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Jantar de dois

o cardápio… e um pouco da arrumação…

Todo casal passa por crises. Até um não-casal-ogro. Eu e o Gilson passamos por momentos difíceis no último mês. Foi osso, uma barra mesmo. Nem sei se já foi, se já superamos. Tudo indica que sim, mas não gosto de antecipar soluções. Vida não tem receita, relacionamento menos. A gente vai vivendo e vendo no que dá, e faz reajustes onde é preciso, repensa o que é preciso, tenta olhar pelo ângulo do outro, muda de posição. Faz o que é possível.

Essa madrugada, de 14 para 15 de abril, completamos dois anos juntos. E eu decidi comemorar. Queria dizer a ele que foram os melhores anos da minha vida. Principalmente o último, desde que reunimos o que é a nossa família ogra e torta — nós + Calvin + Lalá. Para a comemoração pensei num jantar só nosso, já que todo dia é dia de #dinojantar e fazemos desse momento celebração para os quatro.

Queria num jantar regado a vinho e à luz de vela, com aromas e sabores, como ainda não tínhamos tido. Comprei uma peça de alcatra e deixei marinando desde domingo com sal, pimenta, azeite, cebola, pimentão + muito alho e muito alecrim (alecrim fresco faz toda a diferença num marinado, acreditem em mim). Coloquei para assar com todo o marinado, sem papel alumínio, em temperatura média. Quando a casa estava tomada pelo cheiro do assado, tirei a carne do marinado e recoloquei no forno para criar uma leve crosta, sem secar muito. Bati parte do marinado com uma maçã, meio copo de vinho e duas colheres de farinha no liquidificador para o molho — opcional.

Já tinha feito o molho pesto em casa, para o espaguete, porque não achei por aqui para comprar pronto (receita do molho pesto aqui) e na hora era só cozinhar a ‘pasta’. Para a salada pedi dicas para quem entende mais do que eu (Lu e Re) e me disseram: salada crua, crocante. Aceitei o conselho. Salada de alface, repolho roxo cru cortado fininho, cenoura e queijo canastra ralados e croutons (não tinha, então comprei torrada comum e quebrei três em pedacinhos pequenos) temperada com sal, azeite e molho de mostarda. Ficou tão delícia que poderia ser só ela o jantar, não fôssemos nós os ogros que somos.

Usei coisas que nunca uso no dia a dia por causa do #dinofilhote — toalha branca, taças, pratos especiais — e arrumei a mesa com carinho. Não achei velas para compor a mesa em OuCí, tive que improvisar… Comprei um copo grosso, uma vela de sete dias (sim!!!), sal grosso e umas ervas coloridas e cheirosas e montei o arranjo. Contando parece macumba, mas não era. Durante o jantar, ao som de jazz, revelei o motivo de tanto esmero. Renovar minhas intenções, dizer o quanto fui feliz com ele nesses dois anos e que pretendo continuar sendo por muito mais tempo ainda. Ele perguntou: Pra sempre? Respondi: Enquanto formos felizes. Tinha sobremesa (torta de maçã) na geladeira, mas nem sentimos falta.

Bebemos a última taça de vinho da noite ouvindo a nossa música, e entre sorrisos, beijos, tesão a certeza de que enfrentar as dificuldades e tristezas da vida é mais fácil nos braços um do outro.

Foi mais ou menos assim nosso jantar de dois…


O tempo, e o meu tempo

tempo

Não é segredo pra ninguém meu profundo e sério relacionamento com a depressão. E não posso mentir, esse relacionamento se construiu/constituiu a partir da gravidez do Calvin. Os piores momentos que vivi, óbvio, não tem a ver com a existência do Calvin, mas foram decorrência da gravidez dele. Falta de estrutura minha, talvez. Falta de estrutura do mundo ao redor para nos abarcar… Quem sabe tudo junto.

Lembrar desse tempo é como descer ao inferno. É como tentar nadar no lodo. Não há forças, não há nenhuma mão estendida. Deste lugar ninguém te puxa para te dar colo ou mesmo para ter dar fôlego para mais uma braçada. Impossível pensar noutra coisa senão no fim.

