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Eu sem o Biscate Social Club…

Parece uma letra do Vinícius… Samba em Prelúdio. Poderia ser, mas acredito que as coisas têm seu tempo e são finitas.

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Demorei para escrever contando porque tem coisas que doem mais do que deveriam. Não faço mais parte do Biscate Social Club e nem escrevo mais lá — mas meus textos, os já escritos, ficaram –, embora a relação de afeto continue com xs bisca tudo que lá permanecem e com o próprio site, que ajudei a parir com muito orgulho. Continuo lendo e continuo indicando a leitura: é libertador e libertário, além de muito prazeroso. Então, não vejam esse comunicado como desabonador ou como uma desqualificação do espaço, porque é capaz que com a minha saída ele fique melhor e menos esculhambado (a esculhambada sou eu, desculpa).

Coletivos tem ritmos, regras e seguem seus caminhos. Tenho o meu ritmo, minhas regras e meus princípios e eles estavam se chocando com o ritmo, regras e princípios do coletivo BiscateSC. Tenho esse jeito meio megafone contra a injustiça e não a admito onde estou, convivo. E houve uma imensa injustiça e covardia contra o BiscateSC e eu berrei antes de todo mundo, não esperei. Tipo queimei a linha, saí berrando antes do coletivo contra essa injustiça. Não sei se saberia fazer diferente. O coletivo achou melhor não me seguir, e nem precisava. E embora pareça, não saí por causa da mágoa de cabocla ou pela contrariedade de não ter sido seguida, mas pelo aceite coletivo à injustiça, pelo menos publicamente. Esse “concordo contigo, mas não posso assumir isso publicamente” não cabe para coletivos, acho. Pelo menos não para o eu parte de coletivos.

Há uma escritora/blog/coletivo feminista chupando o conteúdo do BiscateSC. E meu crime ou pecado foi ter dito isso com todas as letras. A ampla maioria das pessoas preferiu enxergar como “convergência de ideias”, “coincidência de pensamentos” e usar até mesmo do conceito de sororidade para aceitar essa chupação, afinal quanto mais pessoas estiverem escrevendo e conscientizando sobre a libertação das mulheres de sua opressão melhor. Depende. Não acho que varrendo divergências de fundo como racismo, machismo, classicismo, homolesbitransfobia e falta de ética para debaixo da tapete avançaremos ou chegaremos a algum lugar.

A esquerda da qual sou ativista desde quando me entendo por gente se diferencia no fazer, no trilhar o caminho e não apenas no objetivo a ser alcançado. Os demais esquerdistas que pensam que os fins justificam os meios são os mesmos que ajudaram a degradar a proposta do socialismo aos olhos do mundo e deram armas ao capitalismo para nos atacar. É preciso estar vigilante e atento. Se nos opomos à injustiça e queremos um mundo justo é preciso construí-lo desde já pelo caminho da justiça, da ética, da correção de princípios. Não é sendo condescendente com falcatruagem, roubo de ideias e o pisar no outro porque é ou parece menor segundo sua régua que teremos esse mundo justo. E isso tem muito a ver com o feminismo. Não é possível ser feminista e ter empregada doméstica (desculpa, mas não é, quem tem sabe ou deveria saber que vive em contradição), se achar melhor na cadeia de produção (exploração) ou que pode chegar “antes” que qualquer pessoa às riquezas e prazeres da vida porque é branca, hétero, cis ou num-sei-que-lá-mais. Ou se parte do princípio que somos todos iguais desde já e nos respeitamos dessa forma ou já falimos no nosso intento antes mesmo de começarmos a luta.

largando o chicote do BiscateSC... :-(

largando o chicote do BiscateSC… 😦

O BiscateSC foi ao ar no dia 17 de dezembro de 2011, e continua tão lindo em sua proposta e conteúdo hoje quanto naquela tarde nublada e abafada de verão. O mundo continua careta, hipócrita e criminalizando o comportamento das mulheres e ainda temos muito o que dizer. O BiscateSC não tem a fama que deveria, apenas deitamos em quantas camas quanto conseguimos (ho ho ho) e quem a tem (a fama) achou mais fácil reescrever nosso conteúdo e assinar seu nominho em cima do que nos dar o devido crédito. Lamento muito que seja assim, mas também agradeço porque ajuda prabu a definir quem é parceirx na trincheira de luta e quem na primeira oportunidade vai furar teu olho ou te enfiar uma faca nas costas. Não sei vocês, mas eu prefiro saber em quem posso confiar.

