Eu sem o Biscate Social Club…

Parece uma letra do Vinícius… Samba em Prelúdio. Poderia ser, mas acredito que as coisas têm seu tempo e são finitas.

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Demorei para escrever contando porque tem coisas que doem mais do que deveriam. Não faço mais parte do Biscate Social Club e nem escrevo mais lá — mas meus textos, os já escritos, ficaram –, embora a relação de afeto continue com xs bisca tudo que lá permanecem e com o próprio site, que ajudei a parir com muito orgulho. Continuo lendo e continuo indicando a leitura: é libertador e libertário, além de muito prazeroso. Então, não vejam esse comunicado como desabonador ou como uma desqualificação do espaço, porque é capaz que com a minha saída ele fique melhor e menos esculhambado (a esculhambada sou eu, desculpa).

Coletivos tem ritmos, regras e seguem seus caminhos. Tenho o meu ritmo, minhas regras e meus princípios e eles estavam se chocando com o ritmo, regras e princípios do coletivo BiscateSC. Tenho esse jeito meio megafone contra a injustiça e não a admito onde estou, convivo. E houve uma imensa injustiça e covardia contra o BiscateSC e eu berrei antes de todo mundo, não esperei. Tipo queimei a linha, saí berrando antes do coletivo contra essa injustiça. Não sei se saberia fazer diferente. O coletivo achou melhor não me seguir, e nem precisava. E embora pareça, não saí por causa da mágoa de cabocla ou pela contrariedade de não ter sido seguida, mas pelo aceite coletivo à injustiça, pelo menos publicamente. Esse “concordo contigo, mas não posso assumir isso publicamente” não cabe para coletivos, acho. Pelo menos não para o eu parte de coletivos.

Há uma escritora/blog/coletivo feminista chupando o conteúdo do BiscateSC. E meu crime ou pecado foi ter dito isso com todas as letras. A ampla maioria das pessoas preferiu enxergar como “convergência de ideias”, “coincidência de pensamentos” e usar até mesmo do conceito de sororidade para aceitar essa chupação, afinal quanto mais pessoas estiverem escrevendo e conscientizando sobre a libertação das mulheres de sua opressão melhor. Depende. Não acho que varrendo divergências de fundo como racismo, machismo, classicismo, homolesbitransfobia e falta de ética para debaixo da tapete avançaremos ou chegaremos a algum lugar.

A esquerda da qual sou ativista desde quando me entendo por gente se diferencia no fazer, no trilhar o caminho e não apenas no objetivo a ser alcançado. Os demais esquerdistas que pensam que os fins justificam os meios são os mesmos que ajudaram a degradar a proposta do socialismo aos olhos do mundo e deram armas ao capitalismo para nos atacar. É preciso estar vigilante e atento. Se nos opomos à injustiça e queremos um mundo justo é preciso construí-lo desde já pelo caminho da justiça, da ética, da correção de princípios. Não é sendo condescendente com falcatruagem, roubo de ideias e o pisar no outro porque é ou parece menor segundo sua régua que teremos esse mundo justo. E isso tem muito a ver com o feminismo. Não é possível ser feminista e ter empregada doméstica (desculpa, mas não é, quem tem sabe ou deveria saber que vive em contradição), se achar melhor na cadeia de produção (exploração) ou que pode chegar “antes” que qualquer pessoa às riquezas e prazeres da vida porque é branca, hétero, cis ou num-sei-que-lá-mais. Ou se parte do princípio que somos todos iguais desde já e nos respeitamos dessa forma ou já falimos no nosso intento antes mesmo de começarmos a luta.

largando o chicote do BiscateSC... :-(

largando o chicote do BiscateSC… :-(

O BiscateSC foi ao ar no dia 17 de dezembro de 2011, e continua tão lindo em sua proposta e conteúdo hoje quanto naquela tarde nublada e abafada de verão. O mundo continua careta, hipócrita e criminalizando o comportamento das mulheres e ainda temos muito o que dizer. O BiscateSC não tem a fama que deveria, apenas deitamos em quantas camas quanto conseguimos (ho ho ho) e quem a tem (a fama) achou mais fácil reescrever nosso conteúdo e assinar seu nominho em cima do que nos dar o devido crédito. Lamento muito que seja assim, mas também agradeço porque ajuda prabu a definir quem é parceirx na trincheira de luta e quem na primeira oportunidade vai furar teu olho ou te enfiar uma faca nas costas. Não sei vocês, mas eu prefiro saber em quem posso confiar.