Vivi isso várias vezes. Tantas que nem sei dizer como estou aqui. Como que ainda respiro. A sensação de sufocamento é tão forte que se torna física. O peito dói do esforço para respirar, para continuar vivendo mais um segundo, um minuto, uma hora. Quem sabe depois as forças apareçam…

Foi nesse lodo que aprendi a sobreviver. Criei uma tática de sobrevivência — justo eu que sempre me pensei desapegada da vida pelas tantas vezes que pensei em suicídio –. Não entrar em desespero, acumular forças, ficar quietinha, ir devagar, ou ficar, quase imóvel, quase vencida, até um momento de menor densidade do lodo, onde as poucas forças fossem suficientes para arriscar braçadas, e seguir, como se o tempo não existisse.

Sempre me ocorreu que essa talvez fosse uma estratégia indigna, a de adiar o inevitável. Tem dignidade em manter-se vivo assim? Ainda não sei. Peguei o tempo e o moldei do meu jeito. Passei a viver nesse tempo moldado, no meu tempo. Mas ele, o tempo aprisionado e moldado, deixou suas marcas.

É fato que muitas alegrias e encontros vieram depois desse(s) tempo(s) horrível(is), e também tive tempos de calmaria. E se não fosse a indignidade do meu apego não as saberia. Mas… sempre me pergunto: E se acontecer de novo? E se eu cair no lodo novamente?

O mesmo tempo que ameniza, faz esquecer, também aprisiona e causa ferimentos incuráveis… Num momento acho que estou segura, ainda dentro do meu tempo, e nem vejo o cerco se fechando.

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Selo Inconveniência

 Mas pode chamar também de desajuste ou deselegância

Sem título-1

Foi uma bobagem. Ínfima. Mixaria, mesmo. Mas doeu. Me trouxe de volta aquela sensação de não pertencimento, de desajuste ao mundo e às pessoas, com suas relações cheias de códigos e etiquetas não publicados, mas que ~obrigatoriamente~ precisam ser aprendidos. É aí que não me encaixo. Não gosto da obrigação e sou, sim, inconveniente.

Quebro os códigos e os protocolos, assassino a etiqueta. E quando amigues, com razão, me puxam a orelha por causa desses deslizes eu me magoo. Não porque não possa ser criticada, óbvio que posso, e costumo refletir sobre as críticas, mesmo que reaja mal no momento. Mas esses puxões de orelha doem no coração. Me lembram o quanto não pertenço a esse mundo e nem domino os códigos de boa convivência.

Não é de todo ruim ser colocada no meu lugar. Desde que eu tivesse um lugar… 😦

O puxão de orelhas de hoje foi por uma mixaria. Acho até que poderia ter passado batido… Mas não passou. E doeu tanto, tanto… Estragou meu dia. Preparei meu café da manhã aos prantos e assim, aos prantos, o tomei. Fato que melhorei muito depois que comi. Então, por favor, ao me verem conectada entre 9h e 15h, lembrem de me perguntar se já comi? 😛

Enfim… Mais desagradável quando faminta. E ainda mais desagradável comendo.

#SeloIncoveniênciaFull


Nem

contemplo o tempo passar por uma fresta do dia, da minha janela — nem dia nem noite, nem claro nem escuro — mais pra escuro, claro.

contemplo o tempo passar por uma fresta do dia, da minha janela — nem dia nem noite, nem claro nem escuro — mais pra escuro, claro.

Dias mornos. Nem quentes nem frios, sem emoção, sem graça, chinfrins mesmo.

Minha melhor amiga que nunca poupou-me de dizer-me as verdades nem sempre acertava o dia para me atirá-las, e num desses dias  — errados, de verdades certas  — me definiu como alguém “nem”. Grávida do Calvin, em silêncio, em crise, abafada, sufocada, ouvi textualmente:  — Tu é do tipo ‘nem’. Nem feia nem bonita, nem alegre nem triste, nem alta nem baixa, nem gorda nem magra… ‘nem’ — desferiu a punhalada, sem ter ideia do quanto suas palavras machucaram e ficariam ecoando.

Eu estava em dias assim, mesmo, quando ouvi isso. Mas estava mais para triste, mais pra baixo, mais pesada, mais feia. E nunca mais consegui me livrar dessas palavras. Nem quero mais (livrar-me delas), guardo-as com carinho. Alguns dias, como hoje, voltam a doer e, resignada  — justo eu —, visto a palavra que me define e me sinto ‘nem’, com aquela sutil inclinação para um dos lados.

