Arquivo do autor:Niara de Oliveira

Sobre Niara de Oliveira

Ardida como pimenta com limão! Jornalista marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo.

Jantar de dois

o cardápio… e um pouco da arrumação…

Todo casal passa por crises. Até um não-casal-ogro. Eu e o Gilson passamos por momentos difíceis no último mês. Foi osso, uma barra mesmo. Nem sei se já foi, se já superamos. Tudo indica que sim, mas não gosto de antecipar soluções. Vida não tem receita, relacionamento menos. A gente vai vivendo e vendo no que dá, e faz reajustes onde é preciso, repensa o que é preciso, tenta olhar pelo ângulo do outro, muda de posição. Faz o que é possível.

Essa madrugada, de 14 para 15 de abril, completamos dois anos juntos. E eu decidi comemorar. Queria dizer a ele que foram os melhores anos da minha vida. Principalmente o último, desde que reunimos o que é a nossa família ogra e torta — nós + Calvin + Lalá. Para a comemoração pensei num jantar só nosso, já que todo dia é dia de #dinojantar e fazemos desse momento celebração para os quatro.

Queria num jantar regado a vinho e à luz de vela, com aromas e sabores, como ainda não tínhamos tido. Comprei uma peça de alcatra e deixei marinando desde domingo com sal, pimenta, azeite, cebola, pimentão + muito alho e muito alecrim (alecrim fresco faz toda a diferença num marinado, acreditem em mim). Coloquei para assar com todo o marinado, sem papel alumínio, em temperatura média. Quando a casa estava tomada pelo cheiro do assado, tirei a carne do marinado e recoloquei no forno para criar uma leve crosta, sem secar muito. Bati parte do marinado com uma maçã, meio copo de vinho e duas colheres de farinha no liquidificador para o molho — opcional.

Já tinha feito o molho pesto em casa, para o espaguete, porque não achei por aqui para comprar pronto (receita do molho pesto aqui) e na hora era só cozinhar a ‘pasta’. Para a salada pedi dicas para quem entende mais do que eu (Lu e Re) e me disseram: salada crua, crocante. Aceitei o conselho. Salada de alface, repolho roxo cru cortado fininho, cenoura e queijo canastra ralados e croutons (não tinha, então comprei torrada comum e quebrei três em pedacinhos pequenos) temperada com sal, azeite e molho de mostarda. Ficou tão delícia que poderia ser só ela o jantar, não fôssemos nós os ogros que somos.

Usei coisas que nunca uso no dia a dia por causa do #dinofilhote — toalha branca, taças, pratos especiais — e arrumei a mesa com carinho. Não achei velas para compor a mesa em OuCí, tive que improvisar… Comprei um copo grosso, uma vela de sete dias (sim!!!), sal grosso e umas ervas coloridas e cheirosas e montei o arranjo. Contando parece macumba, mas não era. Durante o jantar, ao som de jazz, revelei o motivo de tanto esmero. Renovar minhas intenções, dizer o quanto fui feliz com ele nesses dois anos e que pretendo continuar sendo por muito mais tempo ainda. Ele perguntou: Pra sempre? Respondi: Enquanto formos felizes. Tinha sobremesa (torta de maçã) na geladeira, mas nem sentimos falta.

Bebemos a última taça de vinho da noite ouvindo a nossa música, e entre sorrisos, beijos, tesão a certeza de que enfrentar as dificuldades e tristezas da vida é mais fácil nos braços um do outro.

Foi mais ou menos assim nosso jantar de dois…


O tempo, e o meu tempo

tempo

Não é segredo pra ninguém meu profundo e sério relacionamento com a depressão. E não posso mentir, esse relacionamento se construiu/constituiu a partir da gravidez do Calvin. Os piores momentos que vivi, óbvio, não tem a ver com a existência do Calvin, mas foram decorrência da gravidez dele. Falta de estrutura minha, talvez. Falta de estrutura do mundo ao redor para nos abarcar… Quem sabe tudo junto.

Lembrar desse tempo é como descer ao inferno. É como tentar nadar no lodo. Não há forças, não há nenhuma mão estendida. Deste lugar ninguém te puxa para te dar colo ou mesmo para ter dar fôlego para mais uma braçada. Impossível pensar noutra coisa senão no fim.

Vivi isso várias vezes. Tantas que nem sei dizer como estou aqui. Como que ainda respiro. A sensação de sufocamento é tão forte que se torna física. O peito dói do esforço para respirar, para continuar vivendo mais um segundo, um minuto, uma hora. Quem sabe depois as forças apareçam…

Foi nesse lodo que aprendi a sobreviver. Criei uma tática de sobrevivência — justo eu que sempre me pensei desapegada da vida pelas tantas vezes que pensei em suicídio –. Não entrar em desespero, acumular forças, ficar quietinha, ir devagar, ou ficar, quase imóvel, quase vencida, até um momento de menor densidade do lodo, onde as poucas forças fossem suficientes para arriscar braçadas, e seguir, como se o tempo não existisse.

Sempre me ocorreu que essa talvez fosse uma estratégia indigna, a de adiar o inevitável. Tem dignidade em manter-se vivo assim? Ainda não sei. Peguei o tempo e o moldei do meu jeito. Passei a viver nesse tempo moldado, no meu tempo. Mas ele, o tempo aprisionado e moldado, deixou suas marcas.

É fato que muitas alegrias e encontros vieram depois desse(s) tempo(s) horrível(is), e também tive tempos de calmaria. E se não fosse a indignidade do meu apego não as saberia. Mas… sempre me pergunto: E se acontecer de novo? E se eu cair no lodo novamente?

O mesmo tempo que ameniza, faz esquecer, também aprisiona e causa ferimentos incuráveis… Num momento acho que estou segura, ainda dentro do meu tempo, e nem vejo o cerco se fechando.

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Justiça ampla, geral e irrestrita

Tenho usado pouco esse espaço e quase nem me reivindico mais blogueira. Só apareço em duas ocasiões: quando a luta exige e quando meu sangue ferve e preciso desabafar escrevendo. Aí que hoje essas duas coisas se fundiram.

Ninguém sabe, mas o jornalista Mário Magalhães —  excelente repórter e hoje famoso pela também excelente biografia de Carlos Marighella — a quem admiro muito, foi fundamental num período crucial da minha vida. Eu, tentando juntar meus cacos e sem saber se conseguiria, tentando retomar minha vida profissional e me aparece o Mário num imeiu tecendo elogios e críticas ao meu trabalho na época, de uma forma tão terna e respeitosa que me comoveu. Ficamos amigos, e muito me honra essa amizade.

O leio quase diariamente e quase sempre concordo e divulgo seus textos e opiniões. Se não concordo com tudo, entendo e sou solidária ao seu ponto de vista, porque é antes de tudo honesto, sério e isento. Entendo demais seu texto indignado de hoje sobre a morte do repórter cinematográfico Santiago Andrade, no qual pede justiça. Leia aqui o texto completo. Mas, preciso discordar. Não do pedido de justiça, claro, mas de algumas ponderações.

Diz o Mário: “Não há legitimidade nos ataques armados aos policiais. O Brasil não vive uma ditadura. É legítimo recorrer às armas contra tiranias, como reconhecem teólogos relevantes. Por mais injusto que o país seja, a ditadura acabou na década de 1980. Jornalistas, como Vladimir Herzog, foram mortos na luta pela democracia.

