Arquivo do autor:Niara de Oliveira

Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo.

no meio do caminho

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a casa que agora abriga o Parque Jurassí é comprida como um suspiro triste. quando está calor gosto do vento que encana. quando está frio não gosto tanto. mas geralmente fico no mesmo lugar… no meio do caminho, no meio da casa.

foi onde me recuperei do susto de quase sufocar sem conseguir respirar. foi onde sentei durante boa parte do dia hoje. foi onde estava anteontem. e tresontonte… é onde tenho tentado me reorganizar, sem sucesso – óbvio.

poderia dizer que é onde posso controlar os filhotes todos – humano, caninos, felinos; mas é uma escolha que nasce da falta de escolhas. é onde estou também na vida, no meio do caminho. não como opção para escolher voltar ou seguir ou mudar, mas parada no meio da nada, em lugar algum, que leva a lugar nenhum.

diferente de antes que me cobrava o ter, ser, estar; agora já não me cobro nada, só lamento. por mim, pelas pessoas com quem poderia ter contribuído, pelo mundo que poderia ter ajudado a mudar, sei lá… apenas lamento.

e espero, o fim do dia, o começo de outro… “acontecimentos”, como diria Marina. espero.

 

 


férias igual caviar

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amigas têm observado no meu comportamento sinais de sanidade. a dor mencionada pela necessidade de afastamento de algo importante, listamento as dívidas, preocupação com o futuro… tudo isso parece ser sanidade. mas de verdade me sinto doente. e ao listar o que devo ao mundo inevitavelmente listei do que sou credora.

47 anos e meio e nunca tive férias. igual como o pagode, “nunca vi, nem comi, eu só ouço falar”. nunca nem ousei sonhar com uma viagem de férias. porque qualquer viagem me parece divertida, mesmo que seja a trabalho ou ativismo ou fugindo. mas viagem de férias, planejada, para exclusivamente passear, com algum dinheiro no bolso, NUNCA.

como é possível viver assim? como é possível chamar isso de vida? sem descanso, sem folga, sem respiro, sem ar?

de novo me encontro embretada pela vida, precisando de um novo trabalho, recomeçar (sem nenhum recurso para isso) e só querendo/precisando de férias.

a imagem desse post é meramente ilustrativa do meu desejo. não estou vendo lá no fim do túnel uma praia. isso é o mais puro delírio.

e ainda me falam em sanidade mental…


chuva e acúmulo

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chuva. acúmulo. acúmulo de chuva e outros. a chuva que se acumula a outros acúmulos e outras chuvas. e eu, que já não tenho mais para onde transbordar, chover, fugir.

tem acúmulo de escritos também, que vou empilhando nos cantos aqui, de vez em quando dou aquela encoxada na pilha para evitar que desabe tudo e adio a arrumação um pouco mais. a verdade é que as pilhas já estão escoradas umas nas outras e não há perspectivas que consiga dar um jeito nessa bagunça. por um triz de passar a chave na porta e deixar tudo quieto lá dentro e abrir uma outra sala para recomeçar o acumulação.

qualquer semelhança com “acumuladores compulsivos” não é mera coincidência. a maioria dos guardados nem sei porque juntei e guardei, mas agora não consigo jogar fora. a poeira conforme se acumula nos guardados, acumula em mim também.

dia desses tentei puxar um papelzito para ler para umas amigas num espicho de reunião feminista. tentei, eu juro. mas era espicho de reunião, já estava tarde e o meu astral anda pesado. é natural que as pessoas tenham coisas mais divertidas para fazer que me ouvir. o papel voltou pra pilha numa nova encoxada antes de fechar a porta.

não entendi quando guardar lembranças e coisas virou um problema e nem mesmo quando os dias de chuva passaram a me estressar mais do que alegrar. o barulho da água caindo na água já empoçada me causa pavor. fico sempre pensando que a água vai acumular demais. porque tudo acumula demais. o pavor de uma tragédia iminente ao alcance do primeiro pensamento mais comprido. e já que eu mesma sou o retrato do acúmulo…

os erros, os acúmulos, os temores… a chuva. não há um mísero estio à vista.

 


quando não é possível viver…

… olho os outros vivendo. e fico feliz, por eles, pela possibilidade aproveitada, pela alegria percebida. compartilho dela, mesmo que pra mim não seja igual.

