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Tempo de turbulência

Passei por um período de verdadeira convulsão emocional. Além do excesso de trabalho e de estar me dedicando mais ao outro blog, o Pipoca Comentada, parecia estar bloqueada. Aqui escrevo o que penso e manifesto meu pensar do jeito que o sinto. Alguns textos são todo coração e foi justamente aí que ocorreram muitas turbulências. Entre afetos rejeitados, sonhos ameaçados e esperança na UTI era impossível escrever. Nem sabia o que estava sentindo para poder falar a respeito.

“…
Enquanto sofre o coração intui,
Que ao mesmo tempo que machuca o tempo,
O tempo flui

Quem sabe o que se dá em mim,
Quem sabe o que será de nós…
O tempo que antecipa o fim,
Também desata os nós
…”
(Fred Martins / Alexandre Lemos)

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Tempo de fechar portas e me recolher

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Nos últimos dias (até ontem) essa música da Ana Carolina foi perfeita para traduzir fatos e sentimentos. Explica também o meu silêncio e ausência desse espaço nesse período.

“…
E fui fechando o tempo, sem chover
Fui fechando os meus olhos, pra esquecer
Quem é você?
…”
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(Ana Carolina)

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Sobre um gigante, o meu afeto e os nossos sonhos

Tenho pensado demais sobre ações versus reações, exercício da palavra versus silêncio, agressão versus carinho e todas essas antíteses que às vezes se apresentam de forma sutil nas relações humanas. Quem fala demais se culpa por não conseguir cultivar o silêncio, quem agride (mesmo sem querer) se culpa por não ter controlado o instinto e quem age se culpa por não ter esperado um pouco mais e pela reação imediata à sua ação.

Óbvio que eu falo demais, agrido e me precepito em ações. Meu único atenuante é prevenir todo mundo que me cerca ou quer cercar sobre os meus defeitos – que sempre considerei mais graves e mais sobressalentes que minhas qualidades. Claro, há controvérsias. Mas o fato é que sou mais gostável à distância. Meu humor oscilante garante pelo menos uma crise de TPM diária.

Trabalhar comigo não é complicado porque longe de casa controlo meu humor fácil. É só acrescentar uma pitada generosa de deboche, algo bem simples para quem vê tudo e todos pelo seu avesso e ridículo. Mas morar comigo é osso. Se envolver afetivamente/sexualmente comigo é ainda pior. A minha opção pela solteirice nunca foi uma via de mão única, “vamo combiná”!

Me apaixonei algumas vezes e despertei muitas paixões (algumas até doentias, no sentido de não saudáveis) e afeto em muitos homens (sinto decepcionar, mas nunca senti atração por mulher – até gostaria, mas esse é um campo onde as escolhas não são bem “escolhas”), mas para nenhum o custo-benefício do meu humor-amor fechou a conta no azul. Sou a única pessoa que me suporta, já que não há outra opção e a humanidade ainda não descobriu/explorou toda a minha genialidade. Não posso privar o mundo de tamanha inteligência e criatividade, né? (Nota mental: Tá, senta lá, bobagenta!)

Falando sério, sempre convivi legal com a solidão e ninguém nunca me viu desesperada por companhia. Foi-se o tempo (há muito) em que me envolvia superficialmente. Fui ficando seletiva, chata e exigente demais. Flertava muito, paquerava muito, tinha meus casos e estava bom assim. Mas aí veio a última crise de depressão que me apartou um pouco do mundo. Venho voltando ao convívio das gentes aos poucos, passo a passo, nos últimos 15 meses.

Quando já não esperava mais, eis que surge alguém que me arrebatou todos os sentidos de uma só vez. Isso, claro, depois de me seduzir pela inteligência, pelo desafio à minha inteligência. Um homem imenso, um gigante do alto de seus 1,75m, desprovido de preconceitos e machismos, um ativista da vida, do dia a dia, e não apenas na eleição ou na adolescência que vai ficando no passado. Finalmente alguém de quem sinto orgulho, que admiro profundamente “para amar e apertar por tooooda a vida” – recitando a Felícia. O melhor de tudo? Fui plenamente correspondida.

