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Trinta anos sem Ian Curtis

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A história do rock é repleta de suicídios e/ou overdoses. Faz parte da cultura rock’n roll. Hoje, 18 de maio, fazem 30 anos que Ian Curtis se enforcou em casa, deprimido e pressionado pelo sucesso crescente de sua banda. O Joy Division mudou a cena do rock mundial e abriu espaço para o rock gótico, existencial do anos 80, no cenário pós-punk – o mundo pré-jurássico dos emos. A história de Curtis pode ser vista no filme Control (sinopse/comentário logo abaixo).
Leia mais sobre a vida de Ian Curtis e sua influência no rock aqui.
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Control
O filme, em preto e branco, conta a história de Ian Curtis, o vocalista da lendária banda inglesa Joy Division. Ele se matou aos 23 anos, em maio de 1980. Com apenas dois álbuns lançados, o Joy havia mudado a história da música com sua combinação pós punk, dark e letras pessoais, introspectivas apoiadas por um som rígido e cavernoso. Inspirado na obra “Touching from a Distance”, escrita por Deborah Curtis, viúva de Ian, o longa traz um retrato bastante pessoal do vocalista. Seu casamento precoce, o nascimento do filho, seus ataques epiléticos, incluindo um no palco, e a medicação que ele passou a tomar – frequentemente misturada com álcool –, somado a um caso extraconjugal e a fama, são os elementos que acabam levando-o a morte. Ian enforcou-se um dia antes do início da primeira turnê da banda pelos Estados Unidos.
A história do filme começa com o aperto de mãos entre o fotógrafo Anton Corbijn e os integrantes do Joy Division. Foi em 1979, numa estação de metrô em Londres, após seção de fotos de dez minutos que se tornou um dos ensaios fotográficos mais famosos do rock.
É o primeiro longa-metragem do holandês Anton Corbijn, após prestigiada carreira como fotógrafo e diretor de videoclipes, que tem em seu currículo U2, Nirvana, Depeche Mode e R.E.M. “É um filme sobre um garoto que tinha um sonho e tentou realizá-lo, mas termina num ponto em que ele se encontrava infeliz. É uma história de amor, com músicas boas”, explicou o diretor.
Clássicos como “Love will tear us apart”, “Atmosphere”, “She’s lost control” (que inspira o título do filme) e “Transmission” fazem parte da trilha sonora. Vencedor do prestigiado Camera D’Or do Festival de Cannes em 2007 (onde foi aplaudido de pé, em raro momento de unanimidade), ganhou também os prêmios de Melhor Performance de Ator Britânico para Sam Riley e Melhor Filme no Festival Internacional de Edimburgo.
Control humaniza o mito de Ian Curtis e constrói um retrato honesto e emocionante de uma das figuras mais lembradas na história do rock moderno. As cenas nas quais o Joy Division apresenta-se ao vivo são dos próprios atores tocando seus respectivos instrumentos, não há dublagem. Imperdível. Drama, 122 min.
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As Horas…

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“Examine por um momento uma mente comum em um dia comum. A mente recebe uma miríade de impressões – triviais, fantásticas, evanescentes, ou gravadas com a agudeza do aço. De todos os lados as impressões chegam, como uma chuva incessante de átomos; e quando caem, tomam a forma da vida de segunda-feira, terça-feira, e o modo desta chuva de impressões é diferente de outra; (…) A vida não é uma série de lampiões simetricamente arrumados; a vida é um halo luminoso, um envoltório semi-transparente que nos envolve do início da consciência até o fim.” (Virginia Woolf)
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Em 1923, Virginia Woolf (Nicole Kidman) está começando a escrever seu livro, “Mrs. Dalloway” (lançado em 1925) sob os cuidados de seus médicos e familiares no subúrbio de Londres. Em 1949, Laura Brown (Julianne Moore) está no subúrbio de Los Angeles tentando preparar um bolo para o aniversário de seu marido ao mesmo tempo em que está ocupada, lendo o livro escrito por Virginia. Nos dias atuais, Clarissa Vaughn (Meryl Streep) está em Nova York preparando uma festa para seu melhor amigo, um famoso autor que está morrendo de AIDS.
Sendo tomada em apenas um dia, as três histórias estão interligadas com o livro “Mrs. Dalloway”: uma personagem está escrevendo-o, outra está lendo e outra está vivendo a história, respectivamente. Mas o fio condutor é de fato a angústia, o sentimento de não pertencimento ao tempo e ao mundo em que essas três mulheres vivem e a idéia constante de suicídio.
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O diretor Stephen Daldry (do também elogiadíssimo Billy Elliott) pode ser considerado depois desse filme – nas palavras da própria Meryl Streep – um grande mestre da arte de transformar sentimentos e pensamentos em imagens. A trilha sonora, sempre incidental, se faz presente durante quase todo o filme, traduzindo também em sons os sentimentos mostrados nas imagens. O elenco conta ainda com Ed Harris, Jeff Daniels, Toni Collete e Claire Danes.
O roteiro é baseado no livro homônimo, vencedor do Prêmio Pulitzer e Prêmio PEN / Faulkner de Ficção de 1999, de Michael Cunningham, que tem esse nome numa clara homenagem a Virgínia Woolf, que cogitou titular Mrs Dalloway como As Horas. O filme foi tão bem comentado e premiado quanto o livro, com Nicole Kidman ganhando Oscar, Globo de Ouro e Bafta de Melhor Atriz. Além de outras dezenas de indicações incluindo melhor filme, atuações coadjuvantes, trilha sonora, roteiro, figurino e edição. O filme é tudo isso, sim. É mais. É acachapante, é denso e imperdível. Virou clássico. Drama, 114 min.
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Nós que aqui estamos, por vós esperamos