Não vivemos uma ditadura, fato. Oficialmente, não. É pior. Vivemos uma democracia que permite tortura, assassinato político, desaparecimento de cidadãos sob a tutela do Estado. Nessa democracia temos uma das polícias que mais mata no mundo, 5 cidadãos por dia no que sordidamente convencionaram chamar de “em confronto com a polícia”. Nessa democracia, só no estado do Rio de Janeiro foram assassinadas dez mil pessoas em dez anos. Nessa nossa democracia seis jornalistas foram assassinados em 2013, nos elevando a condição de país mais perigoso da América Latina para o exercício dessa profissão. Mais: lideramos o ranking da impunidade pela morte desses jornalistas.

O repórter cinematográfico Santiago Andrade foi assassinado, e eu lamento muito por sua vida perdida. Porque sei que após a Globo destroçar seu cadáver ele será esquecido e sua morte ficará impune — se é que não será justiçado de forma equivocada, como está parecendo que será. Não dá para chamar de acidente ou incidente. É como a morte de ciclistas o trânsito, não é acidente, é previsível e sabendo disso e não prevenindo se torna assassinato. Simples assim. 

O que não dá é para descontextualizar sua morte. O Santiago morreu em meio a ação irresponsável da PM, que não tem o menor preparo para manifestações, de qualquer natureza. Agem como trogloditas. Se a ordem é dispersar — e a ordem é sempre dispersar. Porque nessa nossa democracia é proibido, não oficialmente mas na prática, se manifestar publicamente — dane-se a população que está na rua.

A mesma ação desastrada da PM no dia em que Santiago foi ferido matou o vendedor ambulante Tasman Amaral Accioly que tentando fugir das bombas de efeito moral foi atropelado violentamente por um ônibus na Presidente Vargas, em frente a Central do Brasil e não mereceu nenhuma linha da imprensa. Mais um, quase anônimo, também vai ficar impune. A PM chegou a disparar bombas DENTRO da Central. E não estamos falando de UMA ação desastrada onde se perdeu o controle, mas TODAS. Só não teve violência quando a PM não compareceu ou não agiu.

80% de toda a violência praticada contra a imprensa carioca nos atos de maio a outubro de 2013 partiram da PM, segundo o relatório do SindJor-RJ.

Ser jornalista não nos confere nenhum privilégio. Nossa vida tem o mesmo valor que qualquer outra vida. E mesmo achando que ações ou reações violentas não constroem nada também sei que em alguns momentos é preciso enfiar o pé na porta, principalmente diante de uma polícia que tortura, mata e desaparece em plena democracia e em nome do Estado. É nesse contexto que eu não me sinto à vontade para desqualificar ou criminalizar uma tática que pode até errar, mas que evitou que muitas pessoas fossem agredidas pela polícia, vide os atos durante a greve dos professores municipais e estaduais em outubro. Eu posso até não levantar a voz para defender os Black Bloc, mas enquanto eles tiverem uma postura anticapitalista jamais os condenarei.

Não descontextualizar quer dizer também observar que a investigação do caso caminha para a montagem de uma farsa baseadas em suposições, em disse-me-disse, que desrespeitam a vida e tripudiam sobre o cadáver de Santiago. Querer justiça ao Santiago passa por querer uma investigação honesta e criteriosa sobre as condições de sua morte. E eu quero justiça ao Santiago tanto quanto quero justiça à Gleise Nana, ao Fernandão, ao ambulante Tasman Amaral Acciolyaos 13 assassinados da Favela da Maré e a todos os jornalistas agredidos — muitos que só não morreram por um golpe de sorte (estou citando apenas alguns dos casos do Rio de Janeiro; existem outros Brasil afora). Quero justiça também ao Rafael Braga Vieira, morador de rua CON-DE-NA-DO a cinco anos de reclusão por porte de pinho sol, injustamente — o único preso dos protestos de junho.

Quero justiça ampla, geral e irrestrita. 


8ª Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR

banner ai5

Na ocasião dos 45 anos do Ato Institucional nº 5, e poucos meses antes dos 50 anos do golpe de 1964, novamente blogueiros e ativistas estão unindo forças para realizar a VIII blogagem coletiva #DesarquivandoBR. Trata-se de uma demanda urgente do país pela justiça de transição, pela memória e pela verdade. Os tímidos resultados, até agora, da Comissão Nacional da Verdade, quase um ano e sete meses após sua instituição, reforçam nossa convicção de que o engajamento da sociedade organizada é essencial.

O AI-5, chamado na época de “antilei”, formalizou o endurecimento da ditadura e forneceu o novo ambiente institucional para que ocorressem, no ano seguinte, a revisão autoritária da Constituição de 1967 e a edição do decreto-lei n. 898, que agravou a punição dos crimes contra a segurança nacional, reintroduzindo oficialmente a pena de morte no direito brasileiro.

Esta blogagem coletiva será um dos atos preparatórios das mobilizações sobre os 50 anos do golpe em 2014. Os objetivos desta iniciativa continuam sendo a abertura dos arquivos secretos da ditadura militar, a investigação dos crimes e violações de direitos humanos cometidos pelo Estado brasileiro contra cidadãos, a localização dos corpos e restos mortais dos desaparecidos políticos, e a revisão da Lei da Anistia para que se possa processar e punir criminalmente os torturadores, além de responsabilizar o próprio Estado pelos crimes de tortura, assassinato e desaparecimento forçado no período da última ditadura.

Sugerimos aos blogueiros e ativistas que se incorporarem à campanha que escrevam sobre esses temas, mas que se sintam livres para abordar qualquer assunto vinculado à última ditadura ou à justiça de transição. Aquele que não tiver um blog ou site e quiser participar poderá enviar seu texto para o email desarquivandobr@gmail.com que o publicaremos no blog DesarquivandoBR, devidamente assinado.

O AI-5, editado em 13 de dezembro de 1968, foi a resposta oficial às intensas mobilizações da sociedade brasileiras no ano de 1968. Em significativo paralelo, as manifestações da sociedade brasileira em 2013 reanimaram respostas repressivas do Estado brasileiro, que foram, em regra, acobertadas com a impunidade. Isso nos faz lembrar que há continuidades entre a ditadura militar e os dias de hoje, e que a luta pela punição dos torturadores e assassinos de ontem alimenta as atuais campanhas pelos direitos humanos.

A blogagem coletiva ocorrerá do dia 10 a 13 de dezembro. Pedimos para que os blogueiros que se agregarem a esta iniciativa deixem um comentário a esta chamada com o link do seu texto, que será divulgado no blog DesarquivandoBR. No dia 13 de dezembro, aniversário do AI-5, realizaremos um tuitaço a partir das 21h e concentraremos esforços nas postagens também no Facebook. Participem e acompanhem pelo perfil @desarquivandoBR e/ou pela hashtag #DesarquivandoBR no twitter e na fan page DesarquivandoBR no Facebook, e coloque a marca da campanha no seu avatar.


Selo Inconveniência

 Mas pode chamar também de desajuste ou deselegância

Sem título-1

Foi uma bobagem. Ínfima. Mixaria, mesmo. Mas doeu. Me trouxe de volta aquela sensação de não pertencimento, de desajuste ao mundo e às pessoas, com suas relações cheias de códigos e etiquetas não publicados, mas que ~obrigatoriamente~ precisam ser aprendidos. É aí que não me encaixo. Não gosto da obrigação e sou, sim, inconveniente.