Mas quem disse que a vida é fácil para mim? Acharam que eu estava vivendo um conto de fadas vermelho e transando ao som da Internacional Comunista? Nada. Foi só para sentir o gostinho e já caí na minha realidade perversa de novo. Só que agora, desperta, o mundo perdeu as cores – não apenas os tons avermelhados, mas todas as cores.

O que é feito do ativista gigante e corajoso que não temeu as trevas da minha alma e nem os musgos do Parque Jurassí (apelido gentil da minha “residença”)? Temo ter sido vencido pelo meu mau humor. Só tenho a meu favor a minha honestidade. Jamais enganei ninguém tentando passar por boazinha, meiga, gentil… Resta dizer aquela frasezinha chata: Avisei, não avisei?

Saiba moço gigante, clorofilado e todo trabalhado nas vinte e quatro marchas, que meu afeto é o mesmo, do teu tamanho, e que continuo alimentando nossos sonhos.

Loca por ti, America!

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Céu fechando…

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Eis que eu era o próprio girassol seguindo o meu sol e me sentindo aquecida e iluminada por sua luz e calor, florescendo em plena primavera. Mas o calendário avançou e sabem como é o verão no Rio Grande do Sul, né? E ainda tem mais os efeitos do “La Niña”… Fato é que acabei murchando, esmorecendo, e meu céu está fechando. Continuo cada dia mais louca pela América e permaneço em contagem regressiva, mas bem menos empolgada e alegre. C’est La Vie. (Talvez chova…) .


Vida de ativista ou sobre como a violência de gênero me atinge

Meu momento MiMiMi ao final dos 5 dias de ativismo online pelo #FimDaViolenciaContraMulher
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Vida de ativista parece fácil, né? Afinal, como dizia a minha avó Carolina, quem corre por gosto não cansa. Na teoria. Na prática, cansa e muito.
Sou meio revoltada assim desde sempre. No jardim de infância da escola paroquial onde estudei até a 4ª série, já protestava contra a exclusão de duas colegas negras e mais pobres que os demais do grupo da merenda. Naquela época a escola não era obrigada a oferecer merenda e cada um levava a sua. Essas duas nunca levavam. E eu, para tentar incluí-las, levava merenda para três e dividia. Protestei também contra a obrigatoriedade de cantar o hino nacional em fila nas segundas-feiras e ainda beijei um coleguinha no rosto em pleno recreio. Isso em 1977, aos cinco anos de idade. Não é à toa que sempre me senti um E.T. neste mundo, meio fora de esquadro e compasso. Fato é que nunca consegui assistir calada uma injustiça e sempre fiz o que me “deu na telha”.
Me assumo comunista desde os 15 anos e feminista desde os 20. Desde que minha consciência de gênero aflorou – ou foi forjada na opressão e discriminação da militância no PT e no movimento estudantil – o mundo ganhou algumas cores e perdeu outras. Na utopia de sonhar com o impossível fui tentando fazer o possível para suportar o dia a dia. Mais ou menos como diz o Belchior naquela canção, “a minha alucinação é suportar o dia a dia e meu delírio é a experiência com coisas reais”.
Para quem não sabe, o meu filhote dinossauro (forma carinhosa como sempre me refiro a ele no tuíter) é um quase autista de 14 anos, portador da Síndrome de Lennox-Gastaut. Ele não articula a fala e é praticamente um bebezão no corpo de um adolescente. Eu o crio sozinha, com a ajuda da minha família – ajuda que muitas vezes me sai cara demais – e confesso estar muito cansada. Desde a gravidez já foram três crises de depressão profunda, cada uma mais longa que a anterior. Nunca alimentei sonhos com a maternidade e até eu me surpreendo comigo enquanto “mãe”. Minha jornada é tripla, às vezes quádrupla. Durmo em média quatro horas por dia, trabalho fora, cuido do Calvin e da casa e ainda tento arrumar tempo para blogar, tuitar – minha diversão e ativismo no momento. Não sobra tempo pra mim.
Hoje, enquanto participava da entrevista na Radiocom com a Cíntia Barenho – companheira muito querida nesta jornada dos 5 dias de ativismo online pelo fim da violência contra a mulher, que tive o prazer de conhecer pessoalmente –, e falávamos das diversas formas de violência de gênero, me dei conta que enquanto falava lutava contra o meu cansaço físico e dores pelo corpo para estar ali. Não eram nem 10h. Me senti violentada. Esse mundo capitalista e machista me violenta todos os dias na falta de estrutura e de condições básicas para a minha existência. Me sinto tão pouco cidadã que exercer meu ativismo soa quase ridículo. Fico apontando a falta de estrutura do Estado para combater e prevenir a violência contra as mulheres e ainda não consegui apontar a falta de estrutura do Estado com a chamada educação especial (eu definiria como educação diferenciada) porque me parece que legislar em causa própria é muito imediatista e egoísta. Mas o fato é que este Estado e este governo não garantem ao meu filho nem educação e nem saúde públicas de qualidade e com isso me violenta duplamente.
Cheguei em casa exausta hoje. Duas entrevistas, muito trabalho chato e o Calvin carente da minha presença com crises de ciúme do computador, sem me deixar continuar meu ativismo online pelo fim da violência contra as outras mulheres.
Ai, ai, Complexo de Cinderela batendo na porta mais uma vez… Vida de ativista é assim mesmo. Não é?

