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Das memórias que não tenho, ainda, e que parecem tão minhas

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Dia 15 — O livro favorito dos feriados e folgas

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O meu livro favorito dos feriados e folgas e de qualquer tempo livre que tenho é a trilogia Memória do Fogo de Eduardo Galeano — Nascimentos, As Caras e as Máscaras e O Século do Vento. O primeiro, Nascimentos, o tinha numa versão impressa comigo até bem pouquinho tempo atrás. Mas quando estive em Brasília para participar do 2º BlogProg o deixei com a Amanda Vieira para que ela o entregasse para o querido amigo Dandi Marques de presente, com a capa toda “customizada” pelo Calvin (hehehe).

Já publiquei alguns trechos deles aqui no Pimenta, como O Tempo, As Estrelas e Pachamama e ainda publicarei muitos outros mais sempre que estiver relendo-os. Antes de conhecer a América Latina ao vivo, em todas as suas cores, sons, sabores e pessoas (o que farei em breve) a conheci pelas palavras de Galeano nesses três livros mágicos em que ele conta de um ponto de vista da resistência cultural à dominação a história dos últimos 500 anos das três Américas através de contos e lendas.  Não à toa ele é o meu autor favorito.

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1918
Montañas de Morelos

Tierra arrasada, tierra viva

Los cerdos, las vacas, las gallinas, ¿son zapatistas? ¿Y los jarros y las ollas y las cazuelas? Las tropas del gobierno han exterminado a la mitad de la población de Morelos, en estos años de obstinada guerra campesina y se han llevado todo. Sólo piedras y tallos carbonizados se ven en los campos; algún resto de casa, alguna mujer tirando de un arado. De los hombres, quien no está muerto o desterrado, anda fuera de la ley.
Pero la guerra sigue. La guerra seguirá mientras siga el maíz brotando en rincones secretos de las montañas y mientras sigan centelleando los ojos del jefe Zapata.

(Memória do Fogo, O Século do Vento)

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O Relógios dos Sabores

Tom a leiteira, às sete, nasce o barulho de Lima. Com cheiro de santidade chega, atrás, a vendedora de tisanas.
Às oito passa o vendedor de requeijão.
Às nove, outra voz oferece doce de canela.
Às dez, os tamales, pamonhas salgadas, procuram bocas para alegrar.
Às onze é hora de melões e doces de coco e milho tostado.
Ao meio-dia, passeiam pelas ruas as bananas e romãs, os abacaxis, as frutas-de-conde leitosas e de veludo verde, os abacates prometendo polpa suave.
À uma, chegam os bolinhos de mel quente.
Às duas, a doceira anuncia picarones, bolos que convidam à gula, e atrás dela vem a canjica com canela e não há boca que esqueça.
Às três aparece o vendedor de anticuchos, pedacinhos de coração de boi no espeto, seguido pelos vendedores de mel e açúcar.
Às quatro, a pimenteira vende guisados e fogos.
Cinco horas é a hora do cebiche, peixe cru curtido em limão.
Às seis, nozes.
Às sete, a papinha de milho que ficou no ponto depois de ter sido exposta ao tempo nos telhados.
Às oito, os sorvetes de muitos sabores e muitas cores abrem de par em par, rajadas frescas, as portas da noite.

(Memória do Fogo, As Caras e As Máscaras)

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O Luzeiro

A lua, mãe encurvada, pediu a seu filho:
– Não sei por onde anda teu pai. Leve a ele notícias minhas.
Partiu o filho em busca do mais intenso dos fogos.
Não o encontrou ao meio-dia, onde o sol bebe seu vinho e dança com suas mulheres ao som dos atabaques. Buscou-o nos horizontes e na região dos mortos. Em nenhuma de suas quatro casas estava o sol dos povos tarascos.
O luzeiro continua perseguindo seu pai pelo céu. Sempre chega demasiado cedo ou demasiado tarde.

(Memória do Fogo, Nascimentos)

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Baixe daqui Memória do Fogo, Nascimentos, As Caras e As Máscaras e O Século do Vento (em espanhol) ou compre o box com os três volumes numa caixa especial aqui, por R$ 66,00 (aceito de presente também, rá!!!).

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Estão participando do desafio 30 livros em um mês a Luciana do Eu Sou a Graúna, a Tina do Pergunte ao Pixel, a Renata do As Agruras e as Delícias de Ser, a Rita do Estrada Anil, a Marília do Mulher Alternativa, a Grazi do Opiniões e Livros, a Mayara do Mayroses, a Cláudia do Nem Tão Óbvio Assim, a Juliana do Fina Flor, o Pádua Fernandes de O Palco e o Mundo e também a Renata do Chopinho Feminino. E tem mais a Fabiana Nascimento que posta em notas no seu perfil no Facebook. Mais alguém?

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O livro mais lido, o mais querido e o que me faz lembrar muitas coisas, pessoas e épocas

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Dia 13 — Um livro que te faz lembrar de alguma coisa, um dia

Dia 14 — Um livro que te faz lembrar de alguém

Dia 23 — O livro que você leu mais vezes durante toda a vida

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Não estou fazendo combo e nem burlando o desafio porque me atrasei, é que não há diferença entre o livro dos dias 13, 14 e 23. O livro que me faz lembrar de um dia, uma época, alguma coisa e de alguém, e o livro que mais vezes li na vida é o mesmo. Ele é também o meu livro de cabeceira, o livro que mais vezes dei de presente e o mais querido. Foi uma decisão difícil não o citar no primeiro dia e só não o fiz porque sabia que haveria um dia como esse, triplo, especial. Foram pelo menos trinta exemplares presenteados. Toda vez que o comprava de novo para tê-lo sempre comigo, de novo o presenteava. E assim foram tantas vezes que parei de contar no 25º.

Que livro tão especial é esse pra mim? Cartas a Um Jovem Poeta do tcheco Rainer Maria Rilke. O último exemplar impresso que tive mandei para um amigo de João Pessoa em 2005. E esse último ficou mais tempo comigo justamente porque era emprestado. Que feio, né? Presenteei um livro que não era meu… Achei mais útil compartilhar o Rilke com quem ainda não o conhecia. Pronto, falei.