Suporto os dias, tentando administrar as mazelas sem piorar as coisas. Procrastinando é meu verbo, assim, no gerúndio. Ausência meu substantivo. E nem o advérbio da minha existência. Celular no silencioso sempre. Nunca atendo o telefone de casa. Quando toca a campainha finjo que não ouvi. Nem viva, nem morta, mais para quase viva. Observo a passagem do tempo por uma fresta do dia, da minha janela. Nem dia nem noite, nem claro nem escuro. Com uma sutil inclinação para o escuro, claro.

Quase viva, sem graça, morna. Nem.


Meu lado lua

lua

Há uma sombra que persegue meus dias. Desde criança a vejo, sinto, pressinto. Nem sempre desagradável. Em muitos momentos me deixei acolher por ela, a salvo dos olhares invasivos e do julgamento alheio, que na verdade eu mesma  me impunha.

Cresci com ela, mantendo uma distância razoável, segura, que só era interrompida em extremos de necessidade. As crises eram constantes. O desajuste com o mundo, o descompasso com o tempo, os embates com os outros… Tudo tão doloroso e aos solavancos…

Fui perdendo o controle dessa distância e me misturando com a sombra. Ficando meio parecida com a lua, que dependendo do dia maior e mais brilhante ou menor e mais opaca. Chegando a dias de um completo nada.

As fases de escuridão foram ficando maiores  e deixando crateras a cada crise mais profundas. Fui aprendendo a lidar com as sequelas. Era isso ou não voltar mais a crescer, brilhar. Cada volta foi sendo mais bonita. Proporcional à dor sofrida com os solavancos da ida e da volta. E a beleza sempre me iludia que os tempos sombrios haviam acabado…

Tanta similaridade com a lua não é à toa e nem impune. Me confesso um pouco cansada desse eterno girar, girar… A única diferença é não ter periodicidade, não ter dia para escurecer ou iluminar. Não há certeza dos tempos, e a sombra me é tão mais segura e familiar…

Os dias são quentes e ensolarados aqui no Rio de Janeiro e justo por isso ando recolhida, a salvo de olhares invasivos e julgadores e do excesso de claridade. Confortável, aguardando a próxima fase.


Música como tradução

Para o Gilson.

eu + gilson

Acho que tive sorte quando desembarquei no Rio de Janeiro. Vim pra cá na incerteza, sem saber direito o que fazer nem quanto tempo ficaria nem se ficaria. Não tinha nenhum alvo ou propósito. Não mirei, não atirei, não me atirei. Mas acertei.

Nessa cidade que me endurece a cada dia e onde estou há mais de um ano, encontrei um amor tranquilo, desses de calmaria que invadem devagar, que eu nem sabia que queria. Parceria de vida, nos planos, em sonhos de futuro, sonhos de mundo, mas principalmente parceria no dia a dia. Nem preciso dizer que ele tem uma enorme paciência comigo, que atura a oscilação do meu humor com persistência, e sei que não é por concessão.

E justamente por ser um parceiro de sonhos, não nos apegamos a datas comerciais ou cristãs nem trocamos presentes. Manifestamos nosso afeto em pequenas gentilezas e muitas grosserias, daquelas que só somos capazes diante de pessoas com quem nos sentimos completamente à vontade. E nos sentimos em casa um com o outro, um no outro. Casa-abrigo, casa-desconforto, casa-lar, casa-lar-ogro, casal ogro.

Apesar de não sermos um casal comum, mantemos algumas coisas de casal. Tipo ter uma música, uma canção que nos representa e nos canta, nos encanta. Cruzada, do Tavinho Moura e Márcio Borges se escolheu sozinha, nós apenas a reconhecemos. Então, segue a letra que traduz nossa parceria.

Antes clica no vídeo para ouvir essa lindeza.

Cruzada

Não quero andar sozinho por estas ruas Sei do perigo que nos rodeia pelos caminhos Não há sinal de sol, mas tudo me acalma No seu olhar

Não quero ter mais sangue morto nas veias Quero o abrigo do abraço que me incendeia Não há sinal de cais, mas tudo me acalma No seu olhar

Você parece comigo Nenhum senhor te acompanha Você também se dá um beijo, dá abrigo

Flor nas janelas da casa Olho no seu inimigo Você também se dá um beijo, dá abrigo Se dá um riso, dá um tiro

Não quero ter mais sangue morto nas veias Quero o abrigo do abraço que me incendeia Não há sinal de paz, mas tudo me acalma No seu olhar

Não quero ter mais sangue morto nas veias Quero o abrigo da sua estrela que me incendeia Não há sinal de sol, mas tudo me acalma No seu olhar

Se quiser continuar ouvindo Cruzada, aqui tem uma playlist com todas as versões que encontrei.


