A blindagem teflon de Yeda

Quem acompanha de fora do Rio Grande do Sul os escândalos que envolvem o governo Yeda Crusius (PSDB), talvez não perceba o grau, o nível, de proteção com que a governadora conta por parte da imprensa local. Durante o escândalo do mensalão o termo blindagem ficou conhecido pelas denúncias da grande imprensa sobre a proteção ao presidente Lula feita pelo PT e aliados. Pois bem, em solo gaúcho inaugurou-se a blindagem teflon feita não pelos aliados de Yeda, mas pela própria imprensa. Nada gruda na imagem de administradora eficiente, austera e competente da tucana Yeda Crusius. Nem poeira.

Governadora Yeda Crusius

Primeiro foram as denúncias do vice-governador, Paulo Feijó (DEM) logo nos primeiros meses. As diferenças entre Yeda e Feijó começaram logo após a eleição (talvez até durante o processo eleitoral) e ele se afastou do governo logo após a posse. Feijó foi classificado como um ressentido, Yeda o acusou pela imprensa de “querer implodir o governo”, e não mais lhe deram crédito. Ignorando rótulos, ele continuou denunciando e apresentando suas provas.

Paralelo às denúncias do vice, outros escândalos de corrupção – que pareciam menores -, foram pipocando na imprensa e se somaram ao grave caso de fraude no Detran. Entre esses “menores” estão os incentivos fiscais em projetos culturais, Banrisul, a compra da casa da governadora, caixa dois, entre outras. O caixa dois, denunciado pelo tucano Lair Ferst, lobista e arrecadador da campanha e também pivô da fraude no Detran, envolve diretamente o nome de Carlos Crusius, na época ainda marido de Yeda. As denúncias de Ferst corroboravam as já feitas por Feijó, e parecia bastar apenas a junção das peças do quebra-cabeças. Mas não com Yeda e sua blindagem especial!

As ligações das denúncias com pessoas próximas à governadora foram ficando cada vez mais claras e evidentes, e ganharam corpo com a gravação de uma conversa entre Paulo Feijó e o então chefe da Casa Civil, Cézar Busatto. Na gravação, Busatto faz uma oferta implícita de suborno ao vice-governador para que ele pare com as denúncias contra o governo e ainda explica didaticamente que o Banrisul é fonte de financiamento das campanhas do PMDB e o Detran e Daer do PP (partidos da base aliada de Yeda). A gravação foi feita pelo próprio Feijó e Busatto teve de deixar seu cargo para que o caso não atingisse a imagem da governadora. E não é que deu tempo!?

Mesmo com tantas denúncias, investigações em curso, gravações clandestinas para todo lado, no final de 2008, Yeda anunciou o “déficit zero” das contas do estado. Fato amplamente alardeado pela imprensa, reforçando sua imagem de “excelente administradora” e dando uma “lustradinha” em sua imagem.

Como se já não bastasse, teve ainda o suicídio com cara de assassinato (queima de arquivo, para ser mais exata) de Marcelo Cavalcante – “embaixador gaúcho em Brasília”, segundo palavras da governadora. Cavalcante foi encontrado morto no Lago Paranoá em fevereiro deste ano, e o caso permanece não explicado.

Além de Paulo Feijó, fizeram denúncias graves contra Yeda: Luciana Genro e Pedro Ruas (ambos do PSOL), a viúva de Marcelo Cavalcante, a Polícia Federal e o Ministério Público. Sendo que a denúncia oferecida pelo MP à justiça contra Yeda – aquela citada por Luciana Genro que quase rendeu-lhe um processo de cassação orquestrado pelo PSDB na Câmara Federal – foi o resultado final das investigações da fraude no Detran, que envolvem também a denúncia de caixa dois. O montante desviado dos cofres gaúchos, do que foi apurado até agora nesse caso, ultrapassam os 40 milhões de reais.

Yeda conseguiu retirar seu nome do processo via Justiça Federal, e ainda ameaçou denunciar os procuradores federais por perseguição junto a seus superiores, e também conseguiu arquivar o pedido de impeachment feito pelo PSOL na Assembleia Legislativa do RS. Não conseguiu evitar a CPI da corrupção – que continua na AL –, mas sem maioria, a oposição tem dificuldades até de ouvir depoimentos e realizar seções ordinárias. Apenas para registro, alguns dos depoimentos na CPI confirmam o teor de denúncias feitas. Indício de prova? Não para a valorosa e destemida imprensa gaúcha!

Após o arquivamento do impeachment, Yeda concedeu uma coletiva no Palácio Piratini onde reclamou da perseguição sofrida pelo ressentido Feijó e disse ter cometido um erro ao comprar a casa onde mora no início do mandato. O mea culpa da governadora colou e a CPI também caiu no descrédito – coisa da oposição, claro!

Independente do respeito e proteção gozados por Yeda junto à imprensa, o resultado de tantos escândalos na popularidade da governadora tucana é devastador. Entre os governadores brasileiros, Yeda tem a pior avaliação. Em pesquisa encomendada pelo Grupo RBS no início de outubro, 74% dos gaúchos desaprovam o governo Yeda, e 62% apoiam seu impeachment.

Ainda assim, é o CPERS (sindicato dos professores estaduais) o grande vilão da atual cena gaúcha, porque vai para a rua protestar ao invés de dar aula, porque mantém tão honrada líder encarcerada em sua casa e no Palácio em dias de protesto e porque ainda – pior de tudo – ofende Yeda em sua dignidade pessoal. Isso é imperdoável!

A deputada Luciano Genro – opositora ferrenha da governadora – sentenciou em seu site, 6/11, que tanto o PSDB nacional quanto José Serra evitariam ter Yeda em seu palanque no RS, e o mais indicado para a governadora – articulado, segundo Luciana, pela direção tucana – seria renunciar e se candidatar a deputada federal para garantir a imunidade parlamentar diante dos processos já existentes e os que ainda virão. Se isso foi realmente cogitado pela direção do PSDB, não sei. Mas Luciana Genro enganou-se. Serra, acreditando na incrível resistência e eficácia da blindagem teflon de Yeda, acaba de lançá-la como sua companheira de chapa na pré-candidatura à presidente.

De minha parte, estou imensamente agradecida a Serra. Aliás, o governador paulista – já que considera Yeda tão competente – poderia nos fazer o favor de levá-la de volta para São Paulo.

O tempo de Yeda no Piratini (e quiçá de sua carreira política) está, felizmente, no fim e a imprensa gaúcha deixa um exemplo singular de anti-jornalismo, divulgando todas as denúncias e fazendo a mágica de, ao mesmo tempo, manter a governadora protegida dela mesma.

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“Povo que não tem virtude, acaba por ser escravo” – verso do Hino Riograndense, mais conhecido que o Hino Nacional cá por essas bandas.

Em tempo: Preciso avisar que usei (e abusei) de ironia no artigo?

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Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo. Ver todos os artigos de Niara de Oliveira

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