Cartas a Um Jovem Poeta me foi apresentado por uma amiga muito querida em meados de 1992 e em meio a um turbilhão de coisas que aconteciam ao mesmo tempo na minha vida, o contato com Rilke me fez parar no tempo e no espaço. Sabem aquelas cenas no cinema em que um personagem pára e o mundo segue no seu entorno num efeito meio mágico? Era isso que acontecia naqueles dias de primavera turbulentos cada vez que eu lia aquelas cartas. Desde então, cada vez que encontrava alguém com sensibilidade acentuada, falava do livro e se percebia o interesse — e sempre havia porque eu falava com tanta empolgação que até um insensível iria querer conferir –, o presenteava.

Cartas a Um jovem Poeta reúne as respostas de Rilke a um leitor de suas poesias, Franz Kappus, um jovem de 18 anos que desejava ser escritor e escreveu pedindo-lhe conselhos. Rilke trocou com ele várias cartas (entre fevereiro de 1903 e novembro de 1904 e uma última em dezembro de 1908) e ao invés de falar-lhe em teorias, regras ou práticas da escrita, se concentrou no mundo interior do ser humano por trás da caneta (pena ou teclas) e de onde deve brotar o escritor. Essa viagem de introspecção, de ensimesmação que Rilke propõe a Kappus é tão profunda e intensa que o livro acaba se tornando um elogio à solidão. Atrever-se a escrever só depois desse contato consigo mesmo e de se sentir parte da natureza, quando o ato de escrever se tornasse imprenscindível, visceral. Não é lindo isso? Aliás, o Rilke é conhecido como o poeta da solidão justamente por esse livro. E essa viagem de introspecção proposta por ele serve para qualquer pessoa, mesmo aquelas que não desejam um dia escrever.

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“Não se deixe enganar em sua solidão só porque há algo no senhor que deseja sair dela. Justamente esse desejo o ajudará, caso o senhor o utilize com calma e ponderação, como um instrumento para estender sua solidão por um território mais vasto. As pessoas (com o auxílio de convenções) resolveram tudo da maneira mais fácil e pelo lado mais fácil da facilidade; contudo é evidente que precisamos nos aferrar ao que é difícil; tudo o que vive se aferra ao difícil, tudo na natureza cresce e se defende a seu modo e se constitui em algo próprio a partir de si, procurando existir a qualquer preço e contra toda resistência. Sabemos muito pouco, mas que temos de nos aferrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom ser solitário, pois a solidão é difícil; o fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la.

Amar também é bom: pois o amor é difícil. Ter amor, de uma pessoa por outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo, ainda não podem amar: precisam aprender o amor. Com todo o seu ser, com todas as forças reunidas em seu coração solitário, receoso e acelerado, os jovens precisam aprender a amar. Mas o tempo de aprendizado é sempre um longo período de exclusão, de modo que o amor é por muito tempo, ao longo da vida, solidão, isolamento intenso e profundo para quem ama. A princípio o amor não é nada do que se chama ser absorvido, entregar-se e se unir com uma outra pessoa. (Pois o que seria uma união do que não é esclarecido, do inacabado, do desordenado?) O amor constitui uma oportunidade sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo, tornar-se um mundo, tornar-se um mundo para si mesmo por causa de uma outra pessoa; é uma grande exigência para o indivíduo, uma exigência irrestrita, algo que o destaca e o convoca para longe. Apenas neste sentido, como tarefa de trabalhar em si mesmos (“escutar e bater dia e noite”), as pessoas jovens deveriam fazer uso do amor que lhes é dado. A absorção e a entrega e todo tipo de comunhão não são para eles (que ainda precisam economizar e acumular por muito tempo); a comunhão é o passo final, talvez uma meta para a qual a vida humana quase não seja o bastante.”

(Trecho da carta de 14 de maio de 1904)

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Impossível não perceber nas palavras de Rilke um profundo respeito e carinho por seus leitores, não à toa as cartas trocadas com um leitor se tornou seu livro mais conhecido. Cartas a Um Jovem Poeta não é bom por ser conhecido, ele é o livro mais conhecido justamente por ser muito bom.

Ele me lembra amigos muito especiais, pessoas sensíveis com quem tive longas conversas que me marcaram profundamente em diferentes épocas da vida, um amor do tempo da faculdade que ainda guardo com muito carinho (Uia! Pronto, confessei.) e é a minha mais terna e profunda ligação com um livro. Não faço a menor ideia de quantas vezes o li.

Rilke ainda aparecerá pelo menos mais uma vez nesse desafio. 🙂

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Baixe aqui Cartas a Um Jovem Poeta em pdf. Mas aconselho a comprá-lo para tê-lo sempre a mão. A edição normal custa em média R$ 20, 00 e a edição de bolso entre R$ 8,00 e R$ 12,00. A tradução é de Cecília Meireles.

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Estão participando do desafio 30 livros em um mês a Luciana do Eu Sou a Graúna, a Tina do Pergunte ao Pixel, a Renata do As Agruras e as Delícias de Ser, a Rita do Estrada Anil, a Marília do Mulher Alternativa, a Grazi do Opiniões e Livros, a Mayara do Mayroses, a Cláudia do Nem Tão Óbvio Assim, a Juliana do Fina Flor e o Pádua Fernandes de O Palco e o Mundo. E tem mais a Fabiana Nascimento que posta em notas no seu perfil no Facebook. É um jeito outro de conhecer as pessoas através dos livros que as encantaram e encantam. Acompanhe nossa brincadeira.

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Realidades absurdas nem tão fictícias assim

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Dia 12 — O livro favorito de ficção científica

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Já falei que não curto ficção científica? Então, não curto mesmo. Nem na literatura e nem no cinema. Raros e bons foram os livros de ficção científica que li. Entre eles Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, 1984 de George Orwell e Fahrenheit 451 de Ray Bradbury.