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Sobre o show do Zé Ramalho em Pelotas e da minha revolta com a burguesia dessa cidade

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“O povo foge da ignorância, apesar de viver tão perto dela…”
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Hoje (14/11/2010) tive o prazer de assistir pela primeira vez um show do Zé Ramalho. Caro demais pra mim. Se tivesse que pagar não iria. Felizmente meu “frila” atual me permite algumas benesses como entrar de graça em alguns shows. “Vamo combiná” que não é de graça para ninguém e eu preferiria ganhar o suficiente para bancar o ingresso dos shows que quisesse ir. Mas… C’est La Vie!

Voltando ao show, Zé Ramalho é um artista raro. Ele curte fazer o show e expressa isso de um jeito que em alguns momentos parece estar curtindo mais que o público. Os músicos que o acompanham, da Banda Z, parecem tocar juntos há meio século e respondem a ele num simples suspiro. O show é redondo, perfeito, e apesar de alguns arranjos em músicas mais antigas serem novos, tu reconheces cada grande sucesso desde o primeiro acorde. E o Zé Ramalho canta uma barbaridade – como dizem aqui nos pampas. Afinado, vozeirão, empolgado, não erra as letras e nem tem o chamado apoio por escrito à mão (Vanusa deve morrer de inveja). Em nenhum momento, nenhum mesmo, ele demonstra estar cansado de cantar os mesmos versos ou tocar os mesmos acordes há 20, 30 anos. Conselho meu: Tendo a oportunidade, não deixe de assisti-lo.

A apresentação foi a parte boa do show.

Sempre que vou a alguma atividade cultural em Pelotas, destoo em tudo. Não uso maquiagem, não me arrumo como se estivesse indo a um casamento e nem uso o saguão do teatro como um picadeiro de circo antes da apresentação em questão. Já aprendi a relevar algumas coisas, mas sempre vou me sentir um peixe fora d’água em meio àquelas pessoas. Acho até bom que seja assim…

Quem conhece o repertório do Zé Ramalho sabe que ele tem músicas com críticas sociais profundas, mesmo que em meio as suas viagens existenciais, transcendentais, espirituais, astrais… A principal delas é seu maior sucesso,”Admirável Gado Novo” — que assim como o disco da roqueira baiana Pitty (Admirável Chip Novo) — tem inspiração na obra ficcional Admirável Mundo Novo, do britânico Aldous Huxley publicado em 1932, que cria uma hipótese interessante de futuro que por si só já é crítica. A música do Zé tem versos que poderiam ser um soco no fígado dos apáticos trabalhadores explorados desse país, que se comportam – na verdade são tratados assim – como gado e são felizes – “povo marcado, ê, povo feliz!