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O último post da série Fotografias famosas do séc. XX, O rebelde chinês contra os tanques, me provou (mais uma vez) que estamos sempre aprendendo e nunca saberemos tudo. Ao citar o rebelde chinês como “não identificado” e “estudante”, chamei a atenção de uma amiga, Ana Paula Penkala. Ana – inteligentíssima, professora, cinéfila e estudiosa de cinema – me avisou da gafe (mais uma!) e desse documentário, que ela está estudando para sua tese de doutorado e que identifica o rebelde chinês com nome, profissão, data de nascimento e morte.
Corrigi o post e confesso que fiquei chocada comigo mesma. Como não conhecia esse filme? O fato é que sequer havia ouvido falar dele antes. Sei que sou um tanto quanto distraída e desinformada, mas bati todos os meus recordes dessa vez. Mas ao invés de ficar me lamentando, estou socializando-o aqui e vou indicá-lo para todas as pessoas que conheço. É simplesmente genial.
Segue uma pequena sinopse. Para quem quiser e tiver espaço em disco para baixá-lo, aqui o link torrent. Para quem quiser apenas assisti-lo, segue abaixo da sinopse o filme em oito partes.
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Sinopse

O documentário brasileiro, de 1998, “Nós que aqui estamos, por vós esperamos” de Marcelo Masagão é uma leitura cinematográfica do livro A Era dos Extremos, de Eric Hobsbawm. O filme mostra, através de uma montagem de imagens do séc. XX e da música de Wim Mertens, todas as contradições e contrastres de um mundo que se envolve em dois grandes conflitos internacionais, banaliza a violência e coloca em campos opostos desenvolvimento tecnológico e existência humana.
Toda a esperança e loucura humana parecem caber nesse documentário de 73min, que tem como título o letreiro de um cemitério da cidade de Paraibuna, interior de São Paulo.
Ganhou como Melhor Montagem no Festival de Gramado e Melhor Filme, Roteiro e Montagem no Festival do Recife, ambos em 1999. Custou R$ 140 mil, sendo R$ 80 mil gastos apenas com direitos autorais de imagem e fragmentos de vídeos.
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Nós que aqui estamos, por vós esperamos

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Leia outras críticas e comentários sobre o filme: ZAZ CinemaCineReporter
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Ana Paula Penkala tem um blog chamado “oCinematographo“, que está lincado aqui no Pimenta com Limão desde o primeiro dia.
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Um lindo filme: Once

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Dia desses alguém me lembrou dessa música, “Falling Slowly”, que me lembrou do filme do qual é tema, “Once”, e sobre o qual já havia resenhado. Acabei baixando-o para assisti-lo de novo e de novo me encantei com sua beleza e simplicidade. Acabei baixando também a trilha sonora.