Sou daquelas pessoas malucas que pra não se decepcionarem com versões cinematográficas de grandes livros, sempre que possível, assisto ao filme primeiro e depois leio o livro. Com Fahrenheit 451 foi assim. Só depois que já tinha assistido o filme e o resenhado para o blog de cinema é que fui catar o livro para ler. Mesmo já conhecendo a história e mesmo não curtindo ficção científica me arrisquei. E gostei mais do livro do que do filme. E olhem que François Truffaut é um desses gênios do cinema francês…

Mas essa história tem a ver com livros, com situações absurdas não tão impossíveis assim, com totalitarismo, sociedade e pensamentos controlados e isso está profundamente ligado ao meu mundo, político. O autor, o americano Ray Bradbury começou a escrever a história em 1947 e só publicou em 1953 — estamos falando do período mais crítico do macartismo nos EUA.

Resumão básico: no futuro todos os livros foram proibidos (ler ou possuir), opiniões próprias foram consideradas anti-sociais e desagregadoras e o pensamento crítico foi suprimido. O personagem central é Guy Montag, o “bombeiro” pacato e feliz com sua vidinha que tem a tarefa de queimar os livros, e 451 na escala Fahrenheit é a temperatura em que o papel incendeia. Surge a mocinha (sempre as mulheres, essas subversivas!) da história, Clarisse, que vai plantar a dúvida na cabeça do bombeiro enchendo-o de porquês, se ele é feliz, se nunca leu os livros antes de queimá-los, etc.

O tal futuro de Fahrenheit 451 baseia-se naquele princípio de Rousseau que os ignorantes é que são felizes, e que o conhecimento é a fonte do mal. O bombeiro acha que é feliz até a mocinha questionadora colocar dúvidas sobre sua “felicidade”.

Muitas foram as interpretações e leituras que se fizeram da obra de Bradbury, mas ele mesmo teria declarado que o romance não tratava de censura, mas de uma história sobre como a televisão destrói o interesse pela leitura. Então, tá.

Infelizmente não o achei em pdf traduzido para o português disponível para download. Se alguém souber de uma versão disponível avise, por favor.

Aqui é possível comprá-lo por R$ 32,00.

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Estão participando do desafio 30 livros em um mês a Luciana do Eu Sou a Graúna, a Tina do Pergunte ao Pixel, a Renata do As Agruras e as Delícias de Ser, a Rita do Estrada Anil, a Marília do Mulher Alternativa, a Grazi do Opiniões e Livros, a Mayara do Mayroses e a Cláudia do Nem Tão Óbvio Assim. E tem mais a Fabiana Nascimento que posta em notas no seu perfil no Facebook. E agora tem mais o Pádua Fernandes de O Palco e o Mundo, que entrou na brincadeira dia 7. É um jeito outro de conhecer as pessoas através dos livros que as encantaram e encantam. Acompanhe nossa grande brincadeira.

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O humor como crítica política é uma arma poderosa

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Dia 11 — O livro favorito com animais

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Livros sobre animais não me atraem. Sequer pego na mão para folhear. Mas teve um que me veio indicado como uma crítica contundente ao stalinismo através de uma sátira com animais. Obviamente estou falando de A Revolução dos Bichos do visionário inglês George Orwell.

A associação é direta, franca, com a Revolução Russa, Lênin, Trotsky e Stalin e o processo de burocratização da URSS, perseguição política e com a traição dos ideiais da Revolução Bolchevique. Praticamente devorei o livro em apenas um dia de tanto que gostei.

Resumindo muito, a história é mais ou menos assim… Um porco muito sábio e líder dos animais sonha com uma revolução dos bichos numa fazenda e, sentindo que irá morrer em breve, reúne todos numa madrugada em que o humano dono da propriedade estava bêbado para contar-lhes do seu sonho. O porco morre, mas os animais fazem a revolução mesmo assim. Ao tomarem o poder eles mudam o nome da fazenda e instituem os sete mandamentos do animalismo que são: 1) qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo; 2) qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo; 3) nenhum animal usará roupas; 4) nenhum animal dormirá em cama; 5) nenhum animal beberá álcool; 6) nenhum animal matará outro animal e; 7) todos os animais são iguais.

Os animais elegem um outro porco como líder e este é traído pelo amigo mais próximo, também porco, que o destitui e expulsa da fazenda. O porco traidor se corrompe de tal forma que assume a aparência humana, passa a andar em duas patas, veste roupas do antigo proprietário da fazendo (humano), adquire hábitos humanos como beber álcool e oprime os demais animais tanto ou mais que no período anterior à revolução. Os porcos tem status diferenciados na fazenda e eles alteram os mandamentos do animalismo por considerá-los desnecessários, uma vez que a revolução já aconteceu, e fica valendo apenas que: nenhum animal dormirá em cama com lençóis; nenhum animal beberá álcool em excesso; nenhum animal matará outro animal sem motivo e; todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais que os outros.

Acabou que Orwell, de forma divertida e simples, escreveu a melhor crítica ao stalinismo já feita. Tem como não gostar?

George Orwell se chamava na verdade Eric Arthur Blair, era jornalista e escritor inglês e escreveu mais crônicas que livros ou romances. Usava também o pseudônimo e John Freeman. Ele lançou A Revolução dos Bichos em agosto de 1945 e morreu cinco anos depois.

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Baixe daqui A Revolução dos Bichos em pdf.

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O clássico cavaleiro errante e sua luta contra os moinhos

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Dia 10 — O clássico favorito

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               ” — Não — disse ele à sua imaginação, e em voz que podia ser ouvida — nem a maior formosura da terra conseguirá que eu deixe de adorar a que tenho gravada e estampada no meu coração e no mais recôndito das minhas entranhas, emboras estejas, senhora minha, transformada em repolhuda lavradeira ou em ninfa do áureo Tejo, tecendo telas de ouro e seda, ou Merlin ou Montesinos te guardem onde muito bem quiserem, que, onde quer que estiveres, és minha, e onde quer que eu esteja, sou e hei-de ser teu.