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faz tempo que larguei as correntes pra lá, parei de arrastá-las. era muito peso mesmo, atrapalhava. inclusive, quando surgia uma possibilidade mixuruca de vida pra mim era impossível aproveitar com aquele peso todo. sim, sou mais inteligente que rancorosa.

mas quando as possibilidades escasseiam, como agora, vai amargurando. é inevitável. e vou espichando mais o olhar para a vida alheia. juro que não sugo energia de ninguém, nem sou invejosa. só lamento não ter um pedacinho daquilo tudo que vejo pra mim também. podia, né?

entenda. não sei bem como fiz todas as minhas escolhas, mas acho que escolhi errado em vários momentos. e tenho noção que sou também responsável por muito do que não tenho e não vivo hoje. mas acho que ou não tive uma visão completa do quadro ou realmente fui sacaneada ao fazer várias escolhas no escuro, tateando.

1989 foi o 1968 da minha geração. e está fechando 30 anos de vários momentos supimpas, decisivos da minha vida. e está impossível não lembrar, não repensar as cagadas, e também ressorrir com os acertos, com a impetuosidade, disposição, ousadia… eu fui muito feliz. vivi plenamente os meus 17 anos inteirinho, de cabo a rabo.

ultimamente tem sido mais espiar mesmo. e nos dias que virão lamentarei de novo não ter vivido esses aqui para ter o que lembrar desse tempo. é um círculo vicioso. enquanto a memória permitir, fico com aquele turbilhão do século passado.

de verdade? eu nem acreditava que ultrapassaria o século. achava que seria barrada na entrada, ou algo parecido. e de certa forma fui barrada. fiquei lá. fuén-fuén-fuééénnnnnnn…

resta a alegria do olhar, que é também triste… como a vida, no geral.

 


o tomatinho na estrada, ele… eu

tomate na estrada

preciso confessar que da mesma forma que amadureci para umas trocentas coisas e situações, me tornei intolerante para outras tantas. e não me refiro só a gente chata e sem noção que estão cada dia mais presentes na vida de todos nós. há coisas que não dou mais conta,  mesmo.

adotamos mais um filhote. Joaquim Francisco, vulgo Joca, chegou no Parque Jurassí numa terça-feira conturbada em todos os sentidos. além da falta de grana para levá-lo imediatamente no veterinário (dez dias depois ele ainda não foi), tínhamos várias instabilidades no ar. de firme mesmo só o Parque Jurassí.

apesar de ser o quinto adotado, esse é o primeiro canino que chegou filhote. Joca é de uma alegria inesgotável, mas é demônio e de caráter negativo, como os demais. e é hiperativo ao extremo. por causa da agitação excessiva estou com dificuldades para me relacionar com ele. todos os demais eu tive aquele surto de dar mais atenção e carinho ao recém chegado que aos demais nos primeiros dias. só Joca não está tendo.

foram anos a fio suportando a hiperatividade do Calvin sem medicação. e até a chegada do Joca não tinha associado a sonolência e o travamento que sinto perto de pessoas hiperativas. e embora esteja me culpando por não estar curtindo-o como deveria, sou grata a ele por me propiciar essa percepção e (re)conhecimento.

sei que tenho o direito a estar exausta e intolerante com a hiperatividade, mas me sinto culpada por não dedicar ao Joca amor, carinho e mimos na mesma medida que aos demais. enquanto escrevo ele está deitado entre os meus pés, me aquecendo inclusive. estou só o tomatinho na estrada, esperando o caminhão para me alinhar corpo e alma.


no último dia de abril

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é sempre do mesmo jeito.

é como achar uma flor/folha seca no meio de um livro e passar o dia dali em diante tendo por companhia os cheiros, sóis ou chuvas, temperaturas, sabores, gentes e até os arrepios na pele do dia em que enfiaste a flor no meio do livro.

basta um acorde, uma cor, um verso. nem precisa fechar o olhos e já estou viajando. nem sempre é agradável. ultimamente trazem junto lágrimas. ando com uma saudade doída de mim. de como era, dos sonhos que acalentava e se perderam, das coisas que não vivi, dos abraços que não dei nem ganhei, das pessoas e lugares que não conheci.

sei que ainda posso. enquanto estiver respirando poderei e blá-blá-blá-whiskas-sachê, mas a gente vai envelhecendo e o que era muito fácil antes agora já parece um calvário. igualzinho aquele poema que o Borges não escreveu. não tenho 85 anos e nem estou morrendo, mas quanto mais os 50 se aproximam menos possibilidades sobram diante dos olhos. os caminhos estreitaram, empedraram e espinharam demais.

o tempo de caminho fácil e aberto trazido à tona neste último suspiro de abril era justamente um tempo perdido, ali entre a Escola Técnica e a faculdade de jornalismo, que sempre defino como desvio no sentido da produção de algo útil. embora intenso, como quase todos os anos daquele período, é como se tivesse jogado fora as possibilidades que tinha. e foram-se junto a disposição para tudo e qualquer coisa. quando olho para aquela Niara sorrio, tanto quanto balanço a cabeça em sinal de reprovação.

