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O dia em que encontrei Janis Joplin

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Na primavera de 2012 eu morava no Rio de Janeiro e trabalhava em Niterói. Num dia de semana comum peguei a barca ali na Praça XV para ir trabalhar _era o meio mais rápido de chegar. Dia ventoso, sol entre nuvens e de temperatura agradável estava devagar, sem pressa, e podia deixar o povo mais apressado passar na minha frente no desembarque na Praça Arariboia.

Sempre ando observando o chão e o horizonte concomitantemente, e quando olho o chão observo também os pés e os sapatos das pessoas. Passa por mim uma mulher com “pés de colona” _unhas grandes e sujas, calcanhares rachados e sujos_ numa sandália de couro bem desgastada pelo uso. Vou subindo, observando a pessoa toda. Vestido riponga, casaco leve de batique. Cabelão bem grisalho, solto, limpo, nem liso e nem crespo e um pouco embaraçado. Oclão redondo lente rosa escuro. Viro o rosto pro outro lado com sua imagem gravada nos olhos. Mas aí, bateu. A imagem vista ali correspondia a uma imagem antiga da memória.

Pensei: essa mulher parece a Janis Joplin. Uau! Olhei de novo, observei um pouco mais e fiz uma conta rápida de cabeça para saber se a idade que aquela mulher aparentava ter correspondia com a idade que Janis teria se não tivesse morrido de overdose em 4 de outubro de 1970. Correspondia. Janis teria 69 anos completos e aquela mulher aparentava ter exatamente isso. Pensei de novo: é a Janis! A essas alturas eu já estava seguindo-a com o passo mais apressado, indo inclusive na direção contrária a que deveria seguir, com a mão já esticada no ar para lhe tocar.

Estávamos diante do Arariboia e olhei pra ele ali no alto questionando-lhe: “Poxa, como assim? A Janis aqui em Niterói e ninguém percebeu? Quantas vezes ela passou aqui diante da tua tanguinha, Ara? Em que direção ela vai, diz aí? Com que frequência vai ao Rio de Janeiro? Será que vai a Saquarema visitar Serguei? Será que eles continuam aquele romance nunca comprovado?”. Arariboia me fez um sinal discreto para que me calasse e deixasse Janis em paz, em sua vidinha pacata e anônima. Consenti. E a mão esticada no ar desistiu de tocar seu ombro no instante derradeiro.

Deixei-a assim. Janis Joplin continua tranquila lá em Niterói, e guardo com carinho na memória o dia em que a encontrei ali no desembarque das barcas, do outro lado da poça.

#JanisNãoMorreu #4out

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