Don Quixote de Pablo Picasso, de agosto de 1955

Don Quixote, de Miguel de Cervantes, é o maior clássico da literatura espanhola e na minha humilde opinião é o clássico entre os clássicos. Foi escrito há mais de 400 anos e não deve haver uma única pessoa sobre a face da Terra que não tenha ouvido falar deste insano cavaleiro, seu fiel escudeiro, sua amada idealizada, seu cavalo e sua luta contra moinhos gigantes. Qual idealista nunca foi chamado de “cavaleiro errante” e sua utopia de “luta contra os moinhos”? Qual idealista destroçado e desanimado da batalha não foi chamado de “cavaleiro da triste figura”? Isso só para citar as expressões mais comuns associadas aos sonhadores que derivam da obra de Cervantes.

Apesar de mágico e instigante é quase uma tonelada de livro e eu o li muito aos poucos. Fui e voltei mil vezes porque tenho a mania de ler um livro todo de uma vez, sem abandonar. Sempre que o abandonava, voltava ao começo. Até que percebi que só conseguiria lê-lo em capítulos e bem devagar. Nunca o tive e o lugar e tempo de leitura foi a biblioteca da Escola Técnica Federal de Pelotas (hoje IFSul) nos anos solitários antes do movimento estudantil secundarista. Sim, eu matava as aulas chatas e ficava na biblioteca que tinha sacada para um jardim e onde ninguém me achava estranha por estar sozinha.

Don Quixote era Don Alonso Quixano, um cinquentão ingênuo e delirante que vivia na zona rural da província da Mancha. Morava num velho casarão com uma sobrinha e uma governanta, cercado por livros de cavalaria numa biblioteca toda ornamentada por lanças e escudos. De tanto ler sobre cavaleiros, suas batalhas contra vilões e suas amadas, decidiu sair pelo mundo lutando contra injustiças e inventou uma amada para si, já que não tinha nenhuma. Lembrou-se de uma camponesa chamada Aldonça, feia, desajeitada e analfabeta que vivia na aldeia de Toboso e por quem esteve interessado anos antes. O cavaleiro mudou seu nome para Dulcinéia del Toboso e passou a fantasiar que ela era mais bela que todas as damas e a princesas dos livros.

Passou por mal bocados na província por conta de seus delírios e sua sobrinha decidiu queimar sua biblioteca. Transtornado e ainda mais desequilibrado, mudou seu nome para Don Quixote de La Mancha, vestiu uma armadura e saiu pelo mundo montando um pangaré a quem batizou de Rocinante, para lutar contra gigantes e dragões, salvar donzelas em perigo e combater injustiças. No caminho encontrou um agricultor baixinho e gordinho chamado Sancho Pança e o conveceu a acompanhá-lo montando um burrico sob a promessa do reinado em uma ilha.

A partir daí são muitas aventuras e delírios, confusões e a batalha desse cavaleiro errante contra os moinhos é uma das cenas mais belas que alguém já descreveu.

Só para contextualizar: Miguel de Cervantes Saavedra nasceu em 1547 em Alcalá de Henares, cidade perto de Madri. Ainda jovem viajou para a Itália e lutou contra os turcos na batalha de Lepanto, feriu-se e teve a mão esquerda inutilizada. Aprisionado por piratas, só se libertou cinco anos depois e mais tarde passou a residir em Lisboa. Em 1580, voltou à Espanha e chegou a trabalhar como cobrador de impostos. Devido a essa profissão, viajou por toda a Espanha, conhecendo de perto as dificuldades de seu povo. Lançou a primeira parte de Dom Quixote em 1605 e obteve sucesso imediato. Em 1615 publicou a segunda parte do livro e morreu no ano seguinte, muito conhecido mas ainda sem recursos.

Não aconselho a ler Don Quixote em pdf, embora esteja disponível para download. A primeira parte tem 1832 páginas e a segunda, 919.

Baixe aqui Don Quixote, parte 1 em pdf

Baixe aqui Don Quixote, parte 2 em pdf

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Tristeza, marcada a ferro na memória…

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Dia 09 — O livro mais triste que você já leu

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Vou subverter um pouco para chegar ao livro mais triste que li. Porque não é só o livro mais triste, é também o livro mais revoltante. Aliás, não é apenas um livro, são todos que tratam do tema. Não há um só depoimento, trecho, texto que leia sobre a ditadura militar que me deixe triste, arrasada e, por consequência, revoltada.

Mas o primeiro com relatos detalhados sobre as torturas foi Brasil: Nunca Mais. Foi meu primeiro contato com esse nível de atrocidade e eu só tinha 14 anos. Li outros livros mais tarde, igualmente tristes e revoltantes pra mim, que descreviam outras situações como a agonia da vida clandestina, a incerteza da vida em aparelhos, nas fugas, a tortura psicológica como Batismo de Sangue, de Frei Betto. Mas o projeto que originou o livro, organizado pelo arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns e pelo pastor presbiteriano Jaime Wright e equipe, é um retrato cruel, nu e cru, dos porões da ditadura militar e foi a primeira vez que alguém jogou luz neste porão e de forma tão organizada.

O projeto Brasil: Nunca Mais foi realizado clandestinamente entre 1979 e 1985 e é, junto com a documentação garimpada e organizada pela Comissão dos Familiares dos Mortos e Desaparecidos, o que se tem de oficial sobre essa parte trágica da história do país, já que os arquivos secretos das Forças Armadas e dos órgãos de repressão continuam lacrados.

Eles sistematizaram as informações de mais de um milhão de páginas contidas em 707 processos do Superior Tribunal Militar (STM) revelando a extensão da repressão política no Brasil cobrindo um período que vai de 1961 a 1979. O livro que é atribuído a Arns — autor do prefácio –, é na verdade resultado do esforço de mais de 30 pessoas e teve papel fundamental na identificação e denúncia dos torturadores do regime militar. Durante seis anos eles se debruçaram na tarefa de desvelar as perseguições, os assassinatos, os desaparecimentos e as torturas — os atos praticados nas delegacias, unidades militares e locais clandestinos mantidos pelo aparelho repressivo no Brasil.