Um lindo dia… ♥

[4h54] Neste exato minuto meu dino filhote está completando 17 anos. E se no ano passado eu estava fazendo um esforço enorme nesse mesmo dia para não chorar e não morrer de culpa, ainda que estivesse sendo comoventemente ampara/mimada pelo Gilson, hoje estou com aquele sentimento de realização, de dever cumprido e bem comigo mesma.

Meu dino está roncando (e alto, em função da gripe que resolveu dar as caras), e só de ouvi-lo meu coração aquece. Amanhã acordo cedinho e vou cumprir o rito que me é mais caro desde que ele nasceu… Fazer eu mesma o bolo dele de ‘avinersário’ e ter o prazer de vê-lo se empanturrar com o bolo — ele adora bolo de aniversário, desses com massinha delicada, recheio e cobertura.

cenas de chamego explícito... ♥

cenas de chamego explícito… ♥

Que o dia de todos seja tão bom quanto será o nosso nesse 19 de maio. E cheio de chamego, igualzinho nessa foto que fizemos no último domingo aqui, no novo endereço do Parque Jurassí. 🙂

O “amanhã”, que transformei em hoje…


Carta de intenções a um certo barbudão…

Ou a minha carta de intenções ao barbudão da minha vida

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eu + Gilson

Preciso confessar que tu me atraíste desde o primeiro instante que coloquei os olhos em ti, na calçada da Augusto de Lima quase esquina com a Espírito Santo, no centro de Beagá. Aí, veio o primeiro abraço, a conversa, a cerveja e eu fui gostando cada vez mais da tua companhia. Os dois abraços que trocamos aquela noite foram complementares. Ou deveria dizer continuidade, seguimento um do outro? Aquela sensação ficou guardada, esperando uma outra oportunidade de se manifestar, definir, aflorar.

Lembro de meses depois te descrever para a Renata Lima como alguém muito interessante e foi nesse dia que percebi racionalmente o quanto tu me atraías. Mas eu estava me desenroscando de uma pessoa, enroscada com outra e querendo me enroscar com mais outras duas pelo menos e virtualmente a tua intolerância sempre me incomodou — incomoda até hoje, aliás — e não tinhas o perfil, achava eu, para enroscos virtuais ou para enroscos que começam virtualmente. Tenho imensa dificuldade em lidar com homens com os quais sei ou penso saber interessados em mim. Não gosto de ferir propositalmente e sempre que percebo alguém interessado já sei que é mais fácil manipulá-lo e, embora até saiba e tenha inteligência para fazer, não gosto disso. Está parecendo pretensão, né? Mas eu fiquei com a impressão desde sempre que tinhas muito interesse em mim. O jeito como me olhavas naquela noite em Beagá dizia isso e afinidade política sempre tivemos — e para nós dois essas coisas tem um peso imenso.

Mas nos reencontramos e de novo reencontrei teu olhar interessante e interessado e isso ia ficar quieto em mim sem que eu fizesse qualquer esforço na tua direção — não estou na fase desses esforços e mobilizações –, até tu passares a mão em mim, falando no meu ouvido e esfregando a barba na minha nuca, deixando-as marcadas a ferro no corpo e na alma.

Amo tua voz e o jeito que ela amolece com tesão falando baixinho no meu ouvido. Amo teu raciocínio veloz, a forma como articulas o pensamento e gesticulas as mãos falando expondo teu pensamento. Amo teu abraço e como me sinto aconchegada dentro dele e o jeito como me pegas. Amo tua boca e teu olhar e como eles são meus quando estamos juntos. Amo teus sonhos utópicos, tão iguais aos meus e tão diferentes na forma e nos caminhos e passos. E amo principalmente tua coragem, esse agir com o coração assumindo os temores e os enfrentando de peito aberto, honestamente.

Hoje temos mais do que afinidades políticas. Arriscaria dizer que somos a própria definição de afinidade nesse momento, mesmo e justamente com todas as nossas diferenças. Gosto do teu mau humor matinal, dos teus silêncios e até da tua aparente insensibilidade, de precisares de tempo só para ti — e só o fato de não precisar explicar que também preciso de tempo e tê-lo sem maiores dramas já faz uma diferença gigante.

Mais do que dizer-te como o amo e o que amo em ti, essa é uma carta de intenções, as minhas intenções contigo.

