizem que 2017 é ano “um”, ano de recomeços, de iniciar novos projetos, embarcar em novas aventuras. Pois, bem. Estou sendo forçada a recomeçar. E vou. Tenho um companheiro paciente, generoso e doce (pelo menos comigo) que faz ‘de um tudo’ para tornar minha vida melhor. Pena que nem ele, nem o desejo dos amigues queridos, nem a lindeza e amor do Parque Jurassí sejam suficientes para me trazer à tona hoje. Daí que vou ficar mais um tantinho mergulhada nessas águas turvas. Desculpa. Daqui a pouco eu volto.

Afinal acredito no poetinha, “a tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste não“.

Mas antes, para não perder a vibe da reclamação, deixa eu dar na cara de 2016 porque ele fez por merecer…

minha-mao-na-sua-cara


A história é para ser mudada

O aniversário do AI-5 e seus reflexos e sombras na democracia

Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência.” – Jarbas Passarinho, na reunião que decidiu os termos do Ato Institucional n.º 5 se dirigindo ao então presidente, o general Arthur da Costa e Silva

A gente vive a comparar tudo, inclusive épocas e fatos. Embora para a esquerda uma frase sobre a repetição da história viva ressoando e sendo repetida, ela é mito. A história não se repete. Mudam as pessoas, seus ânimos e consciências social e política, as condições, a conjuntura, as posições no tabuleiro. A observação de Marx fala sobre o uso teatral de referências positivas ou mitos do imaginário popular para enganar o povo. De novo: a história não se repete.

Temos falado, escutado, escrito e lido muito sobre golpe e as comparações deste com o outro de 64. Só que aquele foi um golpe no amplo sentido da expressão. Teve tanque na rua, presidente deposto, regime deposto, democracia e direitos constitucionais suprimidos. Esse de agora foi um golpe institucional, “branco”, usando (ou deturpando, como preferirem) os meios da própria democracia. Não é a primeira vez, e nem será a última, que a democracia é usada contra o povo, contra seus direitos, vontade, legitimidade.

Hoje é aniversário da instituição da ditadura em sua face mais dura e perversa no Brasil. Daí que com a votação da PEC 55 (ex-PEC 241) em segundo turno no Senado Federal não faltou quem a comparasse ao decreto do AI-5 naquele fatídico 13 de dezembro de 1968. Mas percebam, por favor, que há 48 anos o Congresso foi fechado, qualquer reunião com mais de duas pessoas numa esquina à noite poderia terminar em prisão e tortura, Habeas Corpus foi cancelado. Se a prisão não fosse registrada havia uma imensa possibilidade do preso ou presa nunca mais ser visto. Nessa toada, milhares de opositores (ou não) à ditadura estavam sendo caçados, torturados, assassinados e desaparecidos.

Veio a anistia, voltaram os exilados, veio a abertura, eleições diretas, constituinte, mas a tortura e o desaparecimento permaneceram, institucionalizados como prática das polícias, e nem com a promulgação da Constituição Federal em 1988 com todas as garantias de Direitos Humanos isso mudou. Para usufruir e reivindicar direitos humanos é preciso primeiro ser reconhecido como humano, e essa é uma realidade ainda muito distante para pretos, mulheres e LGBTs pobres. E claro que a linha tênue que define quais humanos são de fato e de direito humanos é a classe social. Se não temos centros especializados de tortura é porque é melhor não ter um local específico para isso, mesmo sabendo que quase toda delegacia ou unidade policial deste país tem uma salinha para interrogatórios reservados. Já dizia o Marcelo Yuka que “todo camburão tem um pouco de navio negreiro“. Se os desaparecidos da democracia vão se amontoando no esquecimento é porque esquecemos também dos desaparecidos da ditadura.

Não tenho dúvidas que os ataques a direitos duramente conquistados nos últimos 30 anos, e alguns até bem mais antigos além da atual falta de pudor em defender a volta da ditadura, tem uma ligação íntima com a impunidade dos crimes cometidos pelo Estado contra seus cidadãos durante da ditadura civil-militar (vou continuar usando esse termo porque, embora o poder fosse exercido pelas Forças Armadas, havia apoio e participação civil no núcleo central da ditadura 1964-1985). As pessoas sequer sabem o que de fato aconteceu durante a ditadura e, infelizmente, todo o trabalho da Comissão Nacional da Verdade, concluído há dois anos, foi solenemente ignorado. O atual governo, fruto de uma gambiarra na democracia, vem dia a dia desestruturando todo o trabalho e esforços em prol da justiça de transição. Não somos mais apenas o país mais atrasado nesse campo, somos empecilho para os outros países do cone sul, também vítimas de golpes militares, que abriram seus arquivos, reviram suas leis de anistia e estão punindo torturadores e assassinos.

Sim, há várias violações aos direitos constitucionais e democráticos que atentam contra a liberdade de expressão, manifestação e organização. Mas, pasmem!, elas foram aprovadas em lei dentro do trâmite do nosso regime “democrático”. A naturalização com que as polícias reprimem apenas as manifestações de trabalhadores e estudantes de esquerda e/ou contrários ao status quo é só o derrubar das máscaras. Com exceção de um breve período entre a abertura em 1985 e meados da década de 90, sempre convivemos com a repressão policial na rua. E mesmo nesse período de trégua, regionalmente a polícia sempre esteve aí para bater.