No mais, só tenho a dizer: continuem lendo e divulgando o BiscateSC. Melhor espaço ever onde já estive, melhores parceiros de copo e escrita que já tive, e sei que se deitássemos todos numa mesma cama era capaz de mudarmos o mundo só com esse ato. Quem sabe um dia… Hein? Hein? Hein? :P


A esquerda e as eleições 2014

Oi. Vocês vêm sempre aqui? Pois, é. Nem eu. Só venho quando estou sufocando pelas palavras. Então, segue mais uma análise política, das minhas, em tom de desabafo, meio visceral. #TejeAvisado

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Tá osso aturar os debates políticos dessa eleição, estão infinitamente piores e mais rasteiros que os de 2010. Mas como tem muita gente próxima falando em patrulha e sobre a existência de cagação de regra sobre ser ou não esquerda e sobre quem é esquerda em contrapartida com suas opções eleitorais manifestas, se fazem necessários alguns esclarecimentos.

Define-se politicamente como esquerda quem é anticapitalista. Ponto. Infelizmente não é necessário nada além disso, nem ser antimachista como gostariam as feministas de esquerda, nem antirracista como gostariam os negros e negras de esquerda, nem a luta por direitos humanos e anti-homotransfobia como gostariam LGBTs e nem mesmo marxista, como gostariam os marxistas ortodoxos. Sim, os marxistas ortodoxos seriam os únicos que lamentariam, porque para os marxistas no geral basta ser anticapitalista e estar organizado na luta pela libertação do proletariado.

Particularmente gostaria que ser antimachista, antirracista e anti-homotransfobia E marxista fosse condição para ser esquerda. Seria tudo bem mais fácil. Mas não é, então bóra seguir na luta pela conscientização dos anticapitalistas que não existe secundarização ou hierarquização de lutas e se travarmos as lutas todas paralelamente engrossa mais o caldo e mais forte seremos para derrotar o capital. Afinal, o capital se estrutura em opressões — a opressão de uma classe sobre outra, de uma raça sobre outras, de um gênero sobre outros.

Ser anticapitalista já é coisa pra caralho! Significa ser contra o neoliberalismo, contra neodesenvolvimentismo que está acabando com as chances de sobrevivência no planeta (embora a experiência soviética tenha sido e seja considerada ainda como anticapitalista), a favor da reforma agrária (embora essa seja uma bandeira tradicionalmente liberal e social-democrata), estar do lado dos trabalhadores em suas lutas e organizações, contra a globalização da economia, contra a especulação financeira, contra banqueiros, contra o agronegócio, contra a matança do povo negro, contra o trabalho escravo… e por aí vai.

Significa, portanto, que ser esquerda te coloca fatalmente contra as governos e candidaturas que defendam ou estejam aliados com o capital, os empresários, o agronegócio e que não falem em reforma agrária. De modos que, no cenário de 2014 sobram poucas opções.

Tenho vários amigos que ainda defendem Dilma e o PT, amigos que gostam (desde 2010) e apostam em Marina, amigos que votarão nas poucas opções de esquerda — Luciana, Iasi, Zé Maria ou Pimenta — no primeiro turno e anularão no segundo turno, amigos que aguardarão a decisão do seu partido no segundo turno e a seguirão (sim, isso ainda existe), amigos que anularão nos dois turnos e amigos que como eu sequer irão às urnas. Respeito todos tanto quanto respeito o meu direito de me abster conscientemente do processo. Felizmente não tenho amigos que votarão em Aécio, porque aí já seria vandalismo. Mas tenho amigos que votarão em Eduardo Jorge, e, não, o PV não é anticapitalista, embora o candidato seja doidão, engraçado, divertido e tals.

Qual é o problema, então? O problema amigues é ser esquerda — não apenas os partidos, sindicatos e outras entidades, mas principalmente as pessoas que compõem essas organizações –, ativista, influenciar pessoas a sua volta com sua opinião/posição (sou do tempo, nem tão distante assim, em que as pessoas esperavam seus expoentes mais próximos tomarem partido desse ou daquele candidato para saberem/decidirem para lado iriam) e defender irresponsavelmente uma candidatura de direita, neoliberal. Isso confunde os trabalhadores e demais oprimidos induzindo-os ao erro de acreditar em quem não está comprometido com suas lutas e libertação. É grave. Considero além de omisso e covarde, canalhice. A esquerda não tem esse direito, salvo o faça também enganada. Não é o caso. Há informações de sobra e o quadro é mais cristalino que água pura.