O filme é a história de uma amizade que nasce do acaso e navega por notas musicais. Ele é um talentoso músico que ganha a vida com seu violão nas ruas de Dublin, Irlanda. Ela, uma imigrante tcheca que anda pelas mesmas ruas, vendendo rosas para sustentar sua filha. Ele se sente inseguro para apresentar suas próprias canções e ela tem a música apenas como hobby. Eles se encontram por acaso e a paixão pela música os leva a viver uma experiência inesquecível. Aos poucos percebem que tem material para formar uma banda e gravar um disco. Pouco diálogo e muita sutileza, onde quase tudo é dito através das músicas.

O projeto do filme nasceu em 2005, em concerto do The Frames. O diretor, John Carney, encomendou ao líder da banda algumas canções para desenvolver o projeto. O resultado foi um roteiro de 60 páginas e 10 canções inéditas, incluindo “Falling Slowly”, vencedora do Oscar de Melhor Canção Original de 2008.

Markéta Irglová e Glen HansardBob Dylan gostou tanto de Once que convidou Glen Hansard e Markéta Irglová (protagonistas e compositores) a fazerem o show de abertura em parte de uma turnê mundial.

Uma pequena e independente produção irlandesa, com um orçamento de apenas 150 mil dólares, que ganhou o mundo no boca a boca e desbancou grandes produções. Ainda hoje é pouco conhecido, mas é um dos melhores filmes que já assisti tendo a música como tema central. Especialíssimo! (Drama, 85 min)


Lula do filme ou do livro?

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Uma das grandes polêmicas no mundo do cinema é a adaptação de obras literárias para as telas. Nesses casos, até hoje, nunca ouvi alguém dizer que tivesse gostado mais do filme do que do livro. Sempre o contrário. Com o filme sobre a vida de Lula, parece, não será diferente. Ao menos para quem teve acesso aos dois. Todos os comentários que havia lido até então, não davam conta dessa análise – comparar o filme ao livro no qual foi baseado. Compartilho aqui, a única crítica comparativa que encontrei. E confesso que depois de ler o texto abaixo, fiquei com mais vontade de ler o livro do que ver o filme.
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Lula, o filho do Barretão

Os homens são bem mais interessantes do que os heróis – ou os santos
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Eliane Brum
Época
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“Não quero que publiquem que eu sou santo. Não sou. Estou cansado que me carreguem no colo, que puxem meu saco. Não encontro textos sérios: ou inventam mentiras para me esculhambar, ou exageram em coisas que não existiram para me transformar num super-homem. Não sou nem uma coisa nem outra. Gostaria que você fizesse um texto ‘científico’ sobre mim, contando as coisas como elas são”.

clique na imagem para saber mais sobre o livro

Esta fala é de Luiz Inácio Lula da Silva e foi transcrita na introdução de sua biografia – Lula – o filho do Brasil (Perseu Abramo) –, escrita pela jornalista Denise Paraná. No surrado sofá vermelho do pequeno apartamento de Denise, então uma estudante vivendo com o dinheiro da bolsa de doutorado em História, na Universidade de São Paulo (USP), Lula contou a extraordinária história de sua vida em encontros que totalizaram cerca de cem horas de entrevistas, entre os anos de 1992 e 1994. Ao contá-la, pronunciou umas duas centenas de palavrões que foram limados da edição da Fundação Perseu Abramo, publicada no final de 2002, ano da primeira eleição presidencial vencida por Lula, depois de três derrotas. A primeira publicação da obra é de 1996.

A biografia, elaborada com os critérios da história oral e apresentada na forma de entrevistas com Lula e seus irmãos, é irretocável. Ao contar a história de Lula de 1945 a 1980, do nascimento no sertão pernambucano à liderança das greves no ABC paulista, Denise Paraná compreendeu que a riqueza do homem era sua complexidade. Foi respeitosa com todas as contradições do retirante sertanejo, operário e líder sindical que se tornaria o presidente mais popular da história recente do Brasil. Como o próprio Lula pediu, ao aceitar contar sua vida, o retrato traçado no livro é fascinante, mas decididamente não é nem o de um herói, muito menos de um santo.

Quando li a biografia, para cobrir a campanha de 2002, às vezes ri muito com Lula, às vezes chorei, em outras achei-o mau-caráter, em alguns parágrafos deu até raiva. Ao final da leitura consegui me aproximar das muitas verdades de Lula, um homem complexo e contraditório como são todos os homens. Ou, como diz Denise na primeira frase da introdução da obra: “Este é um livro sobre um homem controvertido”.

