Arquivo do autor:Niara de Oliveira

Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo.

o que não fui

queria ter um mínimo de ânimo e disposição para me aventurar em algum projeto profissional. qualquer um. um que desse sentido a minha vida e a minha escolha pelo jornalismo. qualquer um que fizesse voltar a respirar a jornalista que morava em mim, em algum lugar, escondida. tão escondida que pode até ter ido embora e nem percebi…

jornalistas são contadores de histórias e alguns, os bons, guardiões da memória. e um dos vícios da profissão eu adquiri: contar o tempo. olhar pra trás pensando em fatos relevantes, datas, etc. daí que olhando para a minha própria história me dei conta que faltam poucos meses para completar 20 anos de formada. vinte anos. e doeu perceber. até pensei em perguntar a jornalistas amigos onde estavam quando completaram 20 anos de exercício da profissão, em que veículo, em que situação na vida, se estavam felizes, satisfeitos e talecoisa. mas… pra que fuçar ainda mais essa ferida, né?

há 20 anos eu finjo para mim mesmo que sou jornalista para não reconhecer que fracassei no meu único grande sonho e projeto individual. [respira fundo, seca as lágrimas] basta! é chegada a hora de assumir que não deu, e tentar lidar com isso da melhor maneira possível. pelo menos não precisarei passar por aquela cena dramática de rasgar o diploma, rá!, ele não vale mais nada faz tempo. vai ficar guardado amarelando como comprovante do que não vivi.

confesso que ainda não sei bem o que responder quando me perguntarem “profissão”, “o que tu faz”. ao menos não me sentirei mais uma fraude como quando verbalizava a resposta anterior.

então… ensaiando: sou Niara de Oliveira, pelotense, torcedora xavante, tenho 45 anos e ainda não sei muito bem o que vou ser. só sei o que não fui: jornalista.

fim


Cheguei aos 45. Ê.

meu bolo de níver feito pela mamis (pêssego, chantilly e chocolate)

meu bolo de níver feito pela mamis (pêssego, chantilly e chocolate)

Completando 45 anos com aquela cara (exageraaaaaada) e ânimo de 90, resmungando muito e achando que a vida foi cruel demais comigo. E achando que estava pouco, mandou mais. Esse ano só quero esquecer. Não consegui viajar e rever pessoas queridas, mergulhei na depressão de novo e no comecinho de dezembro fui demitida. Eu estaria reclamando do mesmo jeito mesmo sem tudo isso, cêis sabem, mas parece que 2016 resolveu me dar motivo para reclamar. Então… pronto, reclamei.

Dizem que 2017 é ano “um”, ano de recomeços, de iniciar novos projetos, embarcar em novas aventuras. Pois, bem. Estou sendo forçada a recomeçar. E vou. Tenho um companheiro paciente, generoso e doce (pelo menos comigo) que faz ‘de um tudo’ para tornar minha vida melhor. Pena que nem ele, nem o desejo dos amigues queridos, nem a lindeza e amor do Parque Jurassí sejam suficientes para me trazer à tona hoje. Daí que vou ficar mais um tantinho mergulhada nessas águas turvas. Desculpa. Daqui a pouco eu volto.

Afinal acredito no poetinha, “a tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste não“.

Mas antes, para não perder a vibe da reclamação, deixa eu dar na cara de 2016 porque ele fez por merecer…

minha-mao-na-sua-cara


A história é para ser mudada

O aniversário do AI-5 e seus reflexos e sombras na democracia

Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência.” – Jarbas Passarinho, na reunião que decidiu os termos do Ato Institucional n.º 5 se dirigindo ao então presidente, o general Arthur da Costa e Silva

A gente vive a comparar tudo, inclusive épocas e fatos. Embora para a esquerda uma frase sobre a repetição da história viva ressoando e sendo repetida, ela é mito. A história não se repete. Mudam as pessoas, seus ânimos e consciências social e política, as condições, a conjuntura, as posições no tabuleiro. A observação de Marx fala sobre o uso teatral de referências positivas ou mitos do imaginário popular para enganar o povo. De novo: a história não se repete.