ao mesmo tempo que lamento o erro de perder o tempo para algumas coisas penso que deveria ter errado mais. sou muito condescendente com as Niaras de antes e muito crítica com a atual. será melhor inverter? crise existencial justo hoje, vejam só.

hoje, que teve um monte de merda pra dar conta. ataques à universidade pública e sua autonomia por este governo fascista de merda, uma deputada cretina querendo tirar o Paulo Freire de patrono da educação brasileira (ele que é nosso maior legado justo nesta área em que somos tão débeis), ter que assistir o Rodrigo Nhonho Maia virar defensor da Constituição e paladino da democracia, um desabafo soco-no-estômago do Márcio Chagas por todo o racismo sofrido no futebol gaúcho… e na finaleira do dia… ainda tivemos que nos despedir de Beth Carvalho.

deixo aqui uma promessa: no dia da derrota destes fascistas de merda cantarei VOU FESTEJAR a plenos pulmões e sambarei na cara da hipocrisia da sociedade toda. “terei minha vingança, nessa vida ou na próxima”. por todos nós, e pela Beth.


destino

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é muito difícil admitir não ter dado certo na vida para a única coisa que realmente tu sonhaste ser e fazer. eu já tinha tentado admitir isso uma vez. mas não foi suficiente, não foi completo. nunca será. acho que nunca vou conseguir, por mais repita mil vezes. eu sempre achei que tinha o dom, a vocação, o faro para jornalista. e cada vez que farejo uma notícia, um grande furo, que planejo mentalmente a estrutura de uma reportagem que nunca vou realizar, dói. DÓI MUITO.

ahh, Niara… tu poderia fazer os cursos online. existem vários. tudo EAD. são baratos, inclusive. [mas ninguém conta a falta de tempo no meu dia a dia, e nem de grana, por mais merreca que seja. e adivinhem? FALTA. o tempo todo, todo mês, várias vezes no mês. chega a ser piada me dizerem que 150 pila não é nada por um curso de especialização da Abraji quando estou juntando as moedas pro gás ou para termos comida até pingar o próximo pagamento]

ahh, Niara… por que tu sempre dá as dicas de graça? faz o texto inicial. ao menos daria para reivindicar a coautoria da matéria. [cara, as pessoas não pegam nem as dicas mastigadinhas, de graça. imagina impondo parceria ou cobrando? RÁ! isso é piada. e de mau gosto, viu?]

ahh, Niara… mete a cara. FAZ. tu tem capacidade pra isso. [olha, eu nunca duvidei da minha capacidade e inteligência. mas o mundo insiste em negar as condições. o universo conspira contra. e a essas alturas do campeonato eu já não sei mais como lutar contra]

jornalismo é exercício, não é um diploma mofando na gaveta e nem um título que se ostenta. não dá dinheiro, não abre portas, não nada. jornalista é quem exercita a profissão diariamente, quem vive disso e para isso. e nem estou fazendo juízo de valor sobre de que lado estar, a qual senhor servir ou se cumpre o juramento, o código de ética profissional.

desde julho venho farejando uma reportagem imensa. era um escândalo local, virou estadual e agora pode ser nacional. eu já cantei a pedra. já “dei de graça a dica”. mas assim como o grande esquema das empreiteiras que financiavam campanhas, políticos e partidos que farejei lá em Niterói e vi estourar dois anos depois já como escândalo policial, ninguém aproveitou. ninguém me deu crédito. e por que dariam, né? nem eu me daria crédito. a probabilidade é que seja mais uma história que verei mal apurada estourar de novo já como escândalo policial daqui a algum tempo.

não tenho as ferramentas. não fiz cursos complementares de metadados nem de como investigar empresas (tem um com inscrições abertas agora na Abraji; mais um que não farei) nem tenho a experiência que só o exercício diário da profissão te dá, junto com as fontes, os “contatinhos” que te mantém no curso certo de uma investigação.

então… acho mesmo que tenho a capacidade, o faro, o “dom”, mas nunca tive as condições nem as oportunidades. porque não basta a oportunidade quando tu não tem condições de aproveitá-la. trabalho não espera filho crescer (o meu nunca irá), acabar a aula/prova/seminário/apresentação do companheiro mestrando, nem a casa ficar silenciosa para teres condições de escrever. 

às vezes penso que me sabotei mesmo, bonito, lá durante a faculdade quando tive o Calvin… e nem vou entrar no mérito das condições desse “ter”.

autocomiseração é uma merda. mas preciso reconhecer que em algum momento meu destino _eu junto_ se quebrou. ou nunca existiu. ou a vida era só isso mesmo.