Assistir hoje a burguesia dessa cidade, que é de causar engulhos em qualquer classe média de cidade grande – quem conhece Pelotas sabe do que estou falando -, cantando de pulmão aberto Admirável Gado Novo como se estivesse debochando do povo-gado ou ignorando o que estava cantando (afinal eles podem), me causou uma revolta como há muito tempo não sentia. Assim, o verso que mais deu sentido a essa estranha noite foi “o povo foge da ignorância, apesar de viver tão perto dela“.

Será que o Zé Ramalho de hoje já foi pausteurizado nessa cultura de massa e não se apercebe mais desses detalhes? Ele, viajandão, adorou a energia do público pelotense. Eu, comunista e pelotense, senti vontade de vomitar em meio à tamanha contradição.

Noite confusa, de sensações conflitantes. Hoje sou mais fã do que jamais fui de Zé Ramalho e sou mais crítica e revoltada do que sempre fui com a burguesia, principalmente com a burguesia de Pelotas.


Vou viajar contigo essa noite…

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“Vou viajar contigo essa noite
(…)
Quero sentir o vento das esquinas
Circulando a calma do meu íntimo
Entre a poeira das palavras
Subir na tua voz em espiral
(…)
Eu, astronauta lírico em terra
Indo a teu lado, leve, pensativo”
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(Vitor Ramil)
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Obrigada, camaradas!

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Dilma Rousseff, na lente de Carlos Latuff