Não se trata de patrulha do pensamento ou do voto de ninguém. Trata-se de cobrar a responsabilidade que a esquerda tem nesse processo. Quer apoiar neoliberal que vai ferrar com o ambiente, vai continuar não fazendo a reforma agrária e manterá os mais miseráveis amarrados com uma esmola que não garante condições dignas de vida e nem cidadania plena a ninguém, nem fará uma revolução na educação e muito menos dará acesso pleno à saúde a todos? Beleza, amigue. É teu direito. Só não se diga mais de esquerda porque não és. Cantar essa pedra não é patrulhar ninguém, é só dizer a verdade, o que estou fazendo questão nesse momento.

Não tenho ilusão alguma que votar no Pimenta, Luciana, Zé Maria ou Iasi e/ou ainda anular ou se abster vá alterar a conjuntura eleitoral. Desculpa, mas estou cagando pra isso. Não me sinto responsável pela escolha errada dos outros. O que considero um erro irreparável para a esquerda é matar o seu capital, o seu alimento — a confiança da classe trabalhadora e demais oprimidos. Porque o esquecimento do brasileiro só se dá com quem é distante, com o deputado ou senador em que votou, mas ele não se repete com a pessoa próxima que o convenceu/induziu/influenciou a votar no político canalha que esqueceu as promessas que fez. O capital da esquerda é a confiança que tem os oprimidos que ela estará sempre firme em sua defesa, incansável, perene, persistente.

Bater no peito reivindicando o direito pessoal e inalienável do voto é bem fácil quando quem pagará a conta pela sua escolha errada serão os mesmos de sempre, inclusive o ambiente que perde sua capacidade de autorrecuperação a cada dia e caminha para o inevitável. Mais do que isso, é uma opção ideológica. E é com isso que estou me debatendo.

Dizer isso não é eu definir quem é esquerda (essa definição já existe), é apontar a contradição e cobrar a responsabilidade que temos. Não ouso apontar nenhuma candidatura para quem se influencia por minhas opiniões e posturas porque não acredito no processo, nessa democracia de apertar botãozinho numa urna duas vezes a cada dois anos e ajo de acordo com a minha consciência.

Minha tarefa nessa eleição enquanto esquerda é denunciar as candidaturas de direita e neoliberais. Critico o que tenho que criticar nas candidaturas de esquerda, mas JAMAIS me verão batendo ou desqualificando uma candidatura de esquerda para favorecer uma de direita. Não me importo se minha posição não influencia no resultado final da eleição, porque política é bem mais que eleição e a luta de classes se dá é no dia a dia.

Desde o ano passado que penso e falo em voltar a me organizar num partido, e esse desejo vem da constatação da luta política estar cada vez mais desigual e injusta para os trabalhadores, que contam com cada vez menos camaradas de fé em sua defesa. Não sei se encontrarei um partido que me contemple, só sei que é preciso organizar a luta para enfrentar o capital — o protagonista e o grande vencedor dessa disputa eleitoral, da qual a única certeza que tenho é já estar na oposição. #BeijoMeUnfola

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O Gilson também escreveu a respeito hoje.


É o caminho que nos define

O caminho por si só não existe. Viver é fazer o caminho, é o nosso andar que o faz e nos define.

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O depoimento de Miriam Leitão — jornalista liberal e considerada de direita por muitos — a Luiz Cláudio Cunha no Observatório da Imprensa detalhando os horrores sofridos por ela durante os três meses em que ficou presa entre 1972 e 1973, revelou bem mais do que a nossa vista ou interpretação de texto e entrelinhas é capaz de alcançar.

Miriam nunca escondeu ter sido torturada, apenas evitava focar na questão pessoal sempre que defendeu nosso direito à memória, à verdade e à justiça. Poucos foram os textos em que assumiu o lugar de vítima da arbitrariedade que já ocupou. Diz ela que não gosta desse lugar, e tem esse direito.

Numa entrevista a Jô Soares que assisti há alguns anos atrás, lembro dela ressaltando que foi presa porque ousou pensar e manifestar seu pensamento, discordante do imposto pela ditadura. Miriam, que hoje é liberal, foi militante do já clandestino PCdoB no início dos anos 70 quando era estudante, usava o codinome “Amélia”, o que poderia até ser piada não fosse o quão trágico é isso tudo.