No mais, só tenho a dizer: continuem lendo e divulgando o BiscateSC. Melhor espaço ever onde já estive, melhores parceiros de copo e escrita que já tive, e sei que se deitássemos todos numa mesma cama era capaz de mudarmos o mundo só com esse ato. Quem sabe um dia… Hein? Hein? Hein? 😛


Feliz dia do “vem me limpar”, que nunca ouvi

Tão difícil definir minha relação com a maternidade que nem tento. Não gosto de datas comerciais, mas de uma forma ou outra as manifestações desses dias me atingem. Recebo os parabéns com atenção, respondo a todos. Sei do carinho dos amigxs por mim. Sei também do respeito por essa minha história torta e tão do avesso — essa sem definição — com a maternidade.

Só sei que ver as manifestações de tantxs filhxs que envolvem escritas, falas e declarações “normais” de afeto para com suas mães mexe comigo. Não tem como não. Até as brincadeiras do tipo “feliz dia do ‘tô com fome'”, “feliz dia do ‘quero ir embora'”, “feliz dia do ‘vem me limpar'” me deixam miudinha. Nunca ouvi nada disso, e nem vou. E… Ah, como eu queria ouvir.

Mas já, já, passa. O dia já vai se encaminhando para o final, e eu tenho muito trabalho, é fato, mas também tenho muitas alegrias. Apenas que elas não cabem nessa caixinha do ‘ser mãe’ de todos. É um outro jeito de fazer, sentir, ser. Nem faço questão de me fazer entender, era só para desabafar mesmo.

eu + Calvin = nós! ♥

eu + Calvin = nós! ♥


O tempo, e o meu tempo

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Não é segredo pra ninguém meu profundo e sério relacionamento com a depressão. E não posso mentir, esse relacionamento se construiu/constituiu a partir da gravidez do Calvin. Os piores momentos que vivi, óbvio, não tem a ver com a existência do Calvin, mas foram decorrência da gravidez dele. Falta de estrutura minha, talvez. Falta de estrutura do mundo ao redor para nos abarcar… Quem sabe tudo junto.

Lembrar desse tempo é como descer ao inferno. É como tentar nadar no lodo. Não há forças, não há nenhuma mão estendida. Deste lugar ninguém te puxa para te dar colo ou mesmo para ter dar fôlego para mais uma braçada. Impossível pensar noutra coisa senão no fim.

Vivi isso várias vezes. Tantas que nem sei dizer como estou aqui. Como que ainda respiro. A sensação de sufocamento é tão forte que se torna física. O peito dói do esforço para respirar, para continuar vivendo mais um segundo, um minuto, uma hora. Quem sabe depois as forças apareçam…

Foi nesse lodo que aprendi a sobreviver. Criei uma tática de sobrevivência — justo eu que sempre me pensei desapegada da vida pelas tantas vezes que pensei em suicídio –. Não entrar em desespero, acumular forças, ficar quietinha, ir devagar, ou ficar, quase imóvel, quase vencida, até um momento de menor densidade do lodo, onde as poucas forças fossem suficientes para arriscar braçadas, e seguir, como se o tempo não existisse.

Sempre me ocorreu que essa talvez fosse uma estratégia indigna, a de adiar o inevitável. Tem dignidade em manter-se vivo assim? Ainda não sei. Peguei o tempo e o moldei do meu jeito. Passei a viver nesse tempo moldado, no meu tempo. Mas ele, o tempo aprisionado e moldado, deixou suas marcas.

É fato que muitas alegrias e encontros vieram depois desse(s) tempo(s) horrível(is), e também tive tempos de calmaria. E se não fosse a indignidade do meu apego não as saberia. Mas… sempre me pergunto: E se acontecer de novo? E se eu cair no lodo novamente?

O mesmo tempo que ameniza, faz esquecer, também aprisiona e causa ferimentos incuráveis… Num momento acho que estou segura, ainda dentro do meu tempo, e nem vejo o cerco se fechando.