Quebro os códigos e os protocolos, assassino a etiqueta. E quando amigues, com razão, me puxam a orelha por causa desses deslizes eu me magoo. Não porque não possa ser criticada, óbvio que posso, e costumo refletir sobre as críticas, mesmo que reaja mal no momento. Mas esses puxões de orelha doem no coração. Me lembram o quanto não pertenço a esse mundo e nem domino os códigos de boa convivência.

Não é de todo ruim ser colocada no meu lugar. Desde que eu tivesse um lugar… :-(

O puxão de orelhas de hoje foi por uma mixaria. Acho até que poderia ter passado batido… Mas não passou. E doeu tanto, tanto… Estragou meu dia. Preparei meu café da manhã aos prantos e assim, aos prantos, o tomei. Fato que melhorei muito depois que comi. Então, por favor, ao me verem conectada entre 9h e 15h, lembrem de me perguntar se já comi? :P

Enfim… Mais desagradável quando faminta. E ainda mais desagradável comendo.

#SeloIncoveniênciaFull


#ReginaDuarteFeelings e sua influência nas nossas escolhas de um projeto político

ReginaDuarte_MedoQuem não lembra do discurso “eu tenho medo” da Regina Duarte na campanha de 2002 para presidente? Isso ficou mais marcado do que o ano em que foi feito o discurso. O vídeo (linkado) diz que foi em 2006, só que em 2006 o candidato do PSDB era Alckmin. Mas o ponto não é esse, e sim a sua influência no modos operandi do fazer política de lá para cá.

A entrada das redes sociais na campanha política trouxe junto a lógica da política do medo, ou o que chamo de #ReginaDuarteFeelings. O argumento nunca é favorável, mas o inverso dele que te faz ficar favorável. É o velho e ruim “voto (in)útil” chamado agora de ‘mal menor’, do candidato ‘menos pior’. Acostumamos-nos a ele de tal forma que nem ousamos mais pensar no melhor, num projeto para chamar de nosso, para defender.

PSOL e PSTU e demais esquerdistas são classificados pelos governistas como “a esquerda que a direita gosta“, e de colaborar diretamente para o “avanço” dos tucanos sobre o eleitorado. Oi? Que avanço dos tucanos? Primeiro é preciso esclarecer que não criticar o governo não o salva de se atirar nos braços da direita e de ‘desenvolver’ sua política capitalista genocida e nem de se aproximar “ideologicamente” do PSDB. Segundo, não é assim que se estabelecem diferenças, mas com política real, no caso de governos com políticas públicas e econômica. E nesses quesitos, o governo do PT é campeão em mentiras, em fingir ser o que não é e em colocar no outro a culpa da política que faz.

Vamos colocar alguns pingos nos is, então. Tudo nesse governo é capitalista. Não há nenhuma política de esquerda em que possamos usar aquele atenuante “ah, o governo tem problemas, mas tirou 30 milhões de pessoas da miséria…“. Sério? Mesmo? Quando um governo gerencia um Estado privilegiando sempre os mais ricos, até mesmo na “política” de Direitos Humanos, ele produz miséria ao invés de combatê-la. Ao produzir miséria e miseráveis e usar o braço armado desse Estado contra qualquer oprimido que tente se rebelar/protestar, ter uma única política que tira pessoas da miséria e depois as joga na selva do capitalismo (onde só se prospera pelos “próprios méritos”, como se não houvesse aí exploração do trabalho de outrem/ns), não é tirar pessoas da miséria, mas uma política social-democrata de redução de danos que no final das contas atrela essas pessoas ao voto de gratidão nesse governo. Isso é a velha política clientelista dos coronéis de outrora maquiada de “política social de distribuição de renda”. Tanto assim que os índices de desigualdade social permanecem os mesmos. Enquanto pessoas saem da miséria com esmola do governo os ricos ficam mais ricos – com exceção do Eike, coitado… :P –. Tirou pessoas da miséria? Sim, mas mantém a política que produz a miséria e os miseráveis.

O fato é que transformar miseráveis em consumidores não os transforma automaticamente em cidadãos. Educação e participação política é que transformam miseráveis em cidadãos. Democracia não é apertar um botão a cada dois anos passando um cheque em branco para este governo que clienteliza a população mais pobre. Não se preocupar com os resultados de sua política como crianças vivendo no lixo; prostituição de crianças na esteira do “desenvolvimento” da construção de hidrelétricas para produzir energia suja; remoção de pobres e pretos para a maquiagem das grandes cidades para os grandes eventos; preocupação zero com os danos ambientais de todas as obras e desarticulação dos órgãos fiscalizadores desses danos ambientais; prática de tortura, assassinato e desaparecimento nas delegacias e unidades policiais de norte a sul do país e apoio incondicional ao aparato policial em detrimento do cidadão; coloca o PT e seus governos no rol dos iguais. E nem vou citar mais casos de violações de direitos humanos, como índios assassinados, secretário de governo do PT armado contra sem terra, apoio do governo à milícias do agronegócio, etc., sob pena de ficar linkando até semana que vem. Não são os esquerdistas que colocam o PT no rol dos iguais apenas o dizendo (e nem a palavra da esquerda é tão poderosa assim), é o próprio PT com sua política que se coloca nesse lugar. Observar e evidenciar isso não é mérito nenhum além de não ser cego.

Dizer que quem enxerga e evidencia a real politik do PT — e não a política que o PT diz fazer — é colaborador da direita ou eleitor indireto de Aécio ou Marina é nada mais nada menos que repetir o discurso do medo de Regina Duarte. E, PASMEM, TEM FUNCIONADO! Várixs governistas que estavam finalmente percebendo que não criticar publicamente o governo só o empurra cada vez mais para a direita, estão voltando à política governista de terrorismo nas redes sociais. “Ou tu vota no PT e apóia Dilma ou estará apoiando Aécio ou Marina”, assim, fatalmente. Oi? Não existe voto nulo e não-validação desse sistema eleitoral, dessa falsa democracia?

Para quem cria, estimula ou se deixa enredar nesse terrorismo, deixem-me apenas dizer duas coisas. UMA: o TSE não computa apoio crítico, e nem o PT. Já os votos nulos e a abstenção eleitoral aparecem na contabilidade final das eleições e querem dizer uma única coisa: INSATISFAÇÃO. DUAS: Dizer que não adianta abraçar um projeto político que não tem chances eleitorais é o que dizia o MDB/PMDB lá no início do PT. O PT não nasceu na Presidência da República, mas como um partido pequeno, pentelho, que só tinha gente desconhecida como candidato (muitos ex-presos políticos e barbudos desgrenhados, o que não ajudavam em nada na “imagem vendável” de um partido sério) e foi construindo tijolinho por tijolinho, por acreditar que o seu projeto era o bom, era o justo, era o melhor é que o fez chegar onde chegou (apesar de muitos atribuírem apenas a figura de Lula). Ninguém fez mais campanha contra o voto (in)útil que o PT. Voltar a isso é apostar na despolitização e desconscientização do voto. Cuidado! Esse é um caminho sem volta, não para a política eleitoral nacional, mas para os (até aqui) agentes políticos transformadores da sociedade que fazem uso de expediente.