E é por isso que precisamos continuar lutando pela abertura dos arquivos secretos da ditadura militar, pela busca dos corpos e restos mortais dos desaparecidos políticos e pela revisão da Lei da Anistia para que se possa processar e punir criminalmente as violações de direitos humanos cometidas pelo Estado brasileiro entre 1964 e 1979) e pela manutenção de direitos conquistados a tão duras penas e perdas.

Talvez o 13 de dezembro de 1968 nunca tenha acabado. Talvez a tal abertura e a própria constituição de 1988 tenham sido apenas farsas encenadas dentro daquilo que denunciava Marx. Fato é que democracia não é ausência de conflito e muito menos ausência de repressão. E quem precisa de uma ditadura quando se tem uma democracia que a representa tão bem, né? Fato é que em sabendo que a história não se repete ela está aí para ser mudada e revolucionada, para quando pudermos e quisermos.

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*texto para a mobilização #desarquivandoBR


O dia em que ajudei Zimmermann a fugir do Brasil

Rogério Zimmermann (foto: Jonathan Silva / Grêmio Esportivo Brasil)

Rogério Zimmermann (foto: Jonathan Silva / Grêmio Esportivo Brasil)

Rogério Zimmermann é um estrangeiro que vivia em exílio político no Brasil, e trabalhava como treinador de futebol no meu Grêmio Esportivo Brasil aqui em Pelotas, sul do Rio Grande. País de origem dele? Não lembro. Mas lembro que éramos muito amigos, ele morava no Estádio Bento Freitas e eu tinha acesso liberado às dependências todas do estádio. Outras mulheres também tinham, não era um privilégio exclusivo meu.

Logo após a façanha de levar o Xavante à série A do Brasileirão _no terceiro acesso consecutivo dentre as divisões do campeonato, fato único e histórico e que o elevara ao posto de maior ídolo do clube em todos os tempos, mesmo sem ter marcado diretamente nenhum gol_, meu amigo Rogério me chamou para um papo meio clandestino, certificando-se de que não havia nenhum aparelho ou dispositivo eletrônico por perto que pudesse registrar a conversa. Rogério parecia meio persecutório, apesar da imensa auto-confiança que é sua marca registrada.

Nessa conversa me fez um pedido inusitado: ajudá-lo a fugir do Brasil _o Grêmio Esportivo_ e ir para seu país de origem rever sua família _por algum motivo nesse momento ele poderia voltar. Sou xavante doente desde os 18 anos, não é segredo para ninguém. Mas também não é segredo que sou capaz de passar por cima de paixões e ideologias em busca de justiça, principalmente para amigos. Sei bem pelo relato de amigos próximos o que é viver em exílio, despatriado… Não exitei. O plano de fuga do amigo Rogério foi executado rapidamente. No dia da confraternização da equipe, direção e torcida pelo acesso à série A no Bento Freitas partiríamos, logo depois da festa no centro do gramado.

Não sei dirigir, daí escolhi uma amiga boa no volante para nos ajudar na empreitada. Que amiga? Não lembro. Só lembro que era fotógrafa, e da apreensão na saída do carro em meio à torcida ali pela João Pessoa. Ninguém poderia perceber a presença do ídolo no carro, ou não sairíamos. Ufa, conseguimos! Partiu estrada. No meu plano tínhamos que evitar o aeroporto Salgado Filho onde Rogério poderia ser reconhecido por algum torcedor ou jornalista. Longas horas de estrada, parando em pequenos e discretos restaurantes até chegar em São Paulo. Já em Guarulhos, num hotelzinho razoavelmente próximo ao aeroporto, Rogério cochichou em meu ouvido o número da nossa reserva no voo. Tinha uma senha também. Mas pra que senha? Embarcaríamos os três, com um plano falso da gravação de um documentário no país de Zimmermann.

Lembro que o cochicho de Rogério com a informação me incomodou. Há quase dois dias não tomava banho e o incômodo de estar cheirando mal me impediu de decorar o número da reserva. Rogério já respirava aliviado, confiante que tudo daria certo. Parte da agonia resolvida: consegui tomar banho. Trocamos informações sobre o melhor jeito de arrumar a mala e guardar objetos que não poderiam quebrar, o que seria bagagem de mão, etc. Fechamos as malas, cada um tinha uma pequena e partimos para o aeroporto com uma razoável folga de horário. Ainda tínhamos uma última tarefa antes de embarcar.

Já no aeroporto, check-in feito e na sala de embarque aguardando o voo fomos cumprir a última etapa do plano: a gravação da despedida de Zimmermann para a torcida xavante. Gravei, editei no notebook sentada no chão mesmo e subi no youtube. Deixei o vídeo privado até a primeira conexão já fora do país para publicar e divulgar nas redes. Acordei no momento em que me assustava com o número de visualizações crescendo por segundo.

Ca-ra-ca! Nunca tinha tido um sonho tão maluco. De qualquer forma não custa pedir: NÃO NOS ABANDONE, AMIGO ROGÉRIO!

#FicaZimmermann