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Nem

contemplo o tempo passar por uma fresta do dia, da minha janela — nem dia nem noite, nem claro nem escuro — mais pra escuro, claro.

contemplo o tempo passar por uma fresta do dia, da minha janela — nem dia nem noite, nem claro nem escuro — mais pra escuro, claro.

Dias mornos. Nem quentes nem frios, sem emoção, sem graça, chinfrins mesmo.

Minha melhor amiga que nunca poupou-me de dizer-me as verdades nem sempre acertava o dia para me atirá-las, e num desses dias  — errados, de verdades certas  — me definiu como alguém “nem”. Grávida do Calvin, em silêncio, em crise, abafada, sufocada, ouvi textualmente:  — Tu é do tipo ‘nem’. Nem feia nem bonita, nem alegre nem triste, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra… ‘nem’ — desferiu a punhalada, sem ter ideia do quanto suas palavras machucaram e ficariam ecoando.

Eu estava em dias assim, mesmo, quando ouvi isso. Mas estava mais para triste, mais pra baixo, mais pesada, mais feia. E nunca mais consegui me livrar dessas palavras. Nem quero mais (livrar-me delas), guardo-as com carinho. Alguns dias, como hoje, voltam a doer e, resignada  — justo eu —, visto a palavra que me define e me sinto ‘nem’, com aquela sutil inclinação para um dos lados.

Suporto os dias, tentando administrar as mazelas sem piorar as coisas. Procrastinando é meu verbo, assim, no gerúndio. Ausência meu substantivo. E nem o advérbio da minha existência. Celular no silencioso sempre. Nunca atendo o telefone de casa. Quando toca a campainha finjo que não ouvi. Nem viva, nem morta, mais para quase viva. Observo a passagem do tempo por uma fresta do dia, da minha janela. Nem dia nem noite, nem claro nem escuro. Com uma sutil inclinação para o escuro, claro.

Quase viva, sem graça, morna. Nem.


Música como tradução

Para o Gilson.

eu + gilson

Acho que tive sorte quando desembarquei no Rio de Janeiro. Vim pra cá na incerteza, sem saber direito o que fazer nem quanto tempo ficaria nem se ficaria. Não tinha nenhum alvo ou propósito. Não mirei, não atirei, não me atirei. Mas acertei.

Nessa cidade que me endurece a cada dia e onde estou há mais de um ano, encontrei um amor tranquilo, desses de calmaria que invadem devagar, que eu nem sabia que queria. Parceria de vida, nos planos, em sonhos de futuro, sonhos de mundo, mas principalmente parceria no dia a dia. Nem preciso dizer que ele tem uma enorme paciência comigo, que atura a oscilação do meu humor com persistência, e sei que não é por concessão.

E justamente por ser um parceiro de sonhos, não nos apegamos a datas comerciais ou cristãs nem trocamos presentes. Manifestamos nosso afeto em pequenas gentilezas e muitas grosserias, daquelas que só somos capazes diante de pessoas com quem nos sentimos completamente à vontade. E nos sentimos em casa um com o outro, um no outro. Casa-abrigo, casa-desconforto, casa-lar, casa-lar-ogro, casal ogro.

Apesar de não sermos um casal comum, mantemos algumas coisas de casal. Tipo ter uma música, uma canção que nos representa e nos canta, nos encanta. Cruzada, do Tavinho Moura e Márcio Borges se escolheu sozinha, nós apenas a reconhecemos. Então, segue a letra que traduz nossa parceria.

Antes clica no vídeo para ouvir essa lindeza.

Cruzada

Não quero andar sozinho por estas ruas Sei do perigo que nos rodeiam pelos caminhos Não há sinal de sol, mas tudo me acalma No seu olhar

Não quero ter mais sangue morto nas veias Quero o abrigo do abraço que me incendeia Não há sinal de cais, mas tudo me acalma No seu olhar

Você parece comigo Nenhum senhor te acompanha Você também se dá um beijo, dá abrigo

Flor nas janelas da casa Olho no seu inimigo Você também se dá um beijo, dá abrigo Se dá um riso, dá um tiro

Não quero ter mais sangue morto nas veias Quero o abrigo do abraço que me incendeia Não há sinal de paz, mas tudo me acalma No seu olhar

Não quero ter mais sangue morto nas veias Quero o abrigo da sua estrela que me incendeia Não há sinal de sol, mas tudo me acalma No seu olhar

Se quiser continuar ouvindo Cruzada, aqui tem uma playlist com todas as versões que encontrei.


