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A esquerda e a criminalização da luta

“Ferdinand Lassalle em seu drama Franz von Sickingen
faz um de seus personagens dizer:

Não indiques apenas o fim,
mas mostra também o caminho
porque o fim e o caminho
tão unidos estão
que um muda com o outro
e com ele se move
– e cada novo caminho
revela um novo fim.
(trecho de A moral deles e a nossa – Trotsky, Leon)

Liberdade Guiando o Povo_Eugene Delacroix

Liberdade guiando o povo…, de Eugene Delacroix

Não nascemos ontem. Nos dois sentidos de não nascer ontem. Estamos, a esquerda, há muito tempo na luta e não pagamos de otário. Sabemos o que nos espera. O inimigo contra o qual lutamos é o mais vil e perverso e usa todas as armas, incluindo preferencialmente as desonestas. O inimigo da esquerda é desleal. E o que nos diferencia dele não é e não pode ser apenas o objetivo final e nem o discurso, sob pena de nos desconstituirmos e sermos aniquilados ainda durante a luta. Sim, nosso objetivo é nobre, o mais nobre de todos, mas não é suficiente. O que nos diferencia do inimigo é a nossa moral, são os meios pelos quais chegaremos ao nosso nobre objetivo, são as armas que usamos no dia a dia da luta.

É quando esquecemos da moral que nos diferencia do nosso inimigo que passamos a colaborar com a direita, e não quando exercitamos o pensamento crítico, o caminho mais certo na trilha até o nosso nobre objetivo. Sim, o caminho da crítica e autocrítica é penoso e pedregoso para a esquerda, mas não há outro, porque o inimigo age dentro de nós, ele conta com nossos sentimentos individualistas e egoístas, com o processo de reificação (quando achamos que superamos a opressão por sermos conscientes de nossa classe e condição) e, principalmente, com nossas divisões internas.

Há momentos mais complicados da conjuntura. Estamos em um deles. É quando precisamos lutar contra as opressões todas reforçadas pelo fascismo. O fascismo se alimenta da histeria coletiva, e já sobram listas de “comunistas” a serem combatidos (acho que a palavra que gostariam de usar seria “eliminados”) e não tarda o momento de livros proibidos e queimados em escolas e praças. É preciso atenção e vigilância constante, principalmente entre nós. Momentos críticos são também períodos de depuração, onde os titubeantes se tornam agentes de manobra do fascismo, vacilantes se tornam inquisidores e denunciantes, e ingênuos se transformam em gasolina nessa fogueira. Mais do que isso: Sempre haverá o dedo apontado para alguns esquerdistas dizendo que não é o momento de criticar, que é preciso união ou estaremos colaborando com o inimigo.

A questão é que calar a crítica, o pensamento crítico, é a onda fascista nos atingindo e influenciando. O pensamento crítico é o sangue da esquerda. Sem ele não existimos, não somos capazes de ler a conjuntura e nos posicionarmos nela do lado correto. É quando calamos a crítica, o pensamento dissonante, que colaboramos com o inimigo e nos perdemos no caminho. É onde estamos agora, perdidos. Mais do que união é preciso que todas as vozes dissonantes se ergam contra o inimigo comum, que pode estar inclusive entre nós. Será apenas com todas as vozes críticas ativas falando juntas que teremos o caminho apontado para trilharmos.

É o caminho que nos define.

É preciso se levantar contra toda e qualquer arbitrariedade. Não, não é de hoje que lutadores são vítimas do Estado (pretos e pobres principalmente), mas é quando as arbitrariedades chegam aos formadores de opinião, à elite intelectual (odeio essa expressão, vou usá-la apenas como identificação) e lideranças de movimentos sociais que percebemos o quanto estamos todos em risco. Muitos de nós alertamos a partir de 2013 que o fascismo iria crescer, que a repressão e perseguição não se resumiria aos anarquistas, autonomistas e black blocs. A esquerda partidária se perdeu quando 1) não se solidarizou com os 23 presos do Rio, com os meninos que confessaram (provavelmente forçados) o atentado que vitimou o cinegrafista Santiago Andrade da TV Bandeirantes na peça jurídica mais absurda que já tinha visto até então, com a Sininho transformada em inimiga número um do Estado (por favor, né?), com o Rafael Braga Vieira condenado e preso por porte de desinfetante e ainda 2) ergueu a voz para condenar a Tática Black Bloc, a mesma que estava evitando que professores, estudantes e sindicalistas apanhassem da PM nas ruas em protestos legítimos reprimidos como se estivéssemos numa ditadura. Perdemos o bonde da história, esquecemos de que lado e contra quem lutamos.

Agora, veja só, estamos de novo nas ruas lutando pela porra do Estado, aquele mesmo que é instrumento do inimigo para nos oprimir, para que as regras válidas até aqui (mesmo que ignoradas contra nós) não sejam suspensas. Estamos aí defendendo os vacilões, titubeantes e ingênuos que ontem negaram sua defesa a outros lutadores da esquerda porque sabemos que é a moral que nos difere dos inimigos, e não os vacilos, titubeações e ingenuidades de alguns. Sabemos que pagamos com a vida quando da suspensão da legalidade e dos direitos civis. Esqueceremos os vacilos? OBVIAMENTE NÃO. Mas isso não nos impedirá de lutar por qualquer oprimido que esteja em risco diante do Estado e do inimigo.

Isso tudo para dizer que o discurso de esquerda, aquele que reivindica nosso nobre objetivo e nossa luta, sempre foi criminalizado. Não começou hoje. Ou alguém esqueceu a investida contra o MST no início dos anos 00? A questão é quando isso é motivo para levantarmos do sofá e irmos para a rua e quando não. Se a condenação de um negro inocente por porte de desinfetante ou a prisão e processo contra 23 autonomistas que estavam lutando, antes de nós, contra o fascismo não é motivo para ir à rua, fatalmente teremos que ir à rua por nós mesmos depois. Se der tempo, claro.

Entendeu o que nos diferencia e o que nos une? Bueno, se nem o Trotsky com o primoroso A moral deles e a nossa  conseguiu, não seria eu, né? Mas fica a tentativa. E o alerta do Brecht*.

 

p.s.: Mesmo que o PT consiga capitanear os vermelhos (ou anti verde-amarelos) que foram às ruas  em apoio ao governo e evitem o pessegamento de Dilma, isso não encerra a onda fascista. Muito pelo contrário. E serão os lutadores sociais, e não as lideranças, que pagarão esse pato, e que enfrentarão a fúria e histeria dos fascistas nas ruas _com o apoio do Estado, é bom lembrar.

p.s.2: Qualquer que seja o desfecho dessa conjuntura, serão os oprimidos que levarão a pior, disso não há dúvida.