Finalmente acabou a pior eleição que já acompanhei. E olha que vivi intensamente a de 1989, a campeã em baixaria até então.
O mais marcante da rede de boatos e mentiras dessa eleição foi a existência das mídias sociais e o seu uso como arma para a divulgação dos absurdos inventados para espalhar o pânico e o terror. Até as empresas de telefonia foram envolvidas, principalmente celular (e é preciso investigar como se deu esse envolvimento pela Polícia Federal), com trotes ameaçadores do tipo: “Se você votar na Dilma, terá sua linha telefônica cancelada” ou “sua casa será invadida” e o tom terrorista ao final “sabemos como te encontrar”. Igual aos trotes de falso sequestro emitidos dos presídios tentando extorquir dinheiro das vítimas.
Chamo a atenção para os spams (algo que surgiu junto com a internet), e aos quais in-com-pe-ten-te-men-te a campanha de Dilma se deu ao trabalho de responder no caso do aborto e que fez com que a candidata, agora presidenta eleita, assumisse publicamente o compromisso de não tomar a iniciativa de alterar a legislação sobre aborto durante o seu mandato. E danem-se as mulheres que seguirão morrendo vítimas de abortos mal feitos e clandestinos país afora. Espero sinceramente que a bancada feminista do Congresso tome essa iniciativa. Afinal, Dilma (pelo menos isso) não se comprometeu em vetar uma lei que regulamente o tema vinda do Legislativo.
Mas nem mesmo toda a baixaria impressa pelo PSDB e pela direita raivosa desse país e reverberada pela grande imprensa nessa eleição conseguiu transformar Dilma numa candidata de esquerda. Nem o PT é mais um partido de esquerda. Nada em seu programa de governo ou em suas propostas pode ser classificado como sendo bandeiras esquerdistas. Alguém pode retrucar lembrando do compromisso principal assumido por Dilma – em seu primeiro pronunciamento como presidenta eleita -, a erradicação da pobreza. Não se iludam. É impossível erradicar a pobreza no capitalismo. Tudo o que o governo Lula fez nesse sentido comparado aos lucros dos banqueiros e empresários não passou de migalhas. Distribuir renda é outra coisa. Avançamos, sim. O Brasil de hoje – tal como previ em 2002 – é infinitamente melhor que o Brasil de FHC e do PSDB. Jamais cometeria o erro histórico de comparar Dilma à Serra, mas seus partidos disputam as bandeiras da social democracia. Um com respeito aos movimentos sociais e o outro se utilizando do aparelho repressor do Estado para inibir oposição e com total apoio da grande imprensa. Mas nós, cidadãos, estamos muito longe (muito mesmo) de sermos todos iguais – diante da lei ou de quem quer que seja – como garante apenas na teoria a nossa constituição.
Quero salientar que o fato mais significativo dessa eleição, que é termos a primeira mulher na presidência do Brasil em 510 anos, foi habilmente anulado pelos setores mais retrógrados e reacionários do país durante a campanha. Da mesma forma como hoje, na prática, pouco representa (a não ser simbolicamente) para os negros dos EUA e do mundo ter Barack Obama ocupando o cargo mais importante do planeta. E eu lamento isso profundamente. Queria mesmo estar comemorando o feito de termos elegido uma mulher, mas ainda é cedo para saber se Dilma se comportará diferente de um homem em seu lugar.
Por fim, quero agradecer aos companheiros de luta, de esquerda, que abraçaram essa campanha como se Dilma representasse mesmo a derrota da direita e da grande imprensa. Vocês estarão lado a lado comigo nas críticas às políticas governamentais adotadas nos próximos quatro anos, porque o PT não compra nenhuma grande briga e o PMDB ganhou no futuro governo Dilma muito mais espaço. Aliás, desde o governo Sarney – e eles nunca mais saíram do poder (Collor/Itamar, FHC, Lula) -, esse será o governo em que terão mais espaço. Mas é evidente que reconheço que será muito melhor criticar e levantar bandeiras no governo de Dilma Rousseff. Desejo que sua eleição como presidenta siga refletindo e influenciando outros países da América Latina.
A política de Estado continua a mesma e nos encontraremos nas lutas pelos avanços na legislação sobre aborto e pelo fim da violência contra a mulher, pela reforma agrária, pela abertura dos arquivos da ditadura militar e pela punição aos torturadores, pelo fim do desmatamento na Amazônia, por um amplo programa de educação popular, por saúde pública, … A luta de verdade, da vida real, nunca acaba enquanto houver opressão e oprimidos.
Obrigada, camaradas! Eu pude ser fiel e leal à minha consciência e votar nulo no primeiro e segundo turnos dessa eleição, porque vocês toparam enfrentar a guerra suja desse arremedo de democracia que vivemos. Eu não tive estômago para tudo isso.


Te vi…

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“…
Te vi, te vi, te vi
Yo no buscaba a nadie y te vi
…”
(Un Vestido Y Un Amor, Fito Paez)
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Locos Por Ti, America!


Roda viva

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Raul Seixas disse que “Sonho que se sonha sozinho é só um sonho. Sonho que se sonha junto é realidade.” Eu poderia reescrever essa sentença acrescentando que “sonho compartilhado se multiplica generosamente em amor.”

Por motivos outros permaneci os últimos quinze anos sem sonhar, apenas administrando as intempéries da vida. Felizmente nenhuma realidade é imutável e como bem disse o bom e velho Marx, “o homem é sujeito da sua história”. Pois estou sendo sujeito da minha história, voltei a sonhar e fui além. Compartilhei esse sonho e ele generosamente se transformou em amor.

Amor capaz de transformar vidas, realidades, humores, impulsionar sonhos que novamente se transformarão em amor que transformará outras vidas, realidades… E assim como numa engrenagem, tudo vai se encaixando e fazendo girar essa roda viva.

Estou girando no meio dessa engrenagem chamada vida, cortejando a esperança logo ali e alimentando de amor meu cotidiano. Enfim, vivendo!

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Loca por ti, America!


Declaração de voto

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Muitas pessoas estranham o fato de alguém com uma razoável consciência política como eu, que possui uma linha ideológica e que sempre se manifesta em questões espinhosas, não ter se manifestado sobre seu voto. Para bem da verdade já declarei o meu voto e vou reafirmá-lo, mas antes exporei os motivos, ou melhor, as premissas necessárias para que eu votasse nessa eleição.