Quero passar muitos dias contigo, tantos quanto o tempo nos permitir ficarmos bem. Quero dias de alegria, lealdade, respeito, mezo gentilezas / mezo grosserias e muito tesão. Quero morar e viver contigo da manhã à noite passando pelos pequenos estresses e ajustes do dia a dia, passando até pelos braços de outras pessoas se for o caso, mas que isso não seja impeditivo para permanecermos juntos.

Quero principalmente que fiques e estejas bem, pleno e tranquilo. É só assim que te quero comigo. Porque eu só ficarei contigo enquanto me fizeres bem.

Lembrando aqui do Tavinho Moura, não é que eu não saiba andar sozinha por essas ruas. Eu não quero andar sozinha. Ou melhor… Não quero andar sem ti. Quero meus passos junto dos teus enquanto houver estrada para nós.


A ilusão da casa

A ideia de não ter casa ou pouso fixo normalmente atrai, pela sensação de “irresponsabilidade” permitida e liberdade. Nunca tive casa (no sentido de lar), mas sempre tive um endereço onde morei a maior parte da minha vida e onde reconhecia cheiros, paredes, pessoas e onde dormia sem sobressaltos. O que não tem sido possível.

Por mais que viver solta por aí tenha uma aura de sedução, não se reconhecer em nada ou ninguém não é fácil. Mesmo que da casa tivesse só a ilusão — me apossando aqui da composição do amado Vitor Ramil para conseguir me expressar — de ter lugar para repousar do mundo e da batalha diária, ela é vital. Pelo menos para pés tão cravados no chão.

Falando em Vitor Ramil, não é de hoje que o apresento a quem encontro pela vida afora. Ele é bem mais que uma inspiração casual para escrever, é o meu compositor preferido. Diferente da ampla maioria dos artistas gaúchos que alcançam fama nacional — ou que objetivam a fama nacional — como seus irmãos mais velhos, Adriana Calcanhotto, Elis Regina, entre outros, o Vitor escolheu morar em Pelotas e mesmo que passe a maior parte do ano viajando, seu pouso, lar, coisas, ficam lá.

Nem todo mundo tem o talento do Vitor e pode escolher onde morar e continuar fazendo, trabalhando no que gosta. Nos meus últimos anos em Pelotas era morar lá ou ser jornalista. As duas coisas juntas mais o Calvin não foram possíveis para mim. Dói muito não estar em Pelotas. Não há outro lugar no mundo onde queira morar ou estar mais do que na Satolep descrita, poetizada e cantada por Vitor (por mais idealizada que seja).

Sua música me traz Pelotas. Me transporto pra lá pelo som da sua voz e na melodia de suas canções. Sinto meus passos pelas ruas úmidas, o cheiro da cidade, vejo as pessoas… A contradição do momento é que quanto mais a saudade aperta menos consigo ouvi-lo. E não ouvir a música do Vitor dói também, torna a vida mais triste, tudo fica menos. Suas canções me trazem a presença do Calvin tanto quanto as do Smiths. O ensinei a gostar dos dois. É nesse misto de “never never want to go home because i haven’t got one anymore” e “o tempo é o meu lugar, o tempo é minha casa, a casa é onde quero estar” que tenho vivido nos últimos meses.

Não posso voltar para Pelotas agora e é lá que está o meu melhor pedaço. Queria poder desembarcar do mundo numa estação da Satolep imaginária do Vitor para me recompor e parar de doer. O “me encontrar” é um luxo com o qual nem sonho mais neste mundo.


A noite mágica

As palavras ainda me faltam. Por mais que as cace não consigo achar os termos exatos para definir tudo o que senti, tudo o que foi o show do Morrissey, ex-vocalista do lendário The Smiths, no último dia 7 de março em Belo Horizonte. Só quem esperou por quase 25 anos por um show que achou que nunca poderia assistir pode (pode, não quer dizer que consiga) chegar perto de imaginar o que foi.

Fui apresentada aos Smiths através de There Is A Light That Never Goes Out quando tinha 14 anos, nos idos de 1986, e foi essa música que me salvou da mediocridade cultural do senso comum. Isso pode parecer meio elitista e arrogante, mas é justo o contrário. Sou proletária, filha de proletários, e se dependesse do que a indústria cultural de massas oferece à minha classe jamais teria ouvido Smiths ou tido acesso a outro tipo de cultura que não a massificada e massificadora. Naquele tempo ou se comprava os discos ou não se ouvia nada diferente do que tocasse no rádio.

