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Podem me chamar de barraqueira, não vou contemporizar

Sobre as feministas más e as de ‘bom termo’ e a tentativa de nos dividir

Pensei muito antes de escrever sobre essa polêmica das ‘feminazis’, mas não acho correto me omitir vendo outras feministas de posicionamento muito semelhante ao meu sendo atacadas covardemente por blogueiros machistas que fingem apoiar a nossa luta. Pensei, não ponderei e vai na forma de desabafo mesmo. No final tem a lista de textos já publicados sobre o assunto.

Quando me formei jornalista, minha monografia de conclusão da graduação versava sobre opressão de classe sofrida pelos jornalistas. Existe no marxismo (vou simplificar para que qualquer um/a entenda) a citação de um fenômeno chamado de reificação, que trata da opressão de classe sofrida e negada/ignorada por determinadas categorias que supostamente já tenham atingido a consciência de classe. O fenômeno da reificação é mais facilmente observado entre profissionais liberais (advogados, médicos, jornalistas, músicos, etc.), que por não serem assalariados e/ou receberem remuneração um pouco mais condizente com o esforço diário empregado no trabalho, se acham livres da exploração, mais valia, etc., e por consequência, livres da opressão de classe.

Mas por que estou falando em reificação e opressão de classe quando o assunto é a polêmica com as feministas? Simples. A reificação pode ser observada também na consciência de gênero entre as feministas. Algumas de nós já militam há tanto tempo e estão tão escoladas no machismo e principalmente no machismo da esquerda (muito mais cruel e perverso), que se acham livres da opressão de gênero. Se acostumaram a ‘dar pinotes’ para não se deixar oprimir que já não percebem mais quando veem um cabresto (desculpem-me, mas é esse mesmo o termo) adornado por flores.

A polêmica sobre as ‘feminazis’ – termo que se refere à mulheres sexistas que pensam em “exterminar” os homens (oi?) – começou com a publicação de um comentário pelo Luis Nassif em seu portal. Ele disse que publicou por desatenção, mas não apenas não excluiu o comentário como o transformou em post, debochou das feministas que reclamaram, ofendeu e quando finalmente foi pedir desculpas, reforçou seu ataque. Não tenho dúvidas sobre o entendimento do Nassif quanto ao termo ‘feminazi’, já que ao se desculpar ele cita “feministas de bom termo” (criando clara e intencionalmente um cisão) como seu oposto. Ou seja, para o Nassif e para todos aqueles que estão se sentindo incomodados com essa discussão, ‘feminazi’ virou sinônimo de feminista radical.

Os chamados blogueiros progressistas estavam todos inquietos, vendo Nassif ser criticado implacavelmente por todas as feministas e muitos outros homens solidários à nossa luta. Tentavam contemporizar, mas não conseguiam defendê-lo abertamente e Nassif, do alto de sua arrogância, não admitia o erro e nem se desculpava. Eis que surge o Idelber Avelar escrevendo sobre a busca do feminismo dócil e dá aos amigos de Nassif os argumentos para defendê-lo. Imediatamente surge a cavalaria de Nassif capitaneada por Rodrigo Vianna e Eduardo Guimarães atacando Idelber e mudando o foco da polêmica para o encontro dos blogueiros progressistas, e clamando pela re-união de todos deixando para lá questões menores como essa das feministas (interpretação muito radical dessa feminista tresloucada aqui). Nassif – o magnânimo – imediatamente liga para alguém mandando avisar via tuíter que ainda essa semana chamará a Marcha Mundial de Mulheres (feministas de bom termo?) para conversar e abrirá espaço em seu portal (esse é o cabresto adornado por flores).

A tática de guerra mais antiga do mundo: dividir para conquistar. Isola-se as feministas radicais e chama-se as de bom termo oferecendo generosamente um espaço numa vitrina. As feministas de verdade, as que fazem o certo apoiando os valorosos homens, blogueiros progressistas, guerreiros e cavaleiros da liberdade serão ouvidas e respeitadas. As barraqueiras histéricas e insensatas, bruxas más e divicionistas da esquerda como a Lola Aronovich, Cynthia Semíramis, eu e mais meia dúzia ficaremos berrando e esperneando até cansarmos e em breve alguém nos dirá: Chega de “mimimi”. Não acho correto o que estão fazendo e fico muito surpresa em ver mulheres contemporizando e defendendo esses absurdos. A pergunta que não quer calar: A quem interessa dividir as feministas?

Podem me chamar de feminazi, barraqueira, divisionista e mais o que for. Não vou me calar diante desses machos retrógrados (progressista é um apelido de mau gosto) e blogueiros tubarões. Se dizem imprensa alternativa, mas se comportam como a grande imprensa.  Espero sinceramente que as feministas de ‘bom termo’ – assim chamadas por Nassif  em seu pedido de desculpas (sic) – tenham claro tudo isso na hora em que forem chamadas à ‘vitrina do bom senso’. E lembrem-se que nenhum desses progressistas deu espaço à campanha pelo fim da violência contra mulher, com exceção do Azenha (embora a postagem tenha sido da Conceição Oliveira).

Meu nome é resistência, leia-se mulher!

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Nota: Desculpem-me por tantos chavões, mas ao afirmar posições eles são inevitáveis.

Nota 2: O foco principal do assunto continua sendo o machismo finalmente aflorado de um dos maiores blogueiros do país.

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Segue a lista de alguns dos principais textos publicados na blogosfera sobre o assunto:

Feminazi: ignorância a serviço do conservadorismo – Cynthia Semíramis

Como falar bobagens e ser publicado num blog famoso – Lola Aronovich

Progressistas, progressistas,mulheres a parte – Marília Moschkovich

A agressividade como ferramenta de auto-afirmação – Lola Aronovich

“Socorro! Não sou machista, mas as feminazis mal-comidas estão me patrulhando” – Alex Castro

A quem interessa comparar feministas a nazistas? – Srta. Bia

Blogosfera progressista, feminismo e polêmicas – Conceição Oliveira

A nova blogosfera e o episódio com as feministas – Luis Nassif

Nassif pede desculpas às feministas de bom nível – Lola Aronovich

A busca incansável por um feminismo dócil, ou, não é de você que devemos falar – Idelber Avelar

Nassif e a esquerda que a direita gosta – Rodrigo Vianna

A quem interessa desagregar a blogosfera – Eduardo Guimarães

Algumas reflexões sobre a “blogosfera progressista” – Hugo Albuquerque

Sobre o debate Nassif, feminazis, Idelber e blogs progressistas – Rogério Tomaz Jr.

Feminismo não é partido! – Danilo R. Marques

Pelo direito de ser braba – Bete Davis

Discussão sobre feminismo: a esquerda e suas divergências – Cris Rodrigues

Os Blogueiros Progressistas, teorias da conspiração e Feminazis: Da “docilidade” à estupidez – Raphael Tsavkko

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