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Declaração de voto

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Muitas pessoas estranham o fato de alguém com uma razoável consciência política como eu, que possui uma linha ideológica e que sempre se manifesta em questões espinhosas, não ter se manifestado sobre seu voto. Para bem da verdade já declarei o meu voto e vou reafirmá-lo, mas antes exporei os motivos, ou melhor, as premissas necessárias para que eu votasse nessa eleição.

Eu votaria no candidato a presidente que assumisse publicamente o compromisso de abrir os arquivos da ditadura militar – pondo fim ao luto inacabado das famílias que ainda sofrem torturadas sem saber o que aconteceu com seus entes – e usar toda a sua influência para punir os torturadores e assassinos.

Votaria no candidato que assumisse sem meias palavras a defesa da legalização do aborto, por ser este um direito das mulheres, e o compromisso de colocar a máquina do Estado a serviço da coibição e prevenção da violência contra a mulher.

Votaria no candidato que assumisse a defesa do casamento gay, dos direitos civis dos homossexuais e da punição exemplar da homofobia.

Votaria no candidato que afirmasse a laicidade do Estado e não ficasse fazendo média com lideranças religiosas e abrindo brechas para preconceitos e difusão de ignorâncias históricas.

Votaria no candidato que afirmasse fazer a reforma agrária imediata, sem contemporizações ou negociações com ruralistas assassinos e escravocratas.

Votaria no candidato que se comprometesse a expulsar as madeireiras e os ruralistas já da Amazônia, porque grileiro não tem direito a indenização e nem explicação, tem é que responder a processo por crime contra a humanidade.

Votaria no candidato que tivesse a coragem de dizer que o Bolsa Família, apesar de ter tirado muitas pessoas da miséria absoluta, é uma esmola e que é preciso ir além, dando a dignidade e a oportunidade dessas pessoas proverem seu sustento com o seu próprio trabalho.

Votaria no candidato que assumisse a educação como prioridade primeira, porque só ela é capaz de livrar as pessoas da pobreza e da miséria absoluta, mesmo correndo o risco das pessoas aprenderem a pensar sozinhas, porque esse é o compromisso de todo e qualquer ativista de esquerda: libertar os trabalhadores de todas as formas de opressão.

Votaria no candidato que assumisse o compromisso com um sistema econômico baseado na solidariedade e distribuição de riquezas, na taxação das grandes fortunas e na desoneração dos pequenos e médios produtores, porque eles empregam mais e melhor.

E votaria no candidato que assumisse o compromisso de discutir o orçamento da união e as obras a serem feitas diretamente com a população através de grandes conselhos populares, para por um fim no balcão de negócios entre governo e parlamentares, construindo uma democracia participativa real e palpável a todos os cidadãos.

Disse “votaria” porque não adianta sequer esse candidato existir. O tal sistema eleitoral do tal estado democrático de direito impõe que ao participar de uma disputa se aceite suas regras. Tanto faz os compromissos assumidos, esse candidato teria que negociar os seus compromissos em nome das alianças, da viabilidade eleitoral da candidatura e mais tarde em nome da maldita governabilidade. Hoje tivemos a prova do que a preocupação em garantir votos e/ou a governabilidade faz com os compromissos assumidos por um candidato. Joga-se no lixo!

Democracia não é apertar um botão a cada dois anos. Não sei vocês, mas eu cansei de fazer concessões com meus princípios, sonhos e utopias para escolher dentre os candidatos que se apresentam, o menos pior. Quero poder sonhar livremente, sem me sentir desrespeitada porque a bandeira que o meu candidato defendia, e me fazia sentir representada e incluída dentro de sua candidatura, foi rasgada na primeira curva.

Por fim, votaria num candidato que mantivesse a ética e os princípios acima de alianças e barganhas eleitorais.

Por essas e por outras, eu voto NULO.

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