Para os governistas envergonhados que ficam aí dizendo “tenho críticas ao governo, mas não há nada melhor do que isso“, assumam o ônus de defender e votar nesse projeto do PT e o defendam pelo seu melhor, se encontrarem. Chega de #ReginaDuarteFeelings na política! Até porque a própria Dilma jogou por terra todo o terrorismo feito pelo PT na campanha de 2010 ao fazer tudo que ‘disseram que Serra faria’ nos primeiros seis meses de governo e fechando com chave de ouro agora, com a privatização de campos de petróleo. Voltemos urgentemente a lutar pelo melhor, pelo justo, pelo bom. Democracia é antes de tudo um exercício de respeito às escolhas dx outrx. Disputemos antes sua consciência com o nosso melhor, com a melhor proposta — inclusive a do voto nulo, se acreditarmos nele como força de mudança –, mas depois da escolha feita, respeitemos sua escolha e inteligência.

medo eu tenho desse cabelo...

medo eu tenho desse cabelo…

p.s.: Não se perguntem porque não falo diretamente com tucanos e afins. Não me relaciono com eles de forma alguma, não tenho nada a dizer a eles e o que tinha para saber deles já sei. Não sou eu que me aproximo deles com a política que faço, mas o PT.

Já tinha escrito antes sobre a defesa cega do governo e retrocessos suportados…

Texto do Gilson, de hoje, sobre o mesmo tema.

E para quem ainda isenta Lula da política de Dilma no governo, sinto muito (mentira, sinto nada) em decepcionar.


O racismo que existe em mim

Já contei para vocês que amo-amo-amo a Charô? Para quem não a conhece vou defini-la como alguém que desacomoda, perturba, me tira do eixo. Gosto dela não só pela ~função~ que exerce na minha vida, ela é gostável de graça. Procurem-na. A Charô faz bem.

Hoje ela apareceu no feed de uma das redes sociais que compartilhamos com este pensamento

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…que trouxe à tona em mim duas lembranças. A primeira um desconforto imenso ao estar cercada por mais negros que brancos numa festa e a segunda da infância, do Jardim de Infância — minha primeira experiência de sociabilização fora da família, aos 5 anos de idade.

O papel da publicidade e da tevê na construção da cidadania e do imaginário como cidadão são cruciais. Tu vais assistindo peças e novelas que te levam a crer que família de comercial de margarina só pode ser branca, classe média e hétero. Logo, todo o resto é estranho. Novelas — mesmo as que retratam favelas e subúrbios — com elenco quase 100% branco nos levam a crer que esse é o país que temos. Não que sejamos idiotas e acreditemos em tudo que assistimos, falo da construção do imaginário, do subconsciente. A crítica fica aqui, no campo da consciência. O meu imaginário também foi formatado assim.

Primeira lembrança. Um dia, durante a campanha para a prefeitura de Pelotas em 1992 — eu era do PT — uma das escolas de samba da cidade abriu a quadra para a nossa candidata a prefeita e fez uma pequena festa. Fui eu e uma amiga. Na entrada da rua da escola, tínhamos que caminhar umas oito quadras mal iluminadas para chegar, nos abraçamos e “de brincadeira” nos despedimos da “civilização” e seguimos, “corajosas”. Duas brancas, quase frescas, no meio de uma favela (plana, em Pelotas não existe morro) à noite. Olha a construção do imaginário, aí… Chegamos na festa. Bem. Não fomos interpeladas, não ouvimos piadinhas e não estivemos sequer perto de qualquer situação de perigo. Era só o imaginário. o.O

Na festa eu era a única pessoa da minha cor, branco fosforescente. Pensa que eu era ‘atração’? Óbvio que não. Fui super bem tratada. Mas, tinha um incômodo. Ele era só meu. E passei o tempo todo me auto-flagelando e tentando entender o porque de tanto estranhamento e desconforto. Afinal, sempre convivi com negros. Talvez o meu incômodo não fosse pela presença negra, mas pela maioria negra. Sim, sempre convivi com negros, mas sempre em minoria. E aí, não há outro nome para o desconforto a não ser racismo.

Segunda lembrança. Antes, deixa eu contextualizar. Sou filha e neta de proletários. Pai mecânico, filho de um descendente direto de portugueses da Ilha da Madeira e de uma italiana que nunca conheci. Mãe dona de casa, multifuncional, filha de um português e de uma mezo polonesa mezo alemã. Esse pai português da minha mãe era capitão de corveta da Marinha, mas deixou minha avó viúva aos 22 anos. Ela se juntou então com um ferroviário, negro, em 1947. Foi ele que conheci como avô. E embora minha família negasse sua negritude (não faço ideia de como eram capazes disso… ele tinha a pele muito escura e o nariz mais largo que já vi ao vivo na vida — imaginário? eu tinha 6 anos quando ele morreu), diziam que ele era “bugre” — coisas do Rio Grande do Sul…

Devidamente apresentada, minha primeira experiência de sociabilização foi numa escola mantida pelo padre da paróquia, para os filhos dos trabalhadores da comunidade ficarem mais debaixo da asa e dos olhos dos pais. De uma turma de 20, apenas três colegas eram negras. Uma em situação social idêntica a minha. As outras duas era mais pobres, filhas de mãe solteira, netas de uma senhora de “reputação não muito boa”, diziam, e a minha avó as chamava de sarará, o cabelo delas era amarelo. Eu olhava para todos com curiosidade, meninos e meninas. Só tinha um irmão mais velho em casa, a quem idolatrava nessa época. Estranho para mim eram as meninas e eu as observava mais. Aí, que um dia percebi que as duas meninas mais pobres não sentavam com todos na hora da merenda — todos levavam seu lanche de casa. Observei um pouco mais e me dei conta que não se juntavam ao grupo — achei eu — porque não tinha merenda. Eram orientadas em casa a não constranger os demais, não pedir. Ficavam apartadas, com fome, sem nem olhar para o que comíamos. Passei a levar merenda para mim e para elas, dispostas a incluí-las. Não funcionou. Eu acabei me apartando do grupo maior para lanchar com elas.

Um dia, indignada, subi no banco do pátio da escola e fiz discurso pela inclusão das duas gurias. Não funcionou. Elas não se exluíam e auto-excluíam só por serem negras, mas também por serem pobres. No caso, mais pobres que os demais. Segui levando lanche para elas (eu fazia sanduíches de bolacha cream cracker com patê, um pacote inteiro todos os dias — sim, aos 5 anos eu mesma preparava meu lanche), até minha mãe, intrigada de como eu conseguia comer tanto, ir até a escola investigar. A avó das meninas achou linda minha atitude, mas se ofendeu quando minha mãe ofereceu dar os pacotes de bolacha e patê diretamente a ela, para as gurias levarem seu próprio lanche para a escola. Aí, brigaram e tal e coisa, e as gurias foram instruídas a sequer falar comigo e eu idem.

Já me perguntei se não fosse o fato delas não terem merenda se perceberia o apartamento delas e o racismo embutido ali, já que no grande grupo tinha uma negra e era uma das líderes do frege. Também não sei dizer se me indignei mais pelo persistente apartamento delas — já que isso deixou de me incomodar depois — ou pelo fato da minha tentativa de inclusão ter fracassado. Não sei responder.

Nunca me achei imune ao racismo pela minha trajetória e vivências. Cresci entendendo que raça e condição social apartam, criam cisões. NÃO, PERA… O que aparta não é a raça ou a classe, mas o preconceito e sua construção no nosso imaginário. E esse nos acompanha por toda a vida, está impregnado em tudo, em cada ação, atitude, interação. Eu mesma escorreguei hoje, e nessa postagem da Charô que cito lá em cima, fiz um comentário torto, racista. Estava querendo dizer uma coisa, mas disse de uma forma que revelou o racismo que existe em mim. Ao dizer que meu imaginário foi formatado para pensar e agir assim não estou me desculpando, apenas tentando entender de onde vem para melhor combatê-lo. Luta infinda essa. :/

O que me fez perceber que tinha feito um comentário racista? O reli a partir do silêncio da Charô diante dele. Ela não precisou nem bater… Entendem porque a amo tanto? As pessoas que nos fazem sentir bem, confortáveis são necessárias, mas as que nos desacomodam são imprescindíveis, e nos tornam pessoas melhores.