Em resposta ao livro Brasil: Nunca Mais, os militares escreveram o Tentativas de Tomada do Poder baseado em documentação produzida pelos órgãos de repressão do período, contendo uma versão policial sobre a história e as pessoas citadas. Como se fosse possível comparar os atos da luta armada contra o Estado organizado para matar, desaparecer e torturar.

A Graúna Luciana escreveu um post sobre o livro e eu me identifiquei demais com ele, então deixo aqui porque não saberia escrever melhor.

A dor e a tristeza que sinto com os relatos desse livro é tanta que nem sei explicar ou escrever. Me calou e cala fundo demais ler sobre tudo que está relatado nessas páginas. Assumi a luta pela abertura dos arquivos da ditadura e pela punição dos torturadores porque considero a mais justa das lutas. Em breve vou escrever sobre a prática do desaparecimento político que é usada única e exclusivamente contra ativistas de esquerda e sobre o tamanho de sua crueldade. Eu só consegui ler o Brasil: Nunca Mais uma única vez. Nunca mais sequer o folheei. Ficou inteiro marcado a ferro em minha memória.

Muito já escrevi sobre isso aqui no Pimenta e quase que diariamente comento a respeito nos meus perfis nas redes sociais e minha inspiração e determinação podem ser resumidos nessa frase da Suzana Lisboa (que presidiu a Comissão de Familiares dos Mortos e Desaparecidos e foi uma das poucas a encerrar seu luto porque a ossada de seu marido, Luiz Eurico Tejera Lisboa foi encontrada na Vala de Perus, em 1990), “a única luta que se perde é a que se abandona“.

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Aqui, uma versão digital do Brasil: Nunca Mais (não encontrei em pdf)

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Sobre a imobilidade diante do terror

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Dia 08 — O livro mais assustador que você já leu
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Foi só pensar em um livro de terror e lembrar da minha sensação quando li o Diário de Anne Frank, o livro de não-ficção mais lido no mundo todo, perdendo apenas para a bíblia (e aqui há controvérsias sobre a bíblia ser ou não ficção — estou só inticando, ok?).

A descrição dos horrores feita pela adolescente Annelisse Maria Frank, judia alemã, sobre os dois anos em que viveu escondida com a família em Amsterdam, juntamente com revelações de seus sonhos, angústias e contradições próprias da adolescência, é de fazer perder o fôlego. Anne  morreu num campo de concentração com apenas quinze anos no dia 31 de março de 1945 — a Segunda Grande Guerra Mundial terminaria poucos meses depois. O pai de Anne, Otto Heinrich Frank foi o único sobrevivente da família e publicou o diário da filha como era o seu desejo.

Essa história, que todo mundo conhece ou já ouviu falar, li aos treze anos e muitas vezes tentei me colocar no lugar de Anne, mas eu sequer conseguia chorar com o livro, tal era o espanto e o terror que me causou. Por causa deste livro assisti a todos os filmes sobre o holocausto judeu que me apareceram pela frente. Até hoje assisto, confesso.

É muito difícil escrever sobre o espanto, sobre o que nos choca e imobiliza. Ainda hoje fico imóvel diante de um exemplar desse diário, que mesmo sendo uma história real mantém ares de surreal.

Em sua última anotação, no dia 1º de Agosto de 1944, Anne descreve-se como “um feixe de contradições”.

“Sei exatamente como gostaria de ser, como sou… por dentro. Mas infelizmente só sou assim comigo própria. E talvez seja por isso – não, tenho a certeza que é por isso – que penso em mim como uma pessoa feliz por dentro, enquanto os outros pensam em mim como feliz por fora”.

O esconderijo onde Anne se escondia com seus familiares foi descoberto e invadido pelos nazistas três dias depois dessa anotação.

Baixe aqui o Diário de Anne Frank em pdf.

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Esse vou ficar devendo…

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Dia 07 — Um livro que você odiou mas teve que ler para a escola
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Beco sem saída. Não tenho um livro que tenha sido obrigada a ler para escola e tenha odiado. Eu gostava até dos livros de geografia e história e gramáticas. E os raros casos de leitura obrigatória de literatura — e não livros técnicos ou acadêmicos (e é assim que entendendo esse desafio/meme) — eu acabei me apaixonando pelos livros.

Tive sorte? Talvez. Talvez tenha sido a minha chance de embarcar em viagens que jamais poderia fazer e fui mesmo. Conto mais sobre isso no dia 22 desse desafio, mas esse livro de hoje ficarei devendo.

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Dentre todos, escolho aquele que me abraça

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Dia 06 — Um livro do seu autor favorito
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Parecia difícil saber qual o meu autor favorito e escolher apenas um livro, achei até que teria que seguir o exemplo subversivo da bandoleira Luciana, a Graúna, e citar vários autores e vários livros. Mas bastou inverter a pergunta e me perguntar de qual escritor já li mais livros para vir a resposta em uníssono de todas as partes que me compõe: Eduardo Galeano. O livro preferido? Óbvio, aquele que traz o nome mais poético de todos e que faz juz à emoção causada: O Livro dos Abraços.

Galeano é o autor que leio tudo que me aparece pela frente, entrevista, comentário, notícia sobre novo livro no jornal, no site, assisto todos os vídeos… Enfim, acompanho de perto.

Todos os livros dele que já li, li mais de uma vez. Infelizmente não li todos, me faltam os dois últimos (dica certeira para me presentear). Já li O Livro dos Abraços algumas vezes (três ou quatro), bem menos do que gostaria porque agora só o tenho em pdf na tela do computador e este é um livro que gosto de ler à moda antiga, pegando, folheando, sentindo e todo, de uma vez só. Me sinto envolvida por ele, absorvida,  abraçada por cada frase, palavra, fragmento… Ler Galeano é mágico!