Quando fiquei sabendo dos shows do Morrissey no Brasil este ano nem me animei. Sabia que não era pra mim. Além de estar falida, sem casa — I never never want to go home/ Because I haven’t got one/ Anymore — e meio que em trânsito, não imaginava estar em nenhuma das três capitais contempladas para receber o show — Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo.

Foi aí que a mágica começou a acontecer… Morrissey cancelou o show em Porto Alegre e anunciou Belo Horizonte no lugar. A grana que esperava receber (pela qual ainda espero) para poder sair de BH não caía nunca na conta (da Renata, né… porque eu sou tão marginal que nem conta em banco tenho) e eu fui adiando a partida, adiando… Um amigo de BH com quem não falava há alguns meses (ele estava sumido, passeando no subúrbio do senso comum — aquele mesmo do qual o Smiths me salvou), voltou a estabelecer contato e no meio de uma conversa boba ele me convidou para ir no show do Morrissey com ele — Take me out tonight/ Where there’s music and there’s people/ Who are young and alive. Juro que não levei a sério, embora ele costume ser assertivo e falar sério. Passaram uns dias e ele postou no meu mural no feicibúqui os ingressos já comprados. Meu queixo se esfacelou no chão e foi só aí que comecei a acreditar que iria mesmo realizar um sonho que de tão antigo nem alimentava mais.

Aí começaram os problemas… Quem nunca, né? De repente não sabia nem se teria onde ficar, dormir até o dia 7. Dias de agonia e por um triz não desisto de ir no show. Na última hora as coisas se resolveram (com a ajuda de três queridas amigas) e eu ficaria em BH o tempo exato de ir ao show, respirar, me recuperar e ir embora. Foi quase assim, exceto por algumas trapalhadas minhas, que se não existissem eu as inventaria ali na última hora.

O local do show é horrível e a acústica é um lixo, mas o Morrissey e sua banda superaram todos os problemas. Ele é um showman e sua banda consegue reproduzir no palco o que os Smiths faziam em estúdio. Isso eu não teria visto nem se tivesse ido a um show deles nos anos 80 —  quem é dessa época deve lembrar da decepção que era ouvir algumas músicas com mais efeitos reproduzidas ao vivo –. Desde o início do show parecia estar flutuando, em outro mundo, que misturava tempo e espaço naquele momento ali.

Gosto da carreira do Morrissey após Smiths, ele conserva muito da sonoridade e da inquietação nas composições, aquele tom meio dark, depressivo dos anos 80. Mas mesmo curtindo demais o show todo eu esperava ansiosamente pela música mágica, e ele deixou a maioria das seis músicas que tocou do Smiths para o final (set list show BH).

No primeiro acorde de There Is A Light That Never Goes Out as lágrimas brotaram. Era um misto de alegria e tristeza, saudade e reencontro, vontade de sumir e explodir tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Eu a chamo de “a música mágica” (tenho um playlist salvo no meu pc apenas com ela, repetida diversas vezes) porque é a música preferida do Calvin, a música que o acalma. Ele adora Smiths. Eu o ensinei a gostar. E foram muitas as nossas madrugadas cantando e dançando There Is A Light That Never Goes Out repetidamente (é… não é fácil nos aturar). Estou há tanto tempo longe do Calvin que a saudade me rasga e tê-lo de volta nesse momento foi mágico. Teve uma hora que fechei os olhos e o consegui imaginar ali comigo, cantando e dançando. Só por isso o show inteiro já valeria — Take me out tonight/ Take me anywhere/ I don’t care, I don’t care, I don’t care/ Just driving in your car/ I never never want to go home/ Because I haven’t got one.

Saí de Belo Horizonte flutuando (mesmo com todos os percalços depois), nessa vibe que ainda não saiu de mim. Domingo, além de assistir pela web ao vivo ao show de São Paulo, consegui baixar um dos shows que Morrissey fez no Chile e mesmo sendo outro set list ainda não consegui parar de ouvir, porque There is a light that never goes out… There is a light that never goes out… There is a light that never goes out…

O meu amigo de BH não faz ideia — e mesmo que tente explicar jamais conseguirei — do bem que me fez. Sim, “to die by your side/ well, the pleasure and the privilege is mine“, senhores Erik e Morrissey. 🙂

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PS: No final da música mágica, sexta música nesse show do Chile, ele vai até perto da plateia e abraça uma fã. Morri de inveja!!!