Nem

contemplo o tempo passar por uma fresta do dia, da minha janela — nem dia nem noite, nem claro nem escuro — mais pra escuro, claro.

contemplo o tempo passar por uma fresta do dia, da minha janela — nem dia nem noite, nem claro nem escuro — mais pra escuro, claro.

Dias mornos. Nem quentes nem frios, sem emoção, sem graça, chinfrins mesmo.

Minha melhor amiga que nunca poupou-me de dizer-me as verdades nem sempre acertava o dia para me atirá-las, e num desses dias  — errados, de verdades certas  — me definiu como alguém “nem”. Grávida do Calvin, em silêncio, em crise, abafada, sufocada, ouvi textualmente:  — Tu é do tipo ‘nem’. Nem feia nem bonita, nem alegre nem triste, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra… ‘nem’ — desferiu a punhalada, sem ter ideia do quanto suas palavras machucaram e ficariam ecoando.

Eu estava em dias assim, mesmo, quando ouvi isso. Mas estava mais para triste, mais pra baixo, mais pesada, mais feia. E nunca mais consegui me livrar dessas palavras. Nem quero mais (livrar-me delas), guardo-as com carinho. Alguns dias, como hoje, voltam a doer e, resignada  — justo eu —, visto a palavra que me define e me sinto ‘nem’, com aquela sutil inclinação para um dos lados.

Suporto os dias, tentando administrar as mazelas sem piorar as coisas. Procrastinando é meu verbo, assim, no gerúndio. Ausência meu substantivo. E nem o advérbio da minha existência. Celular no silencioso sempre. Nunca atendo o telefone de casa. Quando toca a campainha finjo que não ouvi. Nem viva, nem morta, mais para quase viva. Observo a passagem do tempo por uma fresta do dia, da minha janela. Nem dia nem noite, nem claro nem escuro. Com uma sutil inclinação para o escuro, claro.

Quase viva, sem graça, morna. Nem.


Meu lado lua

lua

Há uma sombra que persegue meus dias. Desde criança a vejo, sinto, pressinto. Nem sempre desagradável. Em muitos momentos me deixei acolher por ela, a salvo dos olhares invasivos e do julgamento alheio, que na verdade eu mesma  me impunha.

Cresci com ela, mantendo uma distância razoável, segura, que só era interrompida em extremos de necessidade. As crises eram constantes. O desajuste com o mundo, o descompasso com o tempo, os embates com os outros… Tudo tão doloroso e aos solavancos…

Fui perdendo o controle dessa distância e me misturando com a sombra. Ficando meio parecida com a lua, que dependendo do dia maior e mais brilhante ou menor e mais opaca. Chegando a dias de um completo nada.

As fases de escuridão foram ficando maiores  e deixando crateras a cada crise mais profundas. Fui aprendendo a lidar com as sequelas. Era isso ou não voltar mais a crescer, brilhar. Cada volta foi sendo mais bonita. Proporcional à dor sofrida com os solavancos da ida e da volta. E a beleza sempre me iludia que os tempos sombrios haviam acabado…

Tanta similaridade com a lua não é à toa e nem impune. Me confesso um pouco cansada desse eterno girar, girar… A única diferença é não ter periodicidade, não ter dia para escurecer ou iluminar. Não há certeza dos tempos, e a sombra me é tão mais segura e familiar…

Os dias são quentes e ensolarados aqui no Rio de Janeiro e justo por isso ando recolhida, a salvo de olhares invasivos e julgadores e do excesso de claridade. Confortável, aguardando a próxima fase.


Música como tradução

Para o Gilson.

eu + gilson

Acho que tive sorte quando desembarquei no Rio de Janeiro. Vim pra cá na incerteza, sem saber direito o que fazer nem quanto tempo ficaria nem se ficaria. Não tinha nenhum alvo ou propósito. Não mirei, não atirei, não me atirei. Mas acertei.

Nessa cidade que me endurece a cada dia e onde estou há mais de um ano, encontrei um amor tranquilo, desses de calmaria que invadem devagar, que eu nem sabia que queria. Parceria de vida, nos planos, em sonhos de futuro, sonhos de mundo, mas principalmente parceria no dia a dia. Nem preciso dizer que ele tem uma enorme paciência comigo, que atura a oscilação do meu humor com persistência, e sei que não é por concessão.

E justamente por ser um parceiro de sonhos, não nos apegamos a datas comerciais ou cristãs nem trocamos presentes. Manifestamos nosso afeto em pequenas gentilezas e muitas grosserias, daquelas que só somos capazes diante de pessoas com quem nos sentimos completamente à vontade. E nos sentimos em casa um com o outro, um no outro. Casa-abrigo, casa-desconforto, casa-lar, casa-lar-ogro, casal ogro.

Apesar de não sermos um casal comum, mantemos algumas coisas de casal. Tipo ter uma música, uma canção que nos representa e nos canta, nos encanta. Cruzada, do Tavinho Moura e Márcio Borges se escolheu sozinha, nós apenas a reconhecemos. Então, segue a letra que traduz nossa parceria.

Antes clica no vídeo para ouvir essa lindeza.

Cruzada

Não quero andar sozinho por estas ruas Sei do perigo que nos rodeiam pelos caminhos Não há sinal de sol, mas tudo me acalma No seu olhar

Não quero ter mais sangue morto nas veias Quero o abrigo do abraço que me incendeia Não há sinal de cais, mas tudo me acalma No seu olhar

Você parece comigo Nenhum senhor te acompanha Você também se dá um beijo, dá abrigo

Flor nas janelas da casa Olho no seu inimigo Você também se dá um beijo, dá abrigo Se dá um riso, dá um tiro

Não quero ter mais sangue morto nas veias Quero o abrigo do abraço que me incendeia Não há sinal de paz, mas tudo me acalma No seu olhar

Não quero ter mais sangue morto nas veias Quero o abrigo da sua estrela que me incendeia Não há sinal de sol, mas tudo me acalma No seu olhar

Se quiser continuar ouvindo Cruzada, aqui tem uma playlist com todas as versões que encontrei.


Um lindo dia… ♥

[4h54] Neste exato minuto meu dino filhote está completando 17 anos. E se no ano passado eu estava fazendo um esforço enorme nesse mesmo dia para não chorar e não morrer de culpa, ainda que estivesse sendo comoventemente ampara/mimada pelo Gilson, hoje estou com aquele sentimento de realização, de dever cumprido e bem comigo mesma.

Meu dino está roncando (e alto, em função da gripe que resolveu dar as caras), e só de ouvi-lo meu coração aquece. Amanhã acordo cedinho e vou cumprir o rito que me é mais caro desde que ele nasceu… Fazer eu mesma o bolo dele de ‘avinersário’ e ter o prazer de vê-lo se empanturrar com o bolo — ele adora bolo de aniversário, desses com massinha delicada, recheio e cobertura.

cenas de chamego explícito... ♥

cenas de chamego explícito… ♥

Que o dia de todos seja tão bom quanto será o nosso nesse 19 de maio. E cheio de chamego, igualzinho nessa foto que fizemos no último domingo aqui, no novo endereço do Parque Jurassí. :)

O “amanhã”, que transformei em hoje…


VII Blogagem Coletiva #desarquivandoBR

Nossa luta é por justiça e pela preservação da memória dos mortos e desaparecidos. Para que se conheça, para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça.