Ao assistir a Lula – o filho do Brasil, o filme, fui surpreendida por um outro Lula. Este me deu sono. Baseado na biografia de Denise Paraná, o filme usou fatos relatados no livro, retocou alguns momentos menos edificantes, mas perdeu o melhor da história: a humanidade do personagem. O Lula do filme é plano, unidimensional. Faz tudo certo sem tropeçar em nenhum conflito, nem mesmo um bem pequeno, em sua trajetória linear. Ao final, ficamos pensando (eu, pelo menos) que aquele cara da tela nunca chegaria a presidente da República. Não chegaria nem a liderar uma greve do ABC. O Lula do filme é raso como o açude seco em que o menino Lula bebia água com o gado.

A história de Lula e de sua família é uma grande história. Contém nela um naco da trajetória do Brasil. O pai migrou para São Paulo com a amante menor de idade, deixando no sertão a mãe grávida de Lula e outros seis filhos. Numa visita, ainda fez uma oitava filha antes de levar um dos meninos, Jaime, com ele para Santos. Dona Lindu vende tudo e vai para São Paulo atrás do marido porque este filho engana o pai, analfabeto, e escreve uma carta muito diferente da que ele ditou. Em Santos, ela tem gêmeos e perde os filhos sem nenhuma ajuda. Muito mais tarde, quando Lula está preso, dona Lindu morreria de câncer.

As irmãs de Lula trabalham como domésticas, um irmão tem doença de Chagas, outro é torturado pela ditadura militar. A primeira mulher de Lula morre no sétimo mês de gestação, junto com a criança, possivelmente por negligência médica. Quando é velada, o chão da casa em que viviam cede com o peso do caixão. O filme conta muitas dessas histórias, mas é uma narrativa sem densidade ou nuances. Não parece uma vida, mas fatos encadeados.

O Lula real era um menino tão tímido que não conseguia vender laranjas na infância por falta de coragem de gritar. O do filme é um vendedor com sacadas publicitárias. No filme, o casamento com Maria de Lourdes, a primeira mulher, é um conto de fadas proletário, com direito à perseguição no varal de roupas. Na vida, o casal voltou antes da lua de mel porque Lourdes só chorava. Quando o sogro de Marisa, taxista, conta a ele sobre sua nora, viúva, Lula estava saindo da casa da namorada, Miriam Cordeiro, e pensa: “Qualquer dia vou comer a nora desse velho”. No filme, ele apenas conta ao taxista, com voz embargada, que perdeu a mulher e o filho. E o taxista diz que também perdeu um filho e mostra a foto da viúva, Marisa, e do neto. O viúvo Lula do filme só chora. O da vida chora, mas depois quer “namorar todo dia e, de preferência, com pessoas diferentes”.

Continue lendo…

Veja no trailer oficial algumas das cenas a que Eliane Brum se refere em sua crítica:


Pingos de chuva continuam caindo em minha cabeça

Ontem à noite revi pela décima vez (acho) Butch Cassidy and the Sundance Kid, clássico do faroeste de 1969, com Paul Newman e Robert Redford. É deste filme a famosa cena do Newman andando de bicleta com Katharine Ross e depois fazendo piruetas ao som de “Raindrops Keep Falling on My Head” de B. J. Thomas, a música mais chiclete que já ouvi na vida. Certamente vou passar a semana inteira cantarolando-a. Mas se clicares no vídeo abaixo para assistir, não ficarei sozinha. Ela grudará na tua cabeça também!

(E cá entre nós, o Paul Newman está lindo na cena em que encara o touro e lhe atira um beijinho)


Identidade

Essa madrugada revi pela 479ª vez as cenas finais de “Diários de Motocicleta”, de Walter Salles. É claro que gosto do filme, não apenas por contar um pedaço menos conhecido da vida do Che, mas pela tamanha sensibilidade com que foi contada.

Perceber os momentos em que a lendária figura do guerrilheiro foi sendo talhada pelas injustiças sociais do continente é especial. Mas as cenas finais, a despedida do ainda “Fuser” do amigo Alberto Granado, a imagem atual de Granado na mesma base em Caracas (última cena do filme) de onde se despediu do amigo e que só reencontraria já como o Comandante Che, emocionam muito. Sobretudo as imagens – como que posadas para fotos – dos figurantes, tipos caracteristicamente latinoamericanos, sofridos, provavelmente muito parecidos com os vistos pelo jovem Ernesto e que marcaram sua alma, são para mim inquietantes. Falam diretamente à minha noção de identidade latina e de classe. Sensação de pertencimento, única.

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