Se um dia encontrar Don Eduardo Galeano “casualmente” no Café Brasileiro em Montevidéu farei questão de lhe abraçar (se ele permitir, claro — “a pretensiosa!”) e agradecer por todos os seus livros, mas especialmente por este.

‎”Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.” — trecho de O Mundo, pág. 11.

“Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu vôo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntar-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.”A pequena morte, pág. 54.

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Baixe aqui O Livro dos Abraços em pdf.

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Também estão participando da brincadeira a Luciana do Eu Sou a Graúna, a Tina do Pergunte ao Pixel, a Renata do As Agruras e as Delícias de Ser, a Rita do Estrada Anil, a Marília do Mulher Alternativa, a Grazi do Opiniões e Livros, a Mayara do Mayroses e a Cláudia do Nem Tão Óbvio Assim. E tem mais a Fabiana Nascimento que posta em notas no seu perfil no Facebook. Mais alguém?

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Tinha que ser!

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Dia 05 — Um livro que lhe faz sorrir

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O livro que me faz rir ou sorrir é, sem dúvida alguma, qualquer Calvin e Haroldo do Bill Watterson. Gosto também da Mafalda do Quino, mas o Calvin me faz dar gargalhadas sozinha. Não à toa dei o nome dele ao meu filho. Nunca fui muito fã de gibis ou outras histórias em quadrinhos, mas de tirinhas sou fã confessa e rasgada.

Sempre disse que se algum dia na vida tivesse um filho colocaria o nome de Calvin, mas quando engravidei entrei em dúvida. Na verdade tudo era dúvida, inclusive eu e a gravidez e aquele me tornar mãe estabanado e imprevisto. Mas Bill Watterson, o autor, que produzia diariamente as tirinhas desse menino de seis anos tão crítico, singular e insolente (ou seja, uma peste) decidiu “matá-lo” em 31 de dezembro de 1995 (meu aniversário, grávida…) e isso tudo me confundiu demais (como se não tivesse coisas suficientes me confundindo…). Mas foi apenas no início de março de 1996 que li a tirinha final de Calvin e Haroldo e chorei tanto e tão compulsivamente que acho que comecei a re-decidir ali que o meu filhote seria mesmo Calvin. O blog Pensar Enlouquece, do Alexandre Inagaki, escreveu sobre essa tira, a mais triste de todos os tempos.

Já tive vários livros com tirinhas do Calvin e Haroldo, mas o único que guardo e carrego comigo é O Mundo é Mágico — porque ganhei de um amigo muito querido que mora lá em João Pessoa — e depois dele os preferidos são O Ataque dos Perturbados Monstros de Neve Mutantes e Assassinos e Tem Alguma Coisa Babando Embaixo da Cama.

No Depósito do Calvin (que está linkado na barra esquerda do Pimenta com Limão desde sempre) é possível ler e salvar várias tiras. O site Submarino está vendendo um box com sete livros (E Foi Assim que Tudo Começou, Tem Alguma Coisa Babando Debaixo da Cama, Yukon Ho!, Criaturas Bizarras de Outro Planeta, A Hora da Vingança, Deu “Tilt” no Progresso Científico, O Ataque dos Pertubados Monstros de Neve Mutantes Assassinos).

Aqui uma entrevista com Bill Watterson sobre Calvin e Haroldo.

Outra tirinha do Calvin e Haroldo sobre ateísmo matemático que já publiquei. Tem como não amar?

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Também estão participando da brincadeira a Luciana do Eu Sou a Graúna, a Tina do Pergunte ao Pixel, a Renata do As Agruras e as Delícias de Ser, a Rita do Estrada Anil, a Marília do Mulher Alternativa, a Grazi do Opiniões e Livros, a Mayara do Mayroses e a Cláudia do Nem Tão Óbvio Assim. Mais alguém?

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Hoje é o dia da choradeira…

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Dia 04 — O primeiro livro que lhe fez chorar

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O primeiro livro que me fez chorar me fez chorar muito. Muito mesmo.

Era inicinho de 1988, tinha 16 anos, estava dando meus primeiros passos como militante do movimento estudantil secundarista, me dizia comunista e me interessava por todas as histórias de outros militantes com os quais me pretendia igual. Era uma espécie de investigação particular, ficava tentando descobrir o que havia de semelhante entre eles e eu. Motivações, inadaptação com tempo, inconformismo com a vida…

Olga Benario foi a militante que mais me identifiquei até conhecer Pagu, e a narrativa do Fernando Morais é espetacular e torna sua história ainda mais especial. Ele te transporta para a Alemanha do final dos anos 20 e para dentro dos sonhos e da vida de Olga. É possível sentir sua coragem, sua ousadia, seu amor ao partido e aos seus ideiais, sua firmeza de caráter e cada pequena angústia e temor que todo militante por mais duro que seja sente.

Foi a primeira vez que tive certeza que o caminho escolhido pela minha ideologia era sem volta e foi a primeira percepção concreta do ódio que uma ideologia dissonante causa. Me sentia tão estranha e ao mesmo tempo tão confortável em me dizer comunista — eu só soneguei esse autointitulação nos tempos de filiação ao PT (1989-1999) porque soava estranho –, porque aqui no meu mundo “ser” assim não era/é normal.

Logo nas primeiras páginas de Olga, Morais relata o sequestro do professor Otto Braun (namorado de Olga) chefiado por ela (aos 16 anos de idade) e outros militantes da juventude comunista alemã e os dias seguintes à ação, como eles foram trocando de casa e contando com o abrigo e apoio dos moradores do bairro operário de Neuktilln e como eram aplaudidos nas sessões de cinema ao serem apresentados pela polícia como procurados.

Isso me deu uma outra dimensão da luta pela transformação do mundo. Em alguns lugares desse planeta os trabalhadores tinham consciência política de sua opressão e apoiavam os comunistas. Nem todos os lugares eram como o Brasil, onde até hoje somos vistos como estranhos no ninho e temos nossa ideologia distorcida porque a ampla maioria das pessoas é explorada calada, cabisbaixa e ainda acha que está certo assim.