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Está começando a sétima blogagem coletiva #desarquivandoBR
– 24 de março a 3 de abril –

Já faz quase um ano que a Comissão Nacional da Verdade foi empossada e está trabalhando. Ou seja, já sei foi metade do seu tempo regulamentar para dar conta de um período maior do que o da ditadura civil-militar brasileira (1964-1985) e até agora pouco ou quase nada de relevante se apurou. Se estabeleceu entre os membros um rodízio na presidência da CNV, e já figuraram no comando geral Gilson Dipp, Cláudio Fonteles e recentemente assumiu Paulo Sérgio Pinheiro. Esse último, em recente entrevista, disse que as apurações da CNV permanecerão em sigilo até a entrega do relatório final em 2014 à presidenta Dilma Rousseff.

Sigilo? Numa comissão pública? Manter em sigilo um trabalho sobre o qual havia a expectativa de comoção do país e da opinião pública sobre os horrendos crimes praticados pelo Estado contra seus cidadãos, e dessa forma revertesse/compensasse o caráter não-punitivo da CNV? Isso é a comprovação de que nossas desconfianças e reservas quanto a CNV tinha razão de ser.

Entre as notícias recentes a mais chocante — do ponto de vista da possibilidade de chegarmos à verdade dos fatos da ditadura civil-militar — foi uma reportagem da Folha de São Paulo sobre ministérios — hoje, nesse governo — estarem retendo arquivos da ditadura militar (notem que a apuração e descoberta foi da imprensa, e não da CNV). No mesmo dia da publicação da denúncia, um domingo (03/03), o governo anunciou que encaminharia todo o material para o Arquivo Nacional. Três dias depois a FSP noticiou que arquivos de órgãos da ditadura estão desaparecidos. No dia 9 de março a Casa Civil entregou 412 caixas com os tais arquivos retidos ao Arquivo Nacional, mas negou o acesso aos documentos pela reportagem, que questionou: será que a Lei de Acesso a Informação é mesmo letra morta?

49 anos depois do golpe militar, a Comissão Nacional da Verdade, outras comissões públicas e da sociedade civil, bem como a Lei de Acesso a Informação ainda não deram conta dos cadeados que a democracia e seus meandros burocráticos colocaram nos porões da ditadura mantendo-os a salvo dos olhos do mundo e da luz da verdade.

Mais do que nunca a luta pelo desarquivamento do Brasil e pelo Direito à Verdade se faz necessária. É por isso que estamos começando hoje, 24 de março — Dia Internacional para o Direito à Verdade sobre Violações Graves de Direitos Humanos e para a Dignidade das Vítimas, a sétima blogagem coletiva #desarquivandoBR. Até o dia 3 de abril serão dez dias de esforço coletivo para lembrarmos os desaparecidos e mortos da ditadura, denunciarmos a omissão, descaso e iniquidade dos governos para com eles e sua memória, e para exigirmos justiça. 

Para participar da blogagem coletiva basta publicar texto, entrevista, poesia relacionado aos temas da blogagem (abertura dos arquivos, apuração e punição dos crimes cometidos pelo Estado, memória e justiça aos mortos e desaparecidos, revisão da Lei da Anistia) em seu blog e ao final linkar esse post convocatória e divulgar nas redes sociais. Quem não tem blog pode enviar seu texto para o email desarquivandobr@gmail.com que será publicado no DesarquivandoBR, devidamente assinado.

Nos dias  31 de março e 1º de abril, aniversário do golpe militar, realizaremos tuitaço a partir das 21h e concentraremos esforços nas postagens também no Facebook. Acompanhem pelo perfil @desarquivandoBR e/ou pela hashtag #DesarquivandoBR no twitter e na nossa fan page no Facebook e coloque a marca da campanha no seu avatar.

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Edições anteriores do #desarquivandoBR:
Entrevista com Criméia Almeida e Suzana Lisbôa, em 12/01/2010 e a 1ª blogagem
Proposta da 
2ª blogagem
Balanço da 
3ª blogagem
Convocação da 
4ª blogagem e post final com todos os blogs participantes
Avaliação da
5ª blogagem coletiva
Compilação da
6ª blogagem coletiva.


NOTA DE REPÚDIO AO TROTE RACISTA E SEXISTA NA FACULDADE DE DIREITO DA UFMG

A Humanidade, se fosse uma pessoa, envergonhar-se-ia de muita coisa de seu passado; passado este que contém muitos episódios verdadeiramente abjetos. Enquanto humanos, faríamos minucioso inventário moral de nós mesmos; enquanto partícipes do que convencionamos chamar ‘Humanidade’, relacionaríamos todos os grupos ou pessoas que por nossas ações e omissões prejudicamos e nos disporíamos a reparar os danos a eles causados.

Vigiaríamos a nós mesmos, o tempo todo, para que individualmente e enquanto grupo,  não repetíssemos nossos vergonhosos e documentados erros. Pais conscienciosos, ensinaríamos as novas gerações os novos e relevantes valores morais que tem de pautar nossas condutas, palavras e intenções.

Dois desses episódios, chagas profundas e fétidas de nosso passado humano,  são a escravidão e o nazismo. No primeiro, tratamos outros seres humanos como inferiores;  os açoitamos; os forçamos ao trabalho; os ridicularizamos (dizendo que eles eram feios, sujos, burros, seres humanos mal acabados e não evoluídos);  procuramos destruir seus laços com a terra amada, sua cultura, sua língua; dissemos que eles não tinham alma enfim. No segundo não era diferente; mesmas ações, alvos expandidos: pessoas negras, judeus, homossexuais. Todos tratados com o mesmo desrespeito.

O tempo passou e como as chagas permanessem, fizemos um meio-trabalho: criamos leis. Leis como a 7.716/89, que qualifica o crime de racismo e depois a Lei  9.459/97 (que inclui o parágrafo 1 no artigo 20 da já referida Lei 7.716/89, mencionando a fabricação e uso de símbolos nazistas). Infelizmente, nem mesmo a força da lei tem sido suficiente.

O  que vemos é, em toda parte, ressurgirem graves violações dos Direitos Humanos outrora perpetradoss. O que seria motivo de vergonha vem ganhando  espaços públicos, por meio de recursos custeados pelo Estado; um Estado que se auto declara ‘Democrático de Direito’; um Estado que tem como fundamento a DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA (inciso III do artigo 1 da Constituição de 1988).

Sim, foi isso mesmo o que você leu: na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), alunos do curso de Direito (sim, um curso cujo objetivo é formar profissionais que serão essenciais à Justiça e à defesa desse propalado Estado Democrático de Direito) fizeram um trote onde, sob a desculpa de fazer piada usaram saudações nazistas e representações racistas e sexistas.

A notícia, amplamente divulgada na mídia, vocês PODEM LER AQUI.

Mas não é só: infelizmente nesses últimos meses, tomamos contato com episódios igualmente repulsivos ocorridos em universidades: na Politécnica (Faculdade da Universidade de São Paulo, também mantida com recursos públicos), vimos alunos divulgarem uma gincana, onde uma das ‘provas’ era algo cometer assédio sexual. Aqui outra notícia do mesmo fato.