Temos falado, escutado, escrito e lido muito sobre golpe e as comparações deste com o outro de 64. Só que aquele foi um golpe no amplo sentido da expressão. Teve tanque na rua, presidente deposto, regime deposto, democracia e direitos constitucionais suprimidos. Esse de agora foi um golpe institucional, “branco”, usando (ou deturpando, como preferirem) os meios da própria democracia. Não é a primeira vez, e nem será a última, que a democracia é usada contra o povo, contra seus direitos, vontade, legitimidade.

Hoje é aniversário da instituição da ditadura em sua face mais dura e perversa no Brasil. Daí que com a votação da PEC 55 (ex-PEC 241) em segundo turno no Senado Federal não faltou quem a comparasse ao decreto do AI-5 naquele fatídico 13 de dezembro de 1968. Mas percebam, por favor, que há 48 anos o Congresso foi fechado, qualquer reunião com mais de duas pessoas numa esquina à noite poderia terminar em prisão e tortura, Habeas Corpus foi cancelado. Se a prisão não fosse registrada havia uma imensa possibilidade do preso ou presa nunca mais ser visto. Nessa toada, milhares de opositores (ou não) à ditadura estavam sendo caçados, torturados, assassinados e desaparecidos.

Veio a anistia, voltaram os exilados, veio a abertura, eleições diretas, constituinte, mas a tortura e o desaparecimento permaneceram, institucionalizados como prática das polícias, e nem com a promulgação da Constituição Federal em 1988 com todas as garantias de Direitos Humanos isso mudou. Para usufruir e reivindicar direitos humanos é preciso primeiro ser reconhecido como humano, e essa é uma realidade ainda muito distante para pretos, mulheres e LGBTs pobres. E claro que a linha tênue que define quais humanos são de fato e de direito humanos é a classe social. Se não temos centros especializados de tortura é porque é melhor não ter um local específico para isso, mesmo sabendo que quase toda delegacia ou unidade policial deste país tem uma salinha para interrogatórios reservados. Já dizia o Marcelo Yuka que “todo camburão tem um pouco de navio negreiro“. Se os desaparecidos da democracia vão se amontoando no esquecimento é porque esquecemos também dos desaparecidos da ditadura.

Não tenho dúvidas que os ataques a direitos duramente conquistados nos últimos 30 anos, e alguns até bem mais antigos além da atual falta de pudor em defender a volta da ditadura, tem uma ligação íntima com a impunidade dos crimes cometidos pelo Estado contra seus cidadãos durante da ditadura civil-militar (vou continuar usando esse termo porque, embora o poder fosse exercido pelas Forças Armadas, havia apoio e participação civil no núcleo central da ditadura 1964-1985). As pessoas sequer sabem o que de fato aconteceu durante a ditadura e, infelizmente, todo o trabalho da Comissão Nacional da Verdade, concluído há dois anos, foi solenemente ignorado. O atual governo, fruto de uma gambiarra na democracia, vem dia a dia desestruturando todo o trabalho e esforços em prol da justiça de transição. Não somos mais apenas o país mais atrasado nesse campo, somos empecilho para os outros países do cone sul, também vítimas de golpes militares, que abriram seus arquivos, reviram suas leis de anistia e estão punindo torturadores e assassinos.

Sim, há várias violações aos direitos constitucionais e democráticos que atentam contra a liberdade de expressão, manifestação e organização. Mas, pasmem!, elas foram aprovadas em lei dentro do trâmite do nosso regime “democrático”. A naturalização com que as polícias reprimem apenas as manifestações de trabalhadores e estudantes de esquerda e/ou contrários ao status quo é só o derrubar das máscaras. Com exceção de um breve período entre a abertura em 1985 e meados da década de 90, sempre convivemos com a repressão policial na rua. E mesmo nesse período de trégua, regionalmente a polícia sempre esteve aí para bater.

E é por isso que precisamos continuar lutando pela abertura dos arquivos secretos da ditadura militar, pela busca dos corpos e restos mortais dos desaparecidos políticos e pela revisão da Lei da Anistia para que se possa processar e punir criminalmente as violações de direitos humanos cometidas pelo Estado brasileiro entre 1964 e 1979) e pela manutenção de direitos conquistados a tão duras penas e perdas.