Fernando Morais e Olga foram os responsáveis por desvelar para mim a verdadeira face de Getúlio Vargas, presidente que nos livros de história oficiais é descrito como popular, injustiçado e perseguido por defender o povo pobre. Mesmo eu, gaúcha e conhecedora de sua tradição de estanceiro e fazendeiro rico, não conseguia ver qualquer incongruência no seu estilo de vida e o que dizia defender — fruto também da escola que não incentiva o pensamento crítico. Ou seja, Olga Benario foi a responsável por me ensinar que não basta assumir uma ideologia para adquirir consciência de classe ou conseguir ler a realidade em todos os seus aspectos opressivos. É preciso ler muito, discutir coletivamente, aprender a analisar conjuntura e estar sempre muito bem informado. E isso também deu outro sentido ao meu sonho pessoal de ser jornalista. Foi quando comecei a ver o caminho onde o jornalismo se fundia com a minha causa.

Olga foi também responsável por me apresentar o lado mais humano e frágil de Prestes e certamente passei a respeitá-lo bem mais depois do livro (secundaristas tem uma pretensão e um desprezo quase que natural de quem divergem — imaturidade define).

Junto com todas as lágrimas que derramei lendo Olga — e elas começaram a rolar desde a emoção inicial com sua coragem –, vieram também duras constatações e descobertas. Fundamentais constatações e descobertas! Não lembro de outro livro com o qual tenha chorado tanto nem tão profundamente. Choro até hoje ao relembrar sua trajetória, chorei vendo o filme de Jaime Monjardim adaptado do livro (mesmo com todas as críticas cinematográficas) e acho que nunca deixarei de chorar por Olga.

“Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo.”

Uma dica: Para quem acha que conheceu Olga Benario através do filme de Monjardim, é melhor ler o livro.

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Baixe Olga em pdf daqui.

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O meu abre-alas no mundo da literatura

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Dia 03 — O livro favorito da sua infância
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Preciso confessar que não fui uma leitora na infância. Sequer descobri a leitura na infância. Nunca fui incentivada a ler. Comecei a ler quando troquei de escola na quinta série e os professores exigiam leituras. Comecei a ler obrigada e fui pegando gosto. Mas fui muito devagar. Minha descoberta da leitura se deu só na adolescência, quando lia livros de política pesadões (são pesados para qualquer adulto) e precisava relaxar lendo coisas mais leves. Mas conto isso em outro momento.
Aos dez anos foi praticamente a minha estreia no mundo da literatura e o livro responsável por me fazer gostar de ler — e o estou adotando como livro mais querido da infância — foi O Menino do Dedo Verde, do Maurice Druon. A história de um menino rico que morava numa mansão, o oposto da minha vida, e que tinha um dom misterioso era fascinante pra mim. Sempre alimentei a fantasia de ser especial, única, de poder fazer a diferença no mundo e poder transformar o mundo com apenas o toque do meu dedo. E a história de Druon fez com que eu realizasse de certa forma a minha fantasia através do menino Tistu.
Tistu ainda tinha um detalhe especial, seu nome primeiro era João e ele foi responsável por pensar no João meu pai pela primeira vez como criança e ficar imaginando como tinha sido sua infância.

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Baixe O Menino do Dedo Verde em pdf e conheça ou relembre a história de Tistu.

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Paul Rabbit é demais pra minha cabeça…

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Dia 02 — Um livro que você não gosta
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Desde que o Paulo Coelho — ou Paul Rabbit como costumo brincar — virou febre no Brasil no início dos anos 90 já o olhava desconfiada. Mas como tudo na vida que te causa ojeriza de certa forma também atrai, um dia me permiti ler (ou pelo menos começar a ler) um de seus livros.

Estava nos primeiros semestres da faculdade e tinha uma amiga muito querida super fã dele e que já tinha lido todos os livros lançados até então. Isso era 1994 e ele estava lançando Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei. Essa amiga já tinha na estante de casa O diário de um mago, O Alquimista, Brida e As valkírias. Todos os meus amigos esquerdistas, comunistas falavam muito mal do Paul Rabbit, mas ela falava tão bem de sua literatura que acabou convencendo as minhas veias libertárias e subversivas a experimentar. Perguntei a ela qual o melhor para mim, para adentrar no universo do tal mago, e ela me respondeu sem pestanejar “Brida“.

Comecei a ler devagar e fui achando sua narrativa interessante, embora estivesse um tanto quanto desconfiada que Brida não tratasse de magia e fosse mais um romance barato entre uma jovem afoita por aprender os segredos da bruxaria (que se chamava Brida) e um velho mestre condenado a viver vagando num bosque nos arredores de Dublin, na Irlanda. Eis que chego a página 33 de Brida (e eu reli o livro até essa página essa madrugada para poder citar com justiça o trecho que me causou um acesso de riso).

A personagem Wicca está jogando cartas de tarot para a jovem Brida e diz o seguinte “Em cada vida temos uma misteriosa obrigação de reencontrar pelo menos uma dessas Outras Partes. O Amor Maior, que as separou, fica contente com o Amor que as torna a unir.” A jovem Brida pergunta, então à Wicca:

“– E como posso saber que é a minha Outra Parte?” — Sem responder à Brida, Wicca se põe a pensar e lembrar de seus próprios questionamentos quando jovem: “(…) Era possível conhecer a Outra Parte pelo brilho no olhos — assim, desde o início dos tempos, as pessoas reconheciam seu verdadeiro amor. A Tradição da Lua tinha um outro processo: um tipo de visão que mostrava um ponto luminoso acima do ombro esquerdo da Outra Parte. Mas ainda não ia contar isso a ela; talvez ela terminasse aprendendo a ver este ponto, talvez não. Em breve teria a resposta.”

Tive um acesso de riso que beirou a histeria e nunca mais consegui voltar nem ao Brida e nem a qualquer outro livro do Paul Rabbit. Assim como Brida deixei muitos outros livros pela metade por não ter gostado, mas Brida explica minha ojeriza ao mago e sucesso literário mundial Paulo Coelho e é com justiça o livro que não gosto desse desafio.