Atenção nisso. A ditadura militar prendeu, torturou, matou e desapareceu não apenas com esquerdistas ou “terroristas” da luta armada, mas também com liberais, com pessoas que convergiam com o sistema econômico defendido pela ditadura. É esse o caso de Rubens Paiva. Não era preciso ser comunista. Aliás, a “ameaça comunista” sempre foi apenas uma desculpa para instalar o terror, sabemos. Só imbecis acreditam nisso e/ou repetem essa bobagem. Bastava uma pequenina discordância, que no caso dos liberais era óbvia, era a falta de democracia. Eles e nós sabemos que o capitalismo não precisa se impor à força e sob o terror.

A decisão de Miriam Leitão de relatar os detalhes da tortura que sofreu, grávida, comoveu muitos e reforçou a necessidade de passarmos a limpo os fatos tenebrosos desse passado não muito distante, e tornou mais forte nossa necessidade por justiça. Porém fez emergir também a boçalidade feroz que pretende deixar tudo como está. Afinal, quem hoje morre na tortura ou é executado sumariamente pelo aparelho repressivo do Estado não são pseudos roqueiros sem causa ou colunistas reacionários da classe média supostamente politizados. Quem luta hoje por memória, verdade e justiça e, consequentemente, pela democracia, são os mesmos de antes, os sobreviventes ao terror e à cooptação do sistema.

Infelizmente a boçalidade feroz emergida nos últimos dias que debocha, duvida e tripudia do terror sofrido por Miriam, transpassa fronteiras ideológicas e cores partidárias. Os boçais se unem no método, nos meios defendidos. Nessa lama, junto com constantinos, rogers, reinaldos e outros uivantes — que não surpreendem — estão os que usam o passado guerrilheiro de Dilma, Zé Dirceu e Genoino apenas de forma oportunista e eleitoreira, sem o menor respeito, compaixão ou desejo de justiça.

O que nos define é a nossa trajetória, o andar pelo caminho, e não o ponto de chegada. A história já nos mostrou que esquerdistas podem ser tão canalhas, cruéis, desumanos e boçais quanto reacionários de direita. Não há seletividade admissível quando o assunto é direitos humanos. Discordo e muito em zilhões de coisas de Miriam Leitão, mas não uso isso e nem minha ideologia como desculpa para desrespeitá-la ou ser cruel. Não negocio com princípios, e prefiro perder uma batalha do que a dignidade.

“O processo, que envolvia 28 pessoas, a maioria garotos da nossa idade, nos acusava de tentativa de organizar o PCdoB no estado, de aliciamento de estudantes, de panfletagem e pichações. Ao fim, eu e a maioria fomos absolvidos. O Marcelo foi condenado a um ano de cadeia. Nunca pedi indenização, nem Marcelo. Gostaria de ouvir um pedido de desculpas, porque isso me daria confiança de que meus netos não viverão o que eu vivi. É preciso reconhecer o erro para não repeti-lo. As Forças Armadas nunca reconheceram o que fizeram.
(…)
O que eu sei é que mantive a promessa que me fiz, naquela noite em que vi minha sombra projetada na parede, antes do fuzilamento simulado. Eu sabia que era muito nova para morrer. Sei que outros presos viveram coisas piores e nem acho minha história importante. Mas foi o meu inferno. Tive sorte comparado a tantos outros. 
Sobrevivi e meu filho Vladimir nasceu em agosto forte e saudável, sem qualquer sequela. Ele me deu duas netas, Manuela (3 anos) e Isabel (1). Do meu filho caçula, Matheus, ganhei outros dois netos, Mariana (8) e Daniel (4). Eles são o meu maior patrimônio.
Minha vingança foi sobreviver e vencer. Por meus filhos e netos, ainda aguardo um pedido de desculpas das Forças Armadas. Não cultivo nenhum ódio. Não sinto nada disso. Mas, esse gesto me daria segurança no futuro democrático do país.” — trecho final do depoimento de Miriam Leitão a Luiz Cláudio Cunha.

Se por algum instante você achou justo, merecido ou razoável questionar a postura política de Miriam Leitão hoje com relação ao que sofreu (como se fosse obrigatório ao ser torturado numa ditadura ser/permanecer esquerda), cuidado!, estás mais próximo dos torturadores do que dos torturados. Com a desculpa de evitar o “golpe comunista” deram eles o golpe, mas o alicerce da ditadura militar-empresarial era a incapacidade de conviver com o pensamento discordante. É essa incapacidade que nos inciviliza, nos desumaniza e nos transforma em boçais, e não a ideologia. Fica a dica.