Talvez o 13 de dezembro de 1968 nunca tenha acabado. Talvez a tal abertura e a própria constituição de 1988 tenham sido apenas farsas encenadas dentro daquilo que denunciava Marx. Fato é que democracia não é ausência de conflito e muito menos ausência de repressão. E quem precisa de uma ditadura quando se tem uma democracia que a representa tão bem, né? Fato é que em sabendo que a história não se repete ela está aí para ser mudada e revolucionada, para quando pudermos e quisermos.

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*texto para a mobilização #desarquivandoBR


O dia em que ajudei Zimmermann a fugir do Brasil

Rogério Zimmermann (foto: Jonathan Silva / Grêmio Esportivo Brasil)

Rogério Zimmermann (foto: Jonathan Silva / Grêmio Esportivo Brasil)

Rogério Zimmermann é um estrangeiro que vivia em exílio político no Brasil, e trabalhava como treinador de futebol no meu Grêmio Esportivo Brasil aqui em Pelotas, sul do Rio Grande. País de origem dele? Não lembro. Mas lembro que éramos muito amigos, ele morava no Estádio Bento Freitas e eu tinha acesso liberado às dependências todas do estádio. Outras mulheres também tinham, não era um privilégio exclusivo meu.

Logo após a façanha de levar o Xavante à série A do Brasileirão _no terceiro acesso consecutivo dentre as divisões do campeonato, fato único e histórico e que o elevara ao posto de maior ídolo do clube em todos os tempos, mesmo sem ter marcado diretamente nenhum gol_, meu amigo Rogério me chamou para um papo meio clandestino, certificando-se de que não havia nenhum aparelho ou dispositivo eletrônico por perto que pudesse registrar a conversa. Rogério parecia meio persecutório, apesar da imensa auto-confiança que é sua marca registrada.

Nessa conversa me fez um pedido inusitado: ajudá-lo a fugir do Brasil _o Grêmio Esportivo_ e ir para seu país de origem rever sua família _por algum motivo nesse momento ele poderia voltar. Sou xavante doente desde os 18 anos, não é segredo para ninguém. Mas também não é segredo que sou capaz de passar por cima de paixões e ideologias em busca de justiça, principalmente para amigos. Sei bem pelo relato de amigos próximos o que é viver em exílio, despatriado… Não exitei. O plano de fuga do amigo Rogério foi executado rapidamente. No dia da confraternização da equipe, direção e torcida pelo acesso à série A no Bento Freitas partiríamos, logo depois da festa no centro do gramado.

Não sei dirigir, daí escolhi uma amiga boa no volante para nos ajudar na empreitada. Que amiga? Não lembro. Só lembro que era fotógrafa, e da apreensão na saída do carro em meio à torcida ali pela João Pessoa. Ninguém poderia perceber a presença do ídolo no carro, ou não sairíamos. Ufa, conseguimos! Partiu estrada. No meu plano tínhamos que evitar o aeroporto Salgado Filho onde Rogério poderia ser reconhecido por algum torcedor ou jornalista. Longas horas de estrada, parando em pequenos e discretos restaurantes até chegar em São Paulo. Já em Guarulhos, num hotelzinho razoavelmente próximo ao aeroporto, Rogério cochichou em meu ouvido o número da nossa reserva no voo. Tinha uma senha também. Mas pra que senha? Embarcaríamos os três, com um plano falso da gravação de um documentário no país de Zimmermann.

Lembro que o cochicho de Rogério com a informação me incomodou. Há quase dois dias não tomava banho e o incômodo de estar cheirando mal me impediu de decorar o número da reserva. Rogério já respirava aliviado, confiante que tudo daria certo. Parte da agonia resolvida: consegui tomar banho. Trocamos informações sobre o melhor jeito de arrumar a mala e guardar objetos que não poderiam quebrar, o que seria bagagem de mão, etc. Fechamos as malas, cada um tinha uma pequena e partimos para o aeroporto com uma razoável folga de horário. Ainda tínhamos uma última tarefa antes de embarcar.