Um lindo dia… ♥

[4h54] Neste exato minuto meu dino filhote está completando 17 anos. E se no ano passado eu estava fazendo um esforço enorme nesse mesmo dia para não chorar e não morrer de culpa, ainda que estivesse sendo comoventemente ampara/mimada pelo Gilson, hoje estou com aquele sentimento de realização, de dever cumprido e bem comigo mesma.

Meu dino está roncando (e alto, em função da gripe que resolveu dar as caras), e só de ouvi-lo meu coração aquece. Amanhã acordo cedinho e vou cumprir o rito que me é mais caro desde que ele nasceu… Fazer eu mesma o bolo dele de ‘avinersário’ e ter o prazer de vê-lo se empanturrar com o bolo — ele adora bolo de aniversário, desses com massinha delicada, recheio e cobertura.

cenas de chamego explícito... ♥

cenas de chamego explícito… ♥

Que o dia de todos seja tão bom quanto será o nosso nesse 19 de maio. E cheio de chamego, igualzinho nessa foto que fizemos no último domingo aqui, no novo endereço do Parque Jurassí. 🙂

O “amanhã”, que transformei em hoje…


O caminho escolhido


O mundo é desumano com as mulheres, é fato. Não só pela violência física, moral e psicológica como pela dureza do dia a dia. Escolher o caminho mais “fácil” e ter a vida comandanda e decidida por outros não garante facilidade/felicidade alguma e nem dias menos sofridos ou uma vida menos dolorosa. Mas é fato também que algumas mulheres conseguem viver numa bolha, mantida ou pela condição socioeconômica ou pela proteção de outrém(ns). Quem nasce pobre e “opta” por tomar as rédeas da própria vida se ferra, literalmente, e eu tento dar conta da minha desde os 14 anos de idade. Faz tempo que me ferro…

Mas mesmo nascendo pobre qualquer mulher poderia ter a “sorte” de encontrar proteção — família, amigos, companheiro/a(s) –, a não ser que seja queixo-duro demais, como diria meu pai a meu respeito. As pessoas olham para mim e têm a impressão que aguento tudo, resisto a qualquer pancada. Afinal, sou forte. Sei que sou responsável por essa impressão. De um jeito ou de outro eu sempre sobrevivo e saio, sim, mais forte de todos os embates.

Sim, sou forte. Mas não sou inquebrável e nem imortal. E tem uma hora que tudo fica muito pesado, porque não me contento apenas em escolher o caminho errado, escolho também o mais difícil e doloroso. É tipo um dom, sabe? Não importam as opções que se apresentem (ou a falta delas), a minha escolha (ou falta de) sempre será o caminho mais tortuoso e a maior dor.

Tanta força e teimosia faz com que minhas queixas e reclames sejam desprezados e desconsiderados pelas poucas pessoas a quem ouso reclamar e me queixar. O pensamento recorrente deve ser “ela é forte, só está com aquele maldito complexo de cinderela ou fazendo mimimi… logo passa e ela resolve tudo“. É fato que resolverei e superarei (acho), mas é certo que não vou esquecer os nãos e omissões e perderei mais uns pedaços nesse processo. Parece ser da minha natureza sobreviver, mas também é não esquecer. A minha “sorte” está sempre na desproteção e na minha própria força. Se ela falhar — e ela dá sinais sérios de desgaste –, danou-se. Ou melhor, danei-me. Não terei ninguém para juntar meus pedaços. Mas qual a novidade? Sempre juntei meus pedaços e me remontei sozinha.

Quem mandou nascer, se fazer e ser forte, né? De um jeito torto, eu me acerto no erro. É só mais um dia, só mais um caminho tortuoso em muitos que já trilhei e outros que ainda virão e independente do caminho, escolhi caminhar. Eu aguento, sozinha mesmo, pode deixar.

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ps: Qualquer semelhança com a música da Zélia Duncan não é mera coincidência…

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