Sobre a indiferença e o escárnio

Escrevo e falo sempre que posso sobre o meu estranhamento à “democracia” brasileira. Tanto que só consigo escrever a palavra me referindo ao Brasil assim, entre aspas. E o estranhamento está em perceber o quanto o Estado brasileiro permanece repressivo e tolhedor de direitos. Sei que é apenas para alguns, mas na ditadura militar e em outras antes também o era. Numa conversa com amigxs queridxs das minhas redes sociais (ou plataformas digitais), falávamos dos sinais que evidenciam que estamos cada dia mais distante da democracia porque os direitos e a liberdade de alguns foram suprimidos, e o quanto é difícil falar a respeito disso com quem se sente distante (talvez acima) e diferente desses. Essa conversa me fez lembrar do início de um poema do Brecht, Intertexto:

“Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro.
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário.
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável.
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei.
Agora estão me levando.
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.”

Antes dele, a mesma concepção, a indiferença diante da escalada do autoritarismo, estava no “E Não Sobrou Ninguém” de Vladimir Maiakovski, que originou o poema “No caminho, com Maiakovski” de Eduardo Alves da Costa. Alves da Costa, niteroiense, escreveu seu poema no final da década de 60, no período mais duro e sombrio da ditadura militar e por isso voltou como um ato de resistência na campanha “Diretas Já” em 84, quando um trecho (atribuído à Maiakovski) foi amplamente difundido em camisetas e panfletos:

“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”

Foi o poema de Maiakovski que também originou o sermão do pastor luterano Martin Niemöller na Alemanha nazista:

“Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse”

E depois desses surgiram várias versões e corruptelas.

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Daí que a conversa de ontem sobre a indiferença diante da escalada do autoritarismo, inspirou o amigo Paulo Candido a escrever uma versão atualizada do poema do Maiakovski e do Brecht tudo-junto-misturado, que é razão desse post e vai além da indiferença e trata também do escárnio que nasce de tanta indiferença. Confiram:

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Primeiro eles jogaram o Rafael no presídio e esquecerem ele lá.
Eu não me importei, 
porque que porra um morador de rua estava fazendo com desinfetante, eles não gostam de chafurdar na sujeira??

Depois eles mataram o Amarildo e sumiram com o corpo.
Eu estava pouco ligando, 
porque afinal, se você mora na favela devia saber que não é para mexer com a polícia.

Daí eles puseram o japonês e o cara de saia na cadeia com flagrante falso e provas forjadas.
Eu não estava nem aí,
porque, cara, homem de saia de saia é tudo viado 
e japonês baderneiro nem devia ter, né? Só no Brasil mesmo.

Aí eles prenderam ilegalmente a tal Sininho, um monte de professores, uns moleques adolescentes.
Eu nem quis saber,
Bando de black blocs, tem que arder no inferno.

Então eles acabaram com essa coisa de manifestação, cercaram os vagabundos e desceram porrada.
Eu aplaudi de pé,
Cansei dessa gente atrapalhando o trânsito e quebrando vitrine quando eu quero voltar para casa.

Outro dia disseram que eu não podia mais que votar.
Eu fiquei feliz da vida,
Já aluguei a casa na praia para o feriadão, mas nem sei se ainda é feriado, preciso ver isso aí.

De vez em quando eles pegam um vizinho ou um colega de trabalho e eles não voltam mais.
Eu acho massa, 
menos barulho no prédio e menos concorrência na firma.

Outro dia levaram meu filho mais velho, estava na rua depois das nove.
O idiota tinha sido avisado, e é uma a boca a menos para alimentar, 
vamos poder ir para a Europa no fim do ano.

Minha mulher disse que tem uns caras na porta perguntando por mim.
Troquei de roupa e disse para ela seguir a vida,
Afinal, alguma coisa eu devo ter feito e é tudo pelo bem do Brasil.

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Ainda somos muito ingênuos

Lula é uma raposa, sempre foi. Dentro da política sindical e do PT sabia como ninguém jogar com as palavras e peças no tabuleiro diante dessa ou outra situação para conseguir o que queria. Não à toa chegou onde chegou. Não há julgamento de valor aqui, apenas uma constatação.

