coisas a esquecer

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a feira livre no bairro onde cresci acontecia exatamente na quadra em frente a minha casa, toda sexta-feira pela manhã, fizesse chuva ou sol. minha mãe comprava sempre do mesmo feirante, Manoel, que montava sua banca bem na frente do nosso portão. quase sempre ia fazer a feira junto com a mãe, desde muito piá. um dia, lá pelos meus 5 ou 6 anos, a mãe terminou as compras e foi pra casa, acho que esqueceu que eu estava junto ou eu que me perdi espiando as frutas que não tinham no nosso quintal na banca em frente, sei lá. na rua eu sou sempre distraída, me perco fácil. quando me percebi sozinha na feira eu voltei pra banca do Manoel e fiquei ali plantada, estava na frente de casa afinal. me encantei com as cabeças de alho(!), e o Manoel me perguntou se minha mãe precisava de alho. respondi “não sei”, mas ele me deu as duas cabeças de alho que estavam nas minhas mãos mesmo assim _a família tinha crédito na banca. só daí eu fui pra casa. entreguei o alho pra ela e disse que foi o Manoel que mandou. ela não acreditou. me pegou pelo braço e foi me arrastando de volta até a feira. chegamos lá, ela nem perguntou nada a ele e já foi dizendo: “devolve e pede desculpas”. Manoel contou que havia me dado, confirmando o que disse. ela me fez devolver os alhos mesmo assim, ‘não devia ter ficado perambulando sozinha na feira e nem ter olhado pra alho nenhum’.

foi um dia confuso esse. fui punida e ainda fiquei de castigo por algo que nem entendi. mas era só mais um dia que se repetiu vida afora: a minha palavra não valia nada. dura lição essa. pra minha mãe aquilo que qualquer pessoa (e é qualquer pessoa mesmo) dissesse sobre mim era a verdade e estava encerrado o assunto. cresci com esse fantasma me assombrando. não importava o que fizesse, eu sempre estaria errada. não interessava o fato, interessava que se eu estivesse presente algo de errado tinha ou teria. e se desse merda mesmo, a culpada (lógico!) era eu.

quando penso no dia a dia da minha infância, além das luzes, das janelas, cheiros, cores e sabores, a lembrança mais presente são horas intermináveis de sofrimento, eu recolhida no quarto ou num canto do quintal tentando entender o porquê das coisas serem assim. 48 anos e eu ainda não entendi. a “verdade sobre mim” é distorcida. ainda hoje, diante de um imbróglio qualquer onde minha palavra esteja em disputa com a palavra de outra pessoa me vem esse amargo na boca de saber que ao final de tudo eu ficarei desacreditada. é fato, é imutável. eu já nem esperneio mais. me resignei.

2019 foi um ano muito difícil, principalmente porque me colocou em xeque com essa verdade imutável, DE NOVO. eu deveria brigar? sei lá se devia… só quero esquecer. o “único” problema é que a caixinha das coisas a esquecer está transbordando…

Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo. Ver todos os artigos de Niara de Oliveira

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