Eu votaria no candidato a presidente que assumisse publicamente o compromisso de abrir os arquivos da ditadura militar – pondo fim ao luto inacabado das famílias que ainda sofrem torturadas sem saber o que aconteceu com seus entes – e usar toda a sua influência para punir os torturadores e assassinos.

Votaria no candidato que assumisse sem meias palavras a defesa da legalização do aborto, por ser este um direito das mulheres, e o compromisso de colocar a máquina do Estado a serviço da coibição e prevenção da violência contra a mulher.

Votaria no candidato que assumisse a defesa do casamento gay, dos direitos civis dos homossexuais e da punição exemplar da homofobia.

Votaria no candidato que afirmasse a laicidade do Estado e não ficasse fazendo média com lideranças religiosas e abrindo brechas para preconceitos e difusão de ignorâncias históricas.

Votaria no candidato que afirmasse fazer a reforma agrária imediata, sem contemporizações ou negociações com ruralistas assassinos e escravocratas.

Votaria no candidato que se comprometesse a expulsar as madeireiras e os ruralistas já da Amazônia, porque grileiro não tem direito a indenização e nem explicação, tem é que responder a processo por crime contra a humanidade.

Votaria no candidato que tivesse a coragem de dizer que o Bolsa Família, apesar de ter tirado muitas pessoas da miséria absoluta, é uma esmola e que é preciso ir além, dando a dignidade e a oportunidade dessas pessoas proverem seu sustento com o seu próprio trabalho.

Votaria no candidato que assumisse a educação como prioridade primeira, porque só ela é capaz de livrar as pessoas da pobreza e da miséria absoluta, mesmo correndo o risco das pessoas aprenderem a pensar sozinhas, porque esse é o compromisso de todo e qualquer ativista de esquerda: libertar os trabalhadores de todas as formas de opressão.

Votaria no candidato que assumisse o compromisso com um sistema econômico baseado na solidariedade e distribuição de riquezas, na taxação das grandes fortunas e na desoneração dos pequenos e médios produtores, porque eles empregam mais e melhor.

E votaria no candidato que assumisse o compromisso de discutir o orçamento da união e as obras a serem feitas diretamente com a população através de grandes conselhos populares, para por um fim no balcão de negócios entre governo e parlamentares, construindo uma democracia participativa real e palpável a todos os cidadãos.

Disse “votaria” porque não adianta sequer esse candidato existir. O tal sistema eleitoral do tal estado democrático de direito impõe que ao participar de uma disputa se aceite suas regras. Tanto faz os compromissos assumidos, esse candidato teria que negociar os seus compromissos em nome das alianças, da viabilidade eleitoral da candidatura e mais tarde em nome da maldita governabilidade. Hoje tivemos a prova do que a preocupação em garantir votos e/ou a governabilidade faz com os compromissos assumidos por um candidato. Joga-se no lixo!

Democracia não é apertar um botão a cada dois anos. Não sei vocês, mas eu cansei de fazer concessões com meus princípios, sonhos e utopias para escolher dentre os candidatos que se apresentam, o menos pior. Quero poder sonhar livremente, sem me sentir desrespeitada porque a bandeira que o meu candidato defendia, e me fazia sentir representada e incluída dentro de sua candidatura, foi rasgada na primeira curva.

Por fim, votaria num candidato que mantivesse a ética e os princípios acima de alianças e barganhas eleitorais.

Por essas e por outras, eu voto NULO.

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Céu aberto!

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Esse ano a primavera chegou um pouquinho mais cedo pra mim (equinócio na próxima madrugada, 23 de setembro, às 3h09) e como um girassol estou acompanhando e seguindo o meu sol, atentamente e cada dia mais perto. Em contagem regressiva e cada dia mais ‘loca por ti, America’!


Do ciúme e da nossa igualdade

Alguns sentimentos são capazes de nos trazer a humanidade e à humanidade.

