Hoje é o dia da choradeira…

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Dia 04 — O primeiro livro que lhe fez chorar

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O primeiro livro que me fez chorar me fez chorar muito. Muito mesmo.

Era inicinho de 1988, tinha 16 anos, estava dando meus primeiros passos como militante do movimento estudantil secundarista, me dizia comunista e me interessava por todas as histórias de outros militantes com os quais me pretendia igual. Era uma espécie de investigação particular, ficava tentando descobrir o que havia de semelhante entre eles e eu. Motivações, inadaptação com tempo, inconformismo com a vida…

Olga Benario foi a militante que mais me identifiquei até conhecer Pagu, e a narrativa do Fernando Morais é espetacular e torna sua história ainda mais especial. Ele te transporta para a Alemanha do final dos anos 20 e para dentro dos sonhos e da vida de Olga. É possível sentir sua coragem, sua ousadia, seu amor ao partido e aos seus ideiais, sua firmeza de caráter e cada pequena angústia e temor que todo militante por mais duro que seja sente.

Foi a primeira vez que tive certeza que o caminho escolhido pela minha ideologia era sem volta e foi a primeira percepção concreta do ódio que uma ideologia dissonante causa. Me sentia tão estranha e ao mesmo tempo tão confortável em me dizer comunista — eu só soneguei esse autointitulação nos tempos de filiação ao PT (1989-1999) porque soava estranho –, porque aqui no meu mundo “ser” assim não era/é normal.

Logo nas primeiras páginas de Olga, Morais relata o sequestro do professor Otto Braun (namorado de Olga) chefiado por ela (aos 16 anos de idade) e outros militantes da juventude comunista alemã e os dias seguintes à ação, como eles foram trocando de casa e contando com o abrigo e apoio dos moradores do bairro operário de Neuktilln e como eram aplaudidos nas sessões de cinema ao serem apresentados pela polícia como procurados.

Isso me deu uma outra dimensão da luta pela transformação do mundo. Em alguns lugares desse planeta os trabalhadores tinham consciência política de sua opressão e apoiavam os comunistas. Nem todos os lugares eram como o Brasil, onde até hoje somos vistos como estranhos no ninho e temos nossa ideologia distorcida porque a ampla maioria das pessoas é explorada calada, cabisbaixa e ainda acha que está certo assim.

Fernando Morais e Olga foram os responsáveis por desvelar para mim a verdadeira face de Getúlio Vargas, presidente que nos livros de história oficiais é descrito como popular, injustiçado e perseguido por defender o povo pobre. Mesmo eu, gaúcha e conhecedora de sua tradição de estanceiro e fazendeiro rico, não conseguia ver qualquer incongruência no seu estilo de vida e o que dizia defender — fruto também da escola que não incentiva o pensamento crítico. Ou seja, Olga Benario foi a responsável por me ensinar que não basta assumir uma ideologia para adquirir consciência de classe ou conseguir ler a realidade em todos os seus aspectos opressivos. É preciso ler muito, discutir coletivamente, aprender a analisar conjuntura e estar sempre muito bem informado. E isso também deu outro sentido ao meu sonho pessoal de ser jornalista. Foi quando comecei a ver o caminho onde o jornalismo se fundia com a minha causa.

Olga foi também responsável por me apresentar o lado mais humano e frágil de Prestes e certamente passei a respeitá-lo bem mais depois do livro (secundaristas tem uma pretensão e um desprezo quase que natural de quem divergem — imaturidade define).

Junto com todas as lágrimas que derramei lendo Olga — e elas começaram a rolar desde a emoção inicial com sua coragem –, vieram também duras constatações e descobertas. Fundamentais constatações e descobertas! Não lembro de outro livro com o qual tenha chorado tanto nem tão profundamente. Choro até hoje ao relembrar sua trajetória, chorei vendo o filme de Jaime Monjardim adaptado do livro (mesmo com todas as críticas cinematográficas) e acho que nunca deixarei de chorar por Olga.

“Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo.”

Uma dica: Para quem acha que conheceu Olga Benario através do filme de Monjardim, é melhor ler o livro.

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Baixe Olga em pdf daqui.

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Também estão participando da brincadeira a Luciana do Eu Sou a Graúna, a Tina do Pergunte ao Pixel, a Renata do As Agruras e as Delícias de Ser, a Rita do Estrada Anil, a Marília do Mulher Alternativa, a Grazi do Opiniões e Livros. A Mayara do Mayroses diz que começa hoje (é pra HOJE mesmo, May???). Mais alguém?

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Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo. Ver todos os artigos de Niara de Oliveira

4 respostas para “Hoje é o dia da choradeira…

  • Luciana

    Menina, eu estou amando esse meme por ver os livros que amo por outros olhos. Olga me doeu muito (um tantinho menos que Brasil Nunca Mais), muito mesmo. Ela era tão apaixonante quanto apaixonada e isso diz muito. Li seu post com os olhos nas minhas fotos amareladas. Obrigada.

  • Amanda

    Esse livro estã entre os meus prediletos. Tambem li quando tinhauns16 anos. Lindo demais!

  • rita

    Vi o filme, apenas. E, olha, fiquei tão emocionada… lendo seu post imagino que o filme não seja mais que um pequeno recorte (como é muitas vezes, ne). Esse meme é um tesouro de dicas valiosíssimas, oba.

    Bj
    Rita

  • Niara de Oliveira

    O filme não tem a riqueza de detalhes da vida de Olga, ela ficou quase pequena na tela. E essa mulher era(é) imensa. Vale muito a pena ler o livro. Bj

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