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O vazio

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Eu + Calvin – meu dinofilhote

Ontem à tarde experimentei por meia hora um sentimento desconhecido. Não o pior e nem o maior, mas o mais perverso. O vazio. Ele não dói, mas desespera, desatina.

Vou tentar explicar melhor. Por apenas meia hora – verdadeira eternidade – nessa segunda-feira meu filho ficou desaparecido. Ele aprendeu a pular a grade da frente da nossa casa e ganhou o mundo, saiu correndo à esmo, tão rápido que esqueceu de deixar rastro. Ninguém o viu passar em direção alguma.

Eu, que sou muita prática em situações de pânico, fiz tudo que é indicado. Após as primeiras buscas nos lugares mais próximos e prováveis, voltei em casa, conferi novamente se ele não tinha se escondido em algum lugar dentro de casa e liguei para a Brigada Militar pedindo ajuda, deixei sua descrição completa e meu telefone. Em seguida voltei à rua para prosseguir nas buscas. Os guris que estão sempre brincando aqui pela volta, se dispuseram a ajudar. Em poucos minutos tinham juntado todas as parcerias do futebol, da escola e se dividiram entre as quadras próximas e iam dizendo os lugares conferidos. Verdadeiros especialistas em buscas.

Quando as forças começaram a me faltar e bateu mesmo o desespero, voltei em casa para começar a ligar para amigos pedindo ajuda. Sozinha não iria suportar aquela angústia que dobrava a cada segundo, num crescente avassalador. Quando botei a mão no telefone, ele tocou. Era o mecânico Tito – hoje alguém adorável para mim -, de uma oficina que fica uns 800 m daqui me dizendo que meu filho estava bem, sentado dentro do carro de um cliente e que não havia quem o tirasse de lá. Sorte esse carro estar aberto e o caminho livre para ele entrar. Saí imediatamente para buscá-lo. Enquanto não o visse, não o tocasse, não descansaria.

Desde que o reencontrei e meu mundo preencheu de novo, venho, aos poucos, tentando compreender esse vazio que senti. Pude, por um instante, entender o que sentem as mães dos desaparecidos. Todos. Dos políticos aos que somem no vento, como fumaça, levados, perdidos, roubados, extraviados.

Onde havia vida não há mais. Onde havia motivo de alegria e preocupação, só um maldito nada. Queria poder esquecer esse dia, exorcizá-lo da minha memória, e esquecer junto essa sensação demolidora de todos os alicerces humanos. Sabem aquele papo meio bicho-grilo sobre o que é o tudo? Que tem como resposta que o tudo é nada e o nada é tudo. Mentira. O nada é pior que tudo, literalmente.