Temos a ilusão quase o tempo todo de que somos seres especiais, diferenciados dos demais, destacados na multidão. Desejamos ser para algumas pessoas seres especiais, pelo menos durante algum tempo.

Eis que em algumas ocasiões ele aparece. Esse sentimento odioso e desprezível, que nos coloca no mesmo patamar de todos os outros humanos. Hoje não sou nada mais, nada além, do que qualquer outra mulher que se sente preterida, deixada de lado por outra mulher ou por outra coisa no momento mais interessante.

Costumo dizer que não sou ciumenta e é verdade. Quase sempre segura de mim e da importância que tenho para as pessoas de quem gosto, permaneço imune à coisas que fariam qualquer outra mulher enlouquecer. Mas tem pessoas que aparecem na vida para jogar toda essa segurança e autoconfiança por terra. Algumas dessas pessoas tem a mania, vivem com a disposição de provar que a tal mulher independente, dona de si e segura do terceiro milênio não passa de um mito.

Calma aí, rapazes! O ciúme em mim é tão passageiro quanto o complexo de cinderela ou o bom humor pela manhã.

Fui ali cuidar do que é importante na vida. Outra hora lembro – ou alguém me lembra – de ser humana e “mulherzinha” de novo.

Pronto. Desabafei.


Noite de João

Madrugada entre o dia 23 e 24 de junho. Foi nessa noite em 1929 que meu pai nasceu, no 6º distrito da chamada colônia de Pelotas (zona rural), Santa Silvana. Só foi registrado muitos dias depois quando o meu avô Francisco, carpinteiro descendente direto de portugueses da Ilha da Madeira, veio à cidade em agosto daquele ano.

Na noite de São João que nasceu meu pai, os vizinhos se juntaram na casa da minha família para fazer a fogueira em homenagem ao santo, costume na época. Todos queriam acompanhar o parto, bem difícil, da minha avó Maria Luiza, uma italiana que nasceu num navio em pleno Atlântico na viagem para o Brasil, mas que foi resgistrada como brasileira no desembarque.

Meu pai nasceu João em homenagem ao santo e se acostumou a acender uma fogueira todos os anos para o “seu santo”, representado por uma criança com uma cruz na mão e uma ovelha no colo. Cresci vendo ele chegar mais cedo da oficina no dia 23 – ele era mecânico e ia e voltava do trabalho pedalando -, e ia juntar lenha com os vizinhos para armar a fogueira. Deixava tudo pronto para acendê-la de madrugada. Sempre muito perfeccionista e atento a todos os detalhes, se precavia para que não acontecesse nenhum acidente. Nunca houve.

Manteve esse hábito por toda a vida. Só nos últimos três anos, já bastante doente e debilitado é que deixou de fazer a fogueira. Nunca mais as noites de São João foram iguais, assim como a minha vida também não foi a mesma desde que ele se foi em 2003.

Não consegui dizer isso a ele, e por isso tenho a necessidade de registrar agora, mas ele amenizava a minha vida. Não sabia o quanto me sentiria órfã sem ele. Sempre que ouço Noite de São João, um poema de Fernando Pessoa musicado pelo Vitor Ramil, lembro daquelas noites de fogueira no pátio da minha casa e da falta que aquele João me faz.

Deixo aqui meu presente de aniversário para o meu pai, que estaria fazendo aniversário hoje e que, assim como eu, gostava muito dessa música do Vitor.

Meu pai morreu na noite de 13 de setembro de 2003 e o 13 de setembro também virou “Noite de João” pra mim.


Tentando ser metade do inteiro que eu sinto…

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Pra falar verdade, às vezes minto
Tentando ser metade do inteiro que eu sinto
Pra dizer as vezes que as vezes não digo
Sou capaz de fazer da minha briga meu abrigo
Tanto faz não satisfaz o que preciso
Além do mais quem busca nunca é indeciso
Eu busquei quem sou, voce pra mim mostrou
Que eu não sou sozinha nesse mundo.
(Fernando Anitelli)
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