E isso logo após alunos de uma outra Universidade (também da USP, na cidade de São Carlos), agredirem manifestantes que criticavam um trote que vilipendiava a imagem feminina.

Todas essas condutas, perpetradas por alunos que deveriam estar recebendo instruções aptas a torná-los profissionais e cidadãos mais éticos (afinal, é para isso que todos os cursos contém em suas grades a matéria denominada ‘Ética’), mostram que beiramos a um perigoso retrocesso no quesito ‘Direitos Humanos’.

Sendo os Direitos Humanos imprescritíveis, inalienáveis, irrenunciáveis, invioláveis e universais, efetivos e interdependentes, não pode haver NENHUMA tolerância a qualquer ato ou gesto que os ameaçem.

E é por isso e também por tais atos (perpetrados nas três universidades citadas) constituirem verdadeiro incentivo à propagação de discursos preconceituosos e de ódio, é que os coletivos assinam a presente nota de repúdio, esperando que autoridades constituídas tomem as providências cabíveis para apenar exemplarmente os responsáveis. Leis para isso já existem; mas para que os direitos ganhem efetividade é preciso sua aplicação.

Esperamos também que as pessoas que lerem a presente também façam um reflexão sobre o rumo que nossa Sociedade está tomando. Não queremos o retrocesso. E se você compartilha conosco desse sentimento, dessa vontade de colaborar com a construção de uma Sociedade melhor, não se cale.

Nós somos negros; nós somos mulheres;  nós somos gays; nós somos lésbicas; nós somos transsexuais; somos nordestinos; adeptos de religiões minoritárias. Somos as minorias que diuturnamente temos de conviver com o menoscabo de nossas imagens; com atos que naturalizam a violência;  que criam verdadeira cisão entre Humanos; que reabrem as chagas e as fazem sangrar. E nós não vamos nos calar. O estandarte, escudo e espada emprestaremos da Themis, a deusa da justiça; usaremos a lei e  exigiremos o seu cumprimento.

Aos estudantes de Direito que fizeram uma tal ‘brincadeira’repulsiva, lembramos:

‘Ubi non est justitia, ibi non potest esse jus’  -
Onde não existe justiça não pode haver direito.

trote não

Assinam o presente,


Considerações sobre inclusão de alunos com deficiência TGD na rede pública de ensino

calvin_balão

Minha grande amiga Renata Lins me mandou um projeto de lei municipal que trata da inclusão de alunos com deficiência TGD (Transtornos Globais do Desenvolvimento) e superdotados na rede municipal de ensino do Rio de Janeiro me pedindo que opinasse a respeito. Sempre evitei opinar sobre o tema porque sempre o farei como mãe e por mais que mães de crianças específicas sejam quase especialistas na síndrome/transtorno de seu rebento isso não as credencia como especialistas de fato. Mas também já passou da hora de escrever alguma coisa a respeito. Então, bóra listar em forma de considerações e/ou questionamentos tudo que venho pensando nesses quase quinze anos em que convivo com essa realidade.

1) A ideia da inclusão é linda, mas irreal. Surreal, eu diria. Por mais que o princípio seja o da universalidade do ensino e de educar cidadãos desde pequenos a conviver e respeitar o diferente — e só por isso o projeto da inclusão já quase se justificaria –, formando um outro perfil de cidadania, ele desconsidera quem está incluindo, a especificidade de cada síndrome, transtorno, caso e principalmente desconsidera a individualidade de cada uma dessas crianças.

2) A escola pública não está preparada para receber sequer os alunos das síndromes mais comuns como down ou as deficiências físicas como visual, auditiva e motora (as escolas cariocas todas tem rampa de acesso para cadeirantes?), quanto mais outras crianças com problemas mais específicos e/ou mais graves e complicados de lidar, tratar. E não é que essas crianças não sejam sociáveis ou socializáveis, é que cada uma das síndromes tem um método de tratamento e de estimulação específica para o aprendizado. Como respeitar o ritmo, método e tratamento de cada um junto com crianças ditas normais (e ainda temos que considerar aqui que muitas dessas crianças normais apresentam dificuldades e ritmos diferentes que precisam ser observados e respeitados dentro do global da sala de aula e da escola). Então, a não ser que estejamos pensando em enlouquecer todos os professores da rede pública — que não receberão um adicional por insalubridade — é bom pensarmos e olharmos para essa questão com mais cuidado e municiados de mais ângulos e opiniões.

3) As escolas públicas são seguras? O poder público não consegue evitar que drogas e armas entrem nas escolas. Fato. Exceto quando há democracia participativa na escola e a comunidade se envolve com a escola. Crianças com deficiência TGD são mais indefesas e a ampla maioria toma medicação pesada, que se misturada com álcool ou drogas pode causar danos irreversíveis. A escola pública está preparada para evitar isso? Ou essas crianças ficariam apartadas das demais (indo contra o princípio da inclusão) durante o recreio ou com horários de entrada e saída diferentes das demais?

4) Crianças ditas normais só por uma pequena diferença na aparência ou nos hábitos sofrem bullying (que inclui violência psicológica e física, podendo incluir violência sexual). Crianças específicas com deficiência TGD não têm preparo nenhum para isso. Pior. Não têm defesa nenhuma, são vítimas fáceis demais (e só de pensar nisso o coração fica esmigalhado). O projeto de inclusão está preparado para lidar com isso?

5) O projeto de inclusão, como está colocado, é como colocar na mesma sala de aula japonês, cachorro e planta e exigir resultados. Sim, porque os governos cada vez mais aderem a programas que exigem aprovação e resultados e desconsideram pessoas, onde professores são estimulados a aprovar mais para aumentar seu salário. É nesse cenário que se pretende cidadania? Tem algo errado nessa conta… É como se existisse a escola do papel (finge que ensina), a escola ideal (inclusiva) e a escola real (alunos nem precisam fingir que aprendem porque o professor vai aprová-lo, pressionado pela direção da escola e por suas contas).

6) Pensando sobre os pais de crianças específicas, sindrômicas e com deficiência TGD e a dúvida entre escola normal ou específica (teve uma novela que tratava do tema, a mãe tinha que escolher entre matricular a filha down numa escola específica ou numa escola normal — detalhe: ela podia escolher porque tinha dinheiro para pagar uma escola particular disposta à inclusão e estava preparada psicologicamente para a batalha diária de disputa de cada espaço), fico com as escolas específicas. Não as particulares, mas as assistenciais mesmo. Estão totalmente voltadas para atender cada criança em sua especificidade, são totalmente adaptadas fisicamente, os professores, direção e funcionários sabem como lidar com crises, gritos e situações de emergência como convulsões, menstruação antes do tempo no caso das meninas (porque a única coisa normal em crianças especiais é o desenvolvimento sexual) e externalização de excitação no caso dos meninos, fugas e tentativas de fugas, entre uma infinidade de detalhes que nem eu que já vivenciei essa rotina e realidade teria como lembrar de tudo para listar aqui. E é preciso observar que todo ser humano, normal ou com qualquer tipo de transtorno, desenvolve e aprende melhor num ambiente onde se sinta bem, confortável, aceito. Essas crianças têm suas potencialidades melhor desenvolvidas e aproveitadas nesses ambientes, das instituições e fundações assistenciais, que não visam lucro, e geralmente são dirigidas por pais de crianças com algum transtorno.