Uma alegria qualquer

Cadê o gênio da lâmpada quando tenho um desejo carecendo ser realizado com urgência urgentíssima? Não é novidade a tristeza que me assola nos últimos dias, semanas, meses… Desgarrada, órfã de filho, sem grana, sem trabalho, sem casa, sem amor, doente da cabeça e do pé, sem samba, sem carnaval, sozinha e tomada por um leve desespero.

Já passei por coisas piores, é fato. Já estive no inferno e não é o caso agora. Mas tem como dizer para a tristeza quando está doendo que ela é menor e simplesmente desprezá-la? Se alguém souber me diga como.

Tento ocupar a mente… Ler, escrever, navegar na web. Talvez dormir pelo menos metade do dia ajudasse o tempo a passar mais depressa, mas a insônia vem junto no pacote, tipo combo. E sempre me pergunto: Por quê da pressa com o tempo? Não há nenhuma garantia de que dias melhores virão.

O desejo urgente? Uma alegria qualquer. Qualquer uma. Farra gastronômica, encher a cara com uma amiga enquanto desabafo, celular tocando com um prefixo conhecido, chimarrão numa praça do sul, andar descalça na rua com o vento no rosto, um imeiu inesperado com uma notícia boa, a voz do Calvin…

Uma alegria qualquer, só para variar um pouco e mudar o sentido do arco da boca e aliviar a dor, da alma e da musculatura da face.

É urgente! Nem eu aturo mais tanta chatice. 😦


Virando a página

Decepções fazendo aniversário… Chega, né?
Hora de cuidar de mim.


O caminho escolhido


O mundo é desumano com as mulheres, é fato. Não só pela violência física, moral e psicológica como pela dureza do dia a dia. Escolher o caminho mais “fácil” e ter a vida comandanda e decidida por outros não garante facilidade/felicidade alguma e nem dias menos sofridos ou uma vida menos dolorosa. Mas é fato também que algumas mulheres conseguem viver numa bolha, mantida ou pela condição socioeconômica ou pela proteção de outrém(ns). Quem nasce pobre e “opta” por tomar as rédeas da própria vida se ferra, literalmente, e eu tento dar conta da minha desde os 14 anos de idade. Faz tempo que me ferro…

Mas mesmo nascendo pobre qualquer mulher poderia ter a “sorte” de encontrar proteção — família, amigos, companheiro/a(s) –, a não ser que seja queixo-duro demais, como diria meu pai a meu respeito. As pessoas olham para mim e têm a impressão que aguento tudo, resisto a qualquer pancada. Afinal, sou forte. Sei que sou responsável por essa impressão. De um jeito ou de outro eu sempre sobrevivo e saio, sim, mais forte de todos os embates.

Sim, sou forte. Mas não sou inquebrável e nem imortal. E tem uma hora que tudo fica muito pesado, porque não me contento apenas em escolher o caminho errado, escolho também o mais difícil e doloroso. É tipo um dom, sabe? Não importam as opções que se apresentem (ou a falta delas), a minha escolha (ou falta de) sempre será o caminho mais tortuoso e a maior dor.

Tanta força e teimosia faz com que minhas queixas e reclames sejam desprezados e desconsiderados pelas poucas pessoas a quem ouso reclamar e me queixar. O pensamento recorrente deve ser “ela é forte, só está com aquele maldito complexo de cinderela ou fazendo mimimi… logo passa e ela resolve tudo“. É fato que resolverei e superarei (acho), mas é certo que não vou esquecer os nãos e omissões e perderei mais uns pedaços nesse processo. Parece ser da minha natureza sobreviver, mas também é não esquecer. A minha “sorte” está sempre na desproteção e na minha própria força. Se ela falhar — e ela dá sinais sérios de desgaste –, danou-se. Ou melhor, danei-me. Não terei ninguém para juntar meus pedaços. Mas qual a novidade? Sempre juntei meus pedaços e me remontei sozinha.

Quem mandou nascer, se fazer e ser forte, né? De um jeito torto, eu me acerto no erro. É só mais um dia, só mais um caminho tortuoso em muitos que já trilhei e outros que ainda virão e independente do caminho, escolhi caminhar. Eu aguento, sozinha mesmo, pode deixar.

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ps: Qualquer semelhança com a música da Zélia Duncan não é mera coincidência…

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Vapor de água

Nasci errada. Não me lembro de um só dia em que tenha me sentido certa, em acordo com o tempo, espaço, outras pessoas. Ser errada me fez rebelde desde cedo. Muitas e intensas dores provocadas e sentidas. Muitos discursos inflamados desde sempre, dedo em riste, críticas muito severas. Sempre errada, errante, errando.