Já no aeroporto, check-in feito e na sala de embarque aguardando o voo fomos cumprir a última etapa do plano: a gravação da despedida de Zimmermann para a torcida xavante. Gravei, editei no notebook sentada no chão mesmo e subi no youtube. Deixei o vídeo privado até a primeira conexão já fora do país para publicar e divulgar nas redes. Acordei no momento em que me assustava com o número de visualizações crescendo por segundo.

Ca-ra-ca! Nunca tinha tido um sonho tão maluco. De qualquer forma não custa pedir: NÃO NOS ABANDONE, AMIGO ROGÉRIO!

#FicaZimmermann


Escolhendo as saudades

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Queria dizer que sinto saudade de todos os amigos e amigas que não vejo há anos. Estaria mentindo. Quase sempre quando os vejo na rua, no pouco que saio de casa, ou em fotos desfilando nas redes sociais fico feliz e nas fotos curto discretamente, meio que para dizer “te vi, gostei de te ver, que bom que estás bem, bom saber de ti”. Mas fica por aí.

Dia desses uma amiga muito querida e que foi muito presente na minha vida até, sei lá, meus 26 ou 27 anos, publicou uma foto nova. Está linda chegando aos 40 anos e eu só consegui curtir com esse significado: “te vi”, “que bom te ver”. Poderia ter dito “saudades tuas”, como alguém escreveu pra mim essa semana e me fez sorrir, mas imediatamente me ocorreu: será que vai gostar de ler que sinto saudade dela? ou vai só pensar “ah, não… a Niara não!”?

Entenderam o drama? Quando a gente tem esse tipo de dúvida sobre amizade é porque já foi, não é mais. E é claro que sinto saudade, esse é praticamente meu segundo nome _embora o registro teime em avisar Luiza_, mas a saudade é outra. Tenho saudade de mim naquele tempo, com aquela pessoa naquele tempo. Agora somos praticamente estranhas. Teria que apresentar tudo de novo, conhecer e estar disposta a conhecer tudo de novo e a reconhecer o que sobrou daquela outra pessoa nessa… e, não, não estou disposta. Tem lembranças que trazem junto dores, o amargo de erros cometidos ou de acertos com pessoas erradas, erros com pessoas erradas…

Minha indisposição tem a ver com a decisão de não mais arrastar as correntes do rancor e dessas dores e amargos. Consegui me livrar delas. Mas esquecer… esquecer é outra coisa. Não sei esquecer. E daquilo que não sei fazer mas quero e me esforço para aprender está a seleção das saudades a sentir. Tem saudade boa, gostinho de quero mais, aquece o coração e faz sorrir. Fico só com essas, [porque não sou] obrigada.

Beijo para aqueles e aquelas que não são dúvidas na minha vida. ♥


O dia em que encontrei Janis Joplin

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Na primavera de 2012 eu morava no Rio de Janeiro e trabalhava em Niterói. Num dia de semana comum peguei a barca ali na Praça XV para ir trabalhar _era o meio mais rápido de chegar. Dia ventoso, sol entre nuvens e de temperatura agradável estava devagar, sem pressa, e podia deixar o povo mais apressado passar na minha frente no desembarque na Praça Arariboia.

Sempre ando observando o chão e o horizonte concomitantemente, e quando olho o chão observo também os pés e os sapatos das pessoas. Passa por mim uma mulher com “pés de colona” _unhas grandes e sujas, calcanhares rachados e sujos_ numa sandália de couro bem desgastada pelo uso. Vou subindo, observando a pessoa toda. Vestido riponga, casaco leve de batique. Cabelão bem grisalho, solto, limpo, nem liso e nem crespo e um pouco embaraçado. Oclão redondo lente rosa escuro. Viro o rosto pro outro lado com sua imagem gravada nos olhos. Mas aí, bateu. A imagem vista ali correspondia a uma imagem antiga da memória.