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Aqui a versão de Brida em pdf para quem quiser baixar e ler.

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Isso explica muita coisa…

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Dia 01 — O livro mais querido de todos os tempos
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Foi muito complicado decidir qual é o livro mais querido de todos os tempos pra mim. Nesse processo fui encontrando semelhanças estranhas e acabei ficando entre dois livros de autores suicidas. Como diria o famoso filósofo aquele, isso explica muita coisa!

Mas por todas as singularidades é Mrs Dalloway da Virginia Woolf o meu livro mais querido. A começar pela total subversão da narrativa que essa escritora inglesa, inquieta, muito a frente de sua época e desconfortável com sua sensação de despertencimento no tempo e espaço, nos apresenta.

Este romance, que foi o quarto livro da carreira de Virginia, conta um dia na vida de Clarissa Dolloway ambientado logo depois da Primeira Guerra Mundial. O título inicial era “As Horas” e fazia uma referência direta ao tempo da narrativa na vida dessa mulher que passa o dia preparando mais uma de suas festas. Virginia narra esses preparativos com uma riqueza de detalhes impressionante e vai misturando o real com o abstrato com uma sutileza tal que é como se estivéssemos vivendo aquilo tudo.

É tão intenso que é impossível não sentir junto com Clarissa e Virginia a angústia dos silêncios, as feridas que se abrem com a chegada de seu primeiro amor para a festa, a lembrança dos sonhos que se perderam, e até as alucinações e esquizofrenia com o amigo que morreu combatendo na guerra. Tudo isso misturado vai desenhando uma espécie de auto-retrato da autora que se sentia aprisionada às convenções e às consequências inevitáveis de suas escolhas.

O objetivo da personagem é fazer com que as pessoas saiam de sua festa com a sensação de que viver vale a pena ao mesmo tempo em que expõe a prisão que é a tendência que todos temos de nos adaptarmos à circunstâncias e à convivência social e a um mundo de aparências muito diferente do que desejamos realmente. E é aqui a minha maior identificação com Virgínia e Clarissa: a eterna luta contra as circunstâncias.

Essa personagem poderia ser qualquer mulher, porque todo o emaranhado de sentimentos, sonhos e frustrações de todas as mulheres estão presentes na descrição desse dia, dessas horas na vida de Mrs Dolloway.

Impossível não se identificar, impossível não gostar.

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Na versão ebook só encontrei em inglês. Mas no site da editora Nova Fronteira é possível encomendá-lo por um preço bem acessível, com tradução de Mario Quintana.

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Também estão participando da brincadeira a Luciana do Eu Sou a Graúna, a Tina do Pergunte ao Pixel, a Renata do As Agruras e as Delícias de Ser, a Rita do Estrada Anil e a Marília do Mulher Alternativa. Mais alguém?

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30 livros em um mês — A série!

O desafio, brincadeira ou meme chegou a mim através da querida Luciana Nepomuceno, do Eu Sou a Graúna (que por sua vez ficou sabendo através da Tina Lopes, do Pergunte ao Pixel), e propõe escrever 30 dias seguidos sobre os livros que mais te marcaram durante a vida. Nada fácil. É como mergulhar em cada um deles de novo e cada mergulho só pode durar um dia. Felizmente não é ler 30 livros em um mês e ainda escrever sobre eles. Seria impossível. É uma viagem através das melhores viagens que fizestes no mundo da leitura.
Decidi aceitar o desafio e até já divulguei nas redes sociais para incentivar mais pessoas a fazerem o mesmo. A Luciana e a Renata Lima do As Agruras e as Delícias de Ser começaram no dia 23 e já estão no segundo livro. Participam também da brincadeira Ritado Estrada Anil, a Marília do Mulher Alternativa. Meu ritmo é um pouco diferente. Então estou anunciando primeiro o desafio hoje e só começo pra valer amanhã, dia 25 de agosto.
Na medida do possível postarei o livro com a imagem da capa, além do meu comentário uma breve sinopse e se estiver disponível também o link para download de sua versão ebook. Afinal, assim como o cinema, a minha intenção é incentivar as pessoas a lerem e não custa aproximá-las ao máximo desses trinta livros e suas histórias.

Então, valendo: Um mês, 30 livros:

Dia 01 — O livro mais querido de todos os tempos

Dia 02 — Um livro que você não gosta

Dia 03 — O livro favorito da sua infância

Dia 04 — O primeiro livro que lhe fez chorar

Dia 05 — Um livro que lhe faz sorrir

Dia 06 — Um livro do seu autor favorito

Dia 07 — Um livro que você odiou mas teve que ler para a escola

Dia 08 — O livro mais assustador que você já leu

Dia 09 — O livro mais triste que você já leu

Dia 10 — O clássico favorito

Dia 11 — O livro favorito com animais

Dia 12 — O livro favorito de ficção científica

Dia 13 — Um livro que te faz lembrar de alguma coisa, um dia

Dia 14 — Um livro que te faz lembrar de alguém

Dia 15 — O livro favorito dos feriados e folgas

Dia 16 — O livro favorito que virou filme

Dia 17 — Um livro que é um prazer culpado

Dia 18 — Um livro que ninguém esperaria que você gostasse

Dia 19 — O livro de não ficção favorito

Dia 20 — O último livro que você leu

Dia 21 — O melhor livro que você leu este ano

Dia 22 — Livro favorito você teve que ler para a escola

Dia 23 — O livro que você leu mais vezes durante toda a vida

Dia 24 — Sua série de livros favorita

Dia 25 — Um livro que você odiava mas agora ama

Dia 26 — Um livro que lhe faz adormecer

Dia 27 — A história de amor favorita

Dia 28 — Um livro que você pode citar de cor

Dia 29 — Um livro que alguém leu pra você

Dia 30 — Um livro você ainda não leu mas quer

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Estou pensando no post de amanhã sobre o meu livro mais querido de todos os tempos e já estou em dúvida…

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