Lula em Pernambuco nod 13 de junho dizendo que a vitória nas eleições será a vingança do PT contra a elite brasileira) (foto: Líbia Florentino/LeiaJáImagens)

Lula em Pernambuco no dia 13 de junho dizendo que a vitória nas eleições será a vingança do PT contra a elite brasileira pelos xingamentos à Dilma (foto: Líbia Florentino/LeiaJáImagens)

Diante das vaias e xingamentos do Itaquerão para Dilma na abertura da Copa, ele resolveu tirar o melhor proveito possível da situação e reverter isso eleitoralmente para Dilma. A declaração de Lula culpando a “elite branca” pela “ofensa” e constrangimento sofridos por Dilma na última quinta-feira, não foi um desabafo ou dita sem pensar. Ao contrário. Foi pesada, medida milimetricamente. Ao transformar Dilma em alvo da classe média branca privilegiada, Lula coloca todos que combatem a elite e a burguesia indiretamente, mesmo que provisoriamente, ao lado de Dilma.

É certo que muitos dos que estão indignados com declarações de orgulho de pequenos e médios empresários por sua raça, classe e condição (aka privilégios) não farão campanha ou votarão em Dilma. Mas esses (a “esquerdalha”) não interessam mesmo a Lula. Ao final desse processo eles colocarão no colo da campanha de Dilma várias pessoas perdidas e confusas com essa guinada à direita do PT e que não sabem o que farão nessa eleição, mas que engrossaram muito o caldo das críticas ao governo nos últimos dois anos. Esses sim, os confusos e perdidos, são o alvo de Lula.

Não esqueçam das mais recentes vinhetas do PT na tevê apostando no medo de uma possível (até aqui remota e improvável) volta do PSDB. Estrategicamente falando, o alvo eleito pelo PT nesse período ~ainda~ pré-elitoral é esse espectro de pessoas que foi se desgarrando do PT durante o governo Dilma.

Não sei vocês, mas eu não me deixarei usar para que o PT recupere o apoio que perdeu por se aliar e servir a quem não devia. O ódio de classe destilado pela classe-média-sofre nas redes e agora insuflado por Lula não precisa de mais lenha na fogueira. Até porque, o PT no governo não fez outra coisa a não ser mediar a luta de classes, com “ligeira” vantagem ao lado mais forte e privilegiado.

Analisando tudo com alguma distância é fácil concluir: ainda somos muito ingênuos politicamente e facilmente manipuláveis.


Menos patrulha, mais zueira!

Estou há dias para escrever sobre algo que me incomoda profundamente: patrulha. Patrulha de qualquer coisa me irrita, da vida alheia, da sexualidade alheia, patrulha ideológica, do que o alheio está comendo, vestindo, fazendo… Pior do que tentar controlar a vida das pessoas no particular é fazer isso em público. E as redes sociais (ou plataformas, como queiram) estão aí não para mostrar o que não somos, o nosso melhor ou pior, mas para potencializar o que somos — como diz o ativista Marcelo Branco.

Sou partidária do #NãoVaiTerCopa. Nunca achei que houve a mais remota possibilidade da Copa não acontecer. Não era essa a questão. O que queríamos, pelo menos eu, é que ela não tivesse causado tantos estragos, que o processo todo tivesse sido transparente, que não vivêssemos agora uma ditadura da Fifa em território nacional. Se alguém não entendeu o que significa o #NãoVaiTerCopa é ou porque não quis ou por má fé, de seguir explorando a distorção da proposta. Explicação e exemplos não faltam.

grafite de Paulo Ito, do Movimento de Decoração Anti-Copa

grafite de Paulo Ito, do Movimento de Decoração Anti-Copa

Disse a Camila Pavanelli, hoje em Eu gostaria que tivesse havido Copa:

“Acima de tudo, #NãoVaiTerCopa é a revolta com as violações de direitos humanos que aconteceram para que obras da Copa fossem realizadas (sobre as quais há farta documentação).
#NãoVaiTerCopa não é “torcer para que tudo dê errado” – é reconhecer que aquilo que mais importa *já deu* absurdamente errado. Que obras foram superfaturadas. Que pessoas foram ilegalmente removidas de suas casas. Que a FIFA deitou e rolou.
Não vai ter Copa – embora eu gostaria que tivesse havido.
Não vai ter Copa – mas Exército na rua certamente não vai faltar.”