Pensei: essa mulher parece a Janis Joplin. Uau! Olhei de novo, observei um pouco mais e fiz uma conta rápida de cabeça para saber se a idade que aquela mulher aparentava ter correspondia com a idade que Janis teria se não tivesse morrido de overdose em 4 de outubro de 1970. Correspondia. Janis teria 69 anos completos e aquela mulher aparentava ter exatamente isso. Pensei de novo: é a Janis! A essas alturas eu já estava seguindo-a com o passo mais apressado, indo inclusive na direção contrária a que deveria seguir, com a mão já esticada no ar para lhe tocar.

Estávamos diante do Arariboia e olhei pra ele ali no alto questionando-lhe: “Poxa, como assim? A Janis aqui em Niterói e ninguém percebeu? Quantas vezes ela passou aqui diante da tua tanguinha, Ara? Em que direção ela vai, diz aí? Com que frequência vai ao Rio de Janeiro? Será que vai a Saquarema visitar Serguei? Será que eles continuam aquele romance nunca comprovado?”. Arariboia me fez um sinal discreto para que me calasse e deixasse Janis em paz, em sua vidinha pacata e anônima. Consenti. E a mão esticada no ar desistiu de tocar seu ombro no instante derradeiro.

Deixei-a assim. Janis Joplin continua tranquila lá em Niterói, e guardo com carinho na memória o dia em que a encontrei ali no desembarque das barcas, do outro lado da poça.

#JanisNãoMorreu #4out


Uma aposta para a Niara

Sobre sonhos e fracassos.

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Desde que me entendo por gente (aka faço planos e sonho com o futuro) queria ser jornalista. E mesmo com o ativismo político mais intenso na adolescência que me atrasou um pouquinho, mesmo lá perdida em meio às desilusões políticas e amorosas e efervescência típica da idade, essa era a única certeza: um dia eu seria jornalista.

Esse ser jornalista não cabia no concluir a faculdade ou receber o diploma nem mesmo obter o registro profissional (essa parte, ok, check), ele se espalhava em sonhos do exercício da profissão, em reportagens investigativas perigosas denunciando injustiças, em textos escritos em meio à pressão do relógio e as lágrimas face às dores descobertas. Referia-se fundamentalmente a fazer diferença no mundo, a encontrar as pessoas e com esse exercício profissional transformar suas vidas. Um fazer do trabalho vida, da profissão revolução, de mim mundo.

Óbvio que não consegui. Meu fracasso se assenta em outro, o de ser mãe. E esse segundo me veio por imposição desse mundo machista, não foi sonhado nem querido. Veio e pronto. Tenho tranquilidade hoje de reconhecer que meus fracassos não dependiam apenas de esforço, do querer, de levantar e pegar, fazer. Fiz o que foi possível. Dei o meu melhor. Como ainda estou longe da aposentadoria e nem dei a vida por encerrada, guardei um pouquinho do meu melhor e dos meus sonhos. Alguns são apenas farrapos de outros sonhos maiores, e logo saberei se serão contraditórios êxitos ou costumeiros fracassos (me aguardem).

Sempre achei que era preciso sonhar grande para que qualquer conquista na perspectiva do que foi sonhado fosse uma conquista considerável. Hoje sei que de alguns sonhos não sobram nada, nem a lembrança diante da dureza dos dias e da luta pela sobrevivência. Daí que estou sonhando menor, não para garantir conquista _não há garantias no viver, só riscos_ mas para ficar mais simples de realizar. Para, talvez, constranger um tiquinho o universo em me sacanear tanto e me dar alguma vitória, por menor que seja.

Foi pensando em sonhos e vida profissional e na rotina que cheguei a conclusão que seria bem mais feliz se pudesse mudar para uma casa ampla com vista pra uma lagoa, rio ou mar _alguma água_ e pudesse viver de cozinhar, plantar uma hortinha, um pomar, fazer trabalhos manuais e blogar sobre o dia a dia, as tristezas e alegrias, o mexer nas panelas, alguma artezinha, uma ervinha cultivada aqui, uma fotografia acolá e no meio de tudo escrever. Muito escrever.

Para garantir esse meu pequeno sonho só preciso ganhar na loteria. Alguém aí quer contribuir com um bilhete?

Ou apenas autocomiseração.