7) Alguém faz ideia do gasto — caso cada município decida se preparar de fato — que é adaptar e equipar fisicamente todas as escolas da rede para a inclusão? Capacitação de professores, funcionários e direções para lidar com todas essas crianças tão diferentes e com tantas diferenças juntas? Detalhe: Nas instituições vão trabalhar profissionais que tem empatia com essas crianças e/ou se dedicam, escolheram a causa da inclusão dessas crianças no mundo e se voltam para prepará-la da melhor forma possível. Na escola pública como garantir a “boa vontade” e dedicação de todos os profissionais com essas crianças e seus transtornos, especificidades? Existe garantia desse investimento para inclusão? Sim, essa última pergunta parece deboche. Porque né…

Sou contra a inclusão? Não. Mas tenho muitas dúvidas sobre como se processará essa inclusão, na escola pública que temos e com o respeito (NOT) que temos (sociedade e Estado) pelos educadores.

Se me perguntassem qual a melhor solução, dada a realidade que temos e falta total de condições de lidar com o tema, acharia melhor o Estado investir 10% do que teria que gastar (sabemos que não gastaria um centavo a mais, então isso é hipotético, como hipotético é o compromisso dos governantes com a educação em geral no Brasil) para que a inclusão se desse na rede pública, e distribuísse entre as escolas/instituições/fundações assistenciais que já cuidam de crianças específicas. E cuidam bem, porque pensam o desenvolvimento de forma global, incluindo fisioterapia e pequenas conquistas de independência e autonomia.

Nem pensei nos itens transporte, alimentação e escola de turno integral — porque há que se considerar a realidade das famílias das crianças específicas, e que quase a totalidade delas é chefiada por mulheres que precisam dar conta do sustento e de outros filhos. Não vou tratar também da tendência da sociedade em achar que as mães de crianças específicas precisam se transformar em heroínas (sem amparo ou condição alguma), exemplos de superação e abnegação e abrir mão de suas vidas para viver exclusivamente a vida desse filho/a específico/a, ignorando os/as demais filhos/as quando há.

Essas são apenas considerações e questionamentos e opinião da mãe de um portador de deficiência TGD com características muito específicas, e que já tentou mantê-lo em escola normal e viu o filho ser melhor tratado e alcançar melhores resultados de desenvolvimento, aprendizagem e autonomia numa instituição assistencial, sem pagar um centavo por isso, embora não fosse atendido todos os dias da semana pela falta de recursos.

p.s.1: Tudo que vi de inclusão até hoje só serviu para desobrigar o Estado dessas crianças e da educação específica.

p.s.2: Detesto a expressão “especial”, e alterei nesse texto toda vez que ela aparecia por “específica” (atualização em 18/01, 14h45), seguindo a dica da amiga jornalista Letícia Sallorenzo. Grata.

p.s.3: Se eu estiver desatualizada da discussão ou tiver cometido alguma gafe, AVISEM! Não acho que sou dona da verdade e ficarei muito grata. A ideia do post é provocar a discussão e a reflexão sobre o tema.

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Para quem não conhece, aqui tem um pedaço grande da minha história com o Calvin.


Uma dor, um lamento e um pedido

Nossa luta é por justiça e pela preservação da memória. Para que se conheça, para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça.

Para dona Elzita

Toda vez que realizamos uma blogagem coletiva do #DesarquivandoBR me faço as mesmas perguntas, vêm os mesmos sentimentos de angústia, impotência e uma tristeza só menor que a revolta e a indignação, que me arrasta até o último dia da blogagem sem que eu tenha escrito o meu post. Ele sempre sai assim, aos 47 do 2º tempo.

Uma das perguntas que me faço é se esse sentimento é compartilhado por quem já está nessa luta há 30, 40 anos ou mais. É? Adoraria ter essa resposta, para poder perguntar logo a seguir como faz para renovar a esperança para continuar? Talvez a resposta esteja em mim mesma, mas ela me falta em alguns momentos. É quando a tristeza toma conta e preciso de subterfúgios para conseguir escrever. Da última vez precisei  dos versos do Marcos Valle em Viola Enluarada “mão, violão, canção e espada e viola enluarada pelo campo e cidade, porta-bandeira, capoeira, desfilando vão cantando… liberdade!” para me inspirar.

Hoje foi bem mais difícil. Tive que recorrer a sentimentos outros, diferentes até dos que me impulsionam nessa luta. Mas a gente é assim meio tudo-junto-ao-mesmo-tempo-misturado-agora, né? E rever Casablanca hoje em que completa 70 anos de sua primeira exibição e rever a dificuldade da Resistência Francesa ao nazismo durante a Segunda Guerra Mundial me fez perceber um outro viés dessa luta, ou um outro viés de mim nessa luta. Mas só Casablanca não foi suficiente e precisei de muitos outros recursos. Um deles me foi dado ao acaso, com uma música do Milton Nascimento e Fernando Brant, Ponta de Areia, que não fala de luta nenhuma, é só um lamento, uma nostalgia — “maria fumaça não canta mais para moças, flores, janelas e quintais, na praça vazia um grito, um ai…” — Na medida exata do lamento, nostalgia e saudade que estou sentindo. É, pode ser coisa de mulher maluca, ativista sem foco, mas os sentimentos vêm assim. E entre a saudade dilacerante da minha cria, do exílio que estou vivendo longe do meu lugar no mundo, lamento muito não poder ajudar mais nesse processo todo e nem militar por essa causa como gostaria.

Li as notícias do lançamento do livro da dona Elzita Santa Cruz* (organizado pelo companheiro nosso nessa luta aqui, o Chico Assis, dentre outros) no Recife, na última quinta-feira (22/11) e meu peito sangrou demais. A pergunta que dona Elzita faz em seu livro — Onde está meu filho? –, que o Estado se nega a responder, talvez seja respondida para os filhos de outro desaparecido, Rubens Paiva. Aos poucos, muito aos poucos, muito lentamente, a verdade vai aparecendo, causando mais dor do que o necessário.

É improvável que dona Elzita obtenha sua resposta antes de morrer. E essa é a dor que me dilacera e me causa essa tristeza infinda. Não bastava ter perdido o filho para a intransigência, para a intolerância e para a estupidez? Precisava ela ser torturada também? Não quero escrever com dados, links nem recorrendo a fatos hoje. Estou escrevendo nua, só com minhas dúvidas e dores. Posso?

O motivo dessa blogagem #desarquivandoBR, a sexta? O segundo aniversário da sentença na Corte Interamericana de Direitos Humanos que condenou o Brasil a investigar e punir a chacina do Araguaia. O governo brasileiro age como se não devesse nada, nem aos familiares das vítimas no Aragauaia nem à CIDH, imagina se vai olhar para dona Elzita…

Além de dividir a dor e o lamento, gostaria também de deixar um pedido: construir a memória dos desaparecidos e mortos da ditadura militar brasileira, dar visibilidade à sua luta e história. Que façamos isso para além do que já foi feito e joguemos isso na rede, atualizado (em breve retomarei essa proposta aqui). O livro que estou lendo, do colega Mário Magalhães, a biografia Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo, faz isso. Claro que não estou propondo que escrevamos um livro para cada desaparecido (o que seria justo, mas inviável), mas que contemos a história de quem teve o direito a memória negado. Que tal começarmos com os guerrilheiros do Araguaia?

* Dona Elzita Santa Cruz tem 99 anos. Seu filho, Fernando Santa Cruz, está desaparecido desde 1974, quando tinha 25 anos.

p.s.: Ainda estou esperando os resultados da atuação da Comissão Nacional da Verdade e o que será feito a partir dela.

Este post faz parte da 6ª blogagem coletiva #desarquivandoBR


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