E a má fé se estende ao ponto de patrulhar a torcida ou não pelo Brasil dos ativistas do #NãoVaiTerCopa. Tem gente achando e dizendo que não podemos gritar e comemorar os gols da Seleção Brasileira durante a Copa. A não ser que algum jogador brasileiro se manifeste em campo homenageando os operários mortos na construção dos estádios ou contra a repressão aos protestos nas ruas (que já começou) ou ainda contra a corrupção da Fifa, ninguém me verá comemorando os gols do Brasil (isso não vale para os gols da Argentina, por motivos de querer ver o constrangimento do prefeito do Rio, Eduardo Paes, porque duvido que ele cumpra a promessa…). Mas comentarei a Copa, é certo.

Não vou comemorar os gols do Brasil, mas poderia, se quisesse. Não dou a ninguém o direito de me dizer o que posso ou não fazer. Estou pelas tampas com os “estamos de olho”. APENAS, PAREM! E não defendo/reivindico essa liberdade só para mim. Vale para qualquer um. Nem fechamos ainda as feridas da ditadura e já tem gente achando razoável patrulhar a vida alheia por questões ideológicas… Eu sei que a mais recente ditadura brasileira não está no currículo escolar como deveria, no caso dos mais jovens, mas vejo gente que viveu a repressão achando correto impingir sua vontade, o que acha correto para si, aos outros. Não, né?

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Digo apenas para quem ainda acha o #NãoVaiTerCopa ridículo e que o seu uso auto-justifica a patrulha, que esse movimento pautou a Fifa, pautou a imprensa (de fio a pavio) e pautou até o Governo Federal. Na noite de ontem, a presidenta Dilma Rousseff gastou dez minutos de tempo e de dinheiro público num pronunciamento em rede nacional para dizer o óbvio, que vai ter Copa. Por favor, né? Até quem protesta sabe que vai ter Copa, sempre soube que teria. Mas, se precisam reafirmar isso ao mundo a todo momento é porque #NãoVaiTerCopa, é porque #NãoTeveCopa, e esse movimento foi muito, mas muito além do que pretendia, que era simplesmente protestar, fazer valer nossa voz e mostrar ao mundo o nosso descontentamento.

Leia também O ópio dos intelectuais #CopaPraQuem #NaoVaiTerCopa

PARABÉNS a todos os envolvidos no #NãoVaiTerCopa. Pautamos o país, e ainda não terminamos de dar o nosso recado. No mais, deixem cada um torcer, secar, torcer contra, como bem quiser. Deu de “ame-o ou deixe-o”. Esse governo já tem semelhanças demais com a ditadura militar para um representante da democracia, eleito pelo voto direto. Já avisei e reforço aqui: continuarei usando o #NaoVaiTerCopa durante a Copa e até depois dela. Reclamem pro Papa se não gostarem.

Uma Copa que tem como logo um “facepalm”, de mascote um tatu e ainda teve a promessa de trem-bala entre Rio e São Paulo, já começou não tendo. Toda a zueira a partir daí está valendo. E vai vendo que nem bem começou e já rolou a “sucupirização” da Copa.

Portanto, senhoras e senhores… Menos patrulha, porque a Copa da zueira já começou!

a Copa da zueira já começou!

E só para deixar bem claro… #NãoVaiTerCopa!!! :P


Dia de festa! 18 anos do Calvin… ♥

[4h54] Meu #dinofilhote completando 18 anos. DEZOITO ANOS. Hoje. Agora. Difícil acreditar que tanto tempo passou… Ele ainda é uma criança.

Calvin sensualizando no sofá, ao acordar

Calvin sensualizando no sofá, ao acordar

Acorda. Vem correndo ver se estamos no quarto. Se ainda está com sono, volta pra cama. Se acordou mesmo, ou senta em frente ao meu computador e espera que ligue e coloque música pra ele ou vai sentar na sala em frente à tevê — que não desliga nunca, ou ele levanta apenas para ligá-la no meio da madrugada. Bebe água. Vai no banheiro. Volta pra sala. Espera o café. Bebe, come. E fica o resto do dia entre a sala e o quarto. Entre a tevê da sala e a janela e a tevê do quarto e o computador. Tudo ligado ao mesmo tempo. Vai trocentas vezes ao banheiro. Aprendeu a se limpar sozinho, mas se veste de qualquer jeito. Faz de qualquer bermuda uma grande fralda, pelo jeito como se veste embolando tudo. Aprendeu a dar descarga no banheiro, mas dá antes do que tem pra fazer. Ri de si mesmo, da tevê, dos ataques de raiva do Gilson (disso até eu rio), dos latidos da Lalá, comemora quando os vizinhos chegam no prédio, festeja quando toca a campainha.

