Arquivo da categoria: poesia

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
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Adélia Prado

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#FimDaViolenciaContraMulher

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Meu esconderijo nesses dias…

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Portas abertas,
respiro de dentro…
Corredores infinitos de um pequeno lar colorido.
Labirintos decorados…
Nesta casa de vento e sonhos,
sopram cantos nos cantos.
Sua moradora é sua morada.
Quando vai sair, leva seu labirinto na bolsa…
quando chega sopra a chave e entra.

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Arte e texto de Madu Lopes


Da série “Esse texto parece meu”

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O texto de Florbela Espanca é apaixonante. Quanto mais leio, mais me identifico e penso que ela parece ter tomado minha alma emprestada para escrever. Mesmo que pareça pretensão, é assim que sinto.
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“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!”
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(trecho de carta a Guido Battelli)
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Florbela Espanca foi uma poetisa portuguesa, precursora do movimento feminista em Portugal. Batizada Flor Bela Lobo, nasceu filha ilegítima em 8 de dezembro de 1894, Vila Viçosa. Escreveu seu primeiro poema aos sete anos e quando ingressou no ensino primário passou a assinar o sobrenome do pai. Casou-se no dia em que completou 19 anos. Divorciou-se em 1921 e suicidou-se no dia em que completou 36 anos, em 1930 em Matosinhos, ingerindo dois frascos de Veronal.
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De ontem em diante serei o que sou no instante agora

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De ontem em diante serei o que sou no instante agora
Onde ontem, hoje e amanhã são a mesma coisa
Sem a idéia ilusória de que o dia, a noite e a madrugada são coisas distintas
Separadas pelo canto de um galo velho
Eu apóstolo contigo que não sabes do evangelho
Do versículo e da profecia
Quem surgiu primeiro? o antes, o outrora, a noite ou o dia?
Minha vida inteira é meu dia inteiro
Meus dilúvios imaginários ainda faço no chuveiro!
Minha mochila de lanches?
É minha marmita requentada em banho Maria!
Minha mamadeira de leite em pó
É cerveja gelada na padaria
Meu banho no tanque?
É lavar carro com mangueira
E se antes um pedaço de maçã
Hoje quero a fruta inteira
E da fruta tiro a polpa… da puta tiro a roupa
Da luta não me retiro
Me atiro do alto e que me atirem no peito
Da luta não me retiro…
Todo dia de manhã é nostalgia das besteiras que fizemos ontem

O Teatro Mágico

Do blog Inquietudine