Cresci errada. Na sensação de desamor sempre presente, gritante, aprendi a sonhar demais, querer demais. Me amparava na rebeldia, na luta contra o mundo e contra todos. Versão feminina infanto-juvenil de Don Quixote, solitária, sem Sancho Pança. Continuei errando em cada mísero detalhe. Tanto que os poucos acertos pareciam — e ainda parecem — obra do acaso. Aprendi a amar na ressaca das paixões, no desamor, a acarinhar na carência do toque.

Fui assim, gostando sem saber me fazer gostar e sem ser gostada, na errância. Riso frouxo, debochado, sorriso escasso, aprendi a rir de mim mesma observando o ridículo de todos os meus erros. E foram tantos que só restava rir-me de mim… Vivendo errado procriei errado. Conheci o maior amor errando e nem assim me redimi. Segui errando e errei tanto que fiquei torta, sem conserto.

Passada mais da metade do erro, digo, da vida, sigo errando. Mas como posso ser tão burra e não aprender com os erros? Aprendi. Foi tudo que aprendi nessa vida torta: Errar. Não sei fazer outra coisa. Exibo minha competência e aprendizado diariamente. Quer acertar? Não siga meus passos e vá na direção oposta a minha.

Não me preocupo mais em achar caminhos. Certos ou errados, tanto faz. Trocaria hoje todos os meus sonhos — grandes demais para mim — para me tornar vapor de água e me desfazer aos poucos no ar, sem rastro, sem lembranças aqui, e ir chover noutro lugar.

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Día de la soledad

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Quem me conhece sabe que sou dada a paqueras, flertes, affairs… Curto essa coisa da sedução. Não aquela sedução besta — meia boca, para quem gosta –, que já começa estabelecendo relações de poder, mas as paqueras horizontais, que começam desinteressadamente interessadas e interessantes. E o mundo virtual facilitou a vida pra mim e para quem sente mais atração pela mente e coração das pessoas do que por essa estética mundana — vamos definir assim, momentaneamente.

Nunca fui bonita e nem me acho, mas sei que todas as pessoas têm seus atrativos e são, à sua moda, interessantes. Ademais, a beleza está no olho de quem a vê, vai de como a pessoa te enxerga e principalmente pelo ângulo oferecido. Não sei paquerar gostando apenas da aparência de alguém, embora isso às vezes aconteça. É do instinto animal, olhar, apreciar. Mas se não sei quem é, não sei o que pensa, em quê acredita ou é descrente, e “em que banda toca” (como dizia meu pai), acaba não me oferecendo encanto nenhum.

Preciso de palavras e suas muitas inflexões e entrelinhas para entender e saber um pouco da alma das pessoas e dos “mocinhos”. Meio estranho, né? Mas entre muitas paqueras e mocinhos interessantes que pintam e com os quais tive/tenho o prazer de compartilhar palavras, frases e até textos inteiros, aconteceu. Aconteceu o dia em que acordei e me dei conta que passei a vida toda sozinha. E não vejo na minha frente nenhum mocinho disposto a mudar isso. Talvez eu não esteja disposta a mudar isso e nem seja essa a função desses mocinhos na minha vida. Afinal, como disse, as paqueras são desinteressadas e esse é o grande barato delas. E só para ser bem clichê — e brega — “o problema não são os mocinhos, o problema sou eu”. Né?

Mas no dia em que a solidão se apresenta, assim, tão cruamente e pesada, nenhuma dessas considerações faz qualquer sentido. Fico, então, na companhia desse moço uruguaio cantando Soledad…

Posso sonhar só por hoje que ele está cantando especialmente pra mim?

Soledad,
Aqui están mis credenciales,
Vengo llamando a tu puerta
Desde hace un tiempo,
Creo que pasaremos juntos temporales,
Propongo que tú y yo nos vayamos conociendo.

Aquí estoy,
Te traigo mis cicatrices,
Palabras sobre papel pentagramado,
No te fijes mucho en lo que dicen,
Me encontrarás
En cada cosa que he callado.

Ya pasó,
Ya he dejado que se empañe
La ilusión de que vivir es indoloro.
Que raro que seas tú
Quien me acompañe, soledad,
A mi que nunca supe bien
Cómo estar solo.

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