tem que ficar assim, retinho, encostados na parede... ele confere sempre que sai do banho

tem que ficar assim, retinho

Não, ele não é um autista comum. Gosta de pequenas mudanças na rotina. Algumas. Para outras reaje como se tivesse TOC. Os objetos sobre o balcão da pia do banheiro precisam ficar alinhados, o telefone precisa ficar na base. Conta o tempo mentalmente. Mesmo que não esteja com fome fica me perturbando se passa das 21h e não vou pra cozinha fazer o #dinojantar. Essa rotina só é quebrada quando não estou. O Gilson leva, e o leva, de outro jeito. Adora banho, desde que seja quente e no chuveirinho. Não que se lave direito, porque só se molha e fica o tempo todo jogando água no peito. E a rotina do banho é… primeiro escova os dentes — eu escovo os dentes dele. Lavo o cabelo. Ensaboo, ele deixa esfregar bem, vira de costas e fecha os olhos para enxaguar. Vira de novo, termino de enxaguar. Passo o condicionador, e deixo pra enxaguar depois. Pego o sabonete e ele espera os comandos. Levanta o braço, primeiro o esquerdo, ensaboar, enxaguar. Depois o direito. Lava o combo pinto-saco. Comando “vira”, lava as costas, a bunda. “Vira”, lava as pernas. “Levanta o pé”, primeiro o esquerdo. “O outro”, o direito. Termino de enxaguar o cabelo e o corpo. Lavo o rosto. foto (11)Pego a toalha. Ele sabe que este é o comando pra fechar o chuveiro. “Vem”, ele sai do box. Eu o seco, quase na mesma ordem do banho. Primeiro o rosto, o excesso de água do cabelo, a mão esquerda, o braço. Passo pra mão direita, o braço. Seco até o barrigão, o combo pinto-saco. “Vira”. Tiro o excesso de água da parte de trás do cabelo, seco o pescoço, as costas, a bunda. “Vira”. Me abaixo para secar as pernas. Primeiro a esquerda, depois a direita, até o pé. Volto e termino de secar o cabelo. Penteio o cabelo. Passo desodorante. “Vem” e ele dá dois passos até o quarto dele, onde já deixei a roupa limpa separada para vesti-lo. Visto-o. Primeiro a cueca, depois a camiseta. Se não estiver calorão, a bermuda e mais a sandália. “Vai”. Ufa! Vou arrumar a bagunça.

o banho é sempre feliz, ainda mais quando o Gilson está do outro lado da cortina fazendo palhaçada...

o banho é sempre feliz, ainda mais quando o Gilson está do outro lado da cortina fazendo palhaçada…

É assim também antes de dormir. Mas aí, ele já está sonolento por causa da medicação, e quando termina de vestir o pijama, o comando é “Pra cama”. Ele deita. Dou um boneco amarelo, sem braço já que ele gosta de andar pra cima e pra baixo. O cubro. Um beijinho na boca. Repito “eu te amo”. Um beijinho de esquimó. Outro beijinho na boca. “Dorme”. Desligo as luzes extras, fica só a do corredor. Às vezes ele levanta meio zumbi para desligar essa também. Deixo como ele quer. Finalmente descanso.

Nem sei há quanto tempo é essa a minha rotina. Teve um tempo que ele não dormia, e eu também não. Mas, agora além de estar mais leve, divido-a com o Gilson. E, confesso, estou curtindo ver a relação que eles estão construindo. Eles se gostam, mesmo. Não poderia ser diferente. É tão desgastante que só com muito afeto para suportar. É desse afeto que brota as doses extras de paciência que se fazem necessárias.

Calvin, Gilson e Lalá, fazendo bagunça no sofá...

Calvin, Gilson e Lalá, fazendo bagunça no sofá…

Quanto tempo mais nessa rotina? Não sei. Aprendi a viver um dia de cada vez e não pensar muito no futuro. Já foi tão pior… Já estivemos um sem o outro por um longo tempo. E doeu tanto que nem é bom lembrar. Ou é, para saber o que festejamos hoje. Somos uma família bem torta e de horário malucos, é fato, mas que se estruturou do jeito certo, sobre afeto. E sobra afeto.

Acho que o Calvin é bem feliz nessa nossa bagunça. E hoje é dia de cantar parabéns!

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