Menos patrulha, mais zueira!

Estou há dias para escrever sobre algo que me incomoda profundamente: patrulha. Patrulha de qualquer coisa me irrita, da vida alheia, da sexualidade alheia, patrulha ideológica, do que o alheio está comendo, vestindo, fazendo… Pior do que tentar controlar a vida das pessoas no particular é fazer isso em público. E as redes sociais (ou plataformas, como queiram) estão aí não para mostrar o que não somos, o nosso melhor ou pior, mas para potencializar o que somos — como diz o ativista Marcelo Branco.

Sou partidária do #NãoVaiTerCopa. Nunca achei que houve a mais remota possibilidade da Copa não acontecer. Não era essa a questão. O que queríamos, pelo menos eu, é que ela não tivesse causado tantos estragos, que o processo todo tivesse sido transparente, que não vivêssemos agora uma ditadura da Fifa em território nacional. Se alguém não entendeu o que significa o #NãoVaiTerCopa é ou porque não quis ou por má fé, de seguir explorando a distorção da proposta. Explicação e exemplos não faltam.

grafite de Paulo Ito, do Movimento de Decoração Anti-Copa

grafite de Paulo Ito, do Movimento de Decoração Anti-Copa

Disse a Camila Pavanelli, hoje em Eu gostaria que tivesse havido Copa:

“Acima de tudo, #NãoVaiTerCopa é a revolta com as violações de direitos humanos que aconteceram para que obras da Copa fossem realizadas (sobre as quais há farta documentação).
#NãoVaiTerCopa não é “torcer para que tudo dê errado” – é reconhecer que aquilo que mais importa *já deu* absurdamente errado. Que obras foram superfaturadas. Que pessoas foram ilegalmente removidas de suas casas. Que a FIFA deitou e rolou.
Não vai ter Copa – embora eu gostaria que tivesse havido.
Não vai ter Copa – mas Exército na rua certamente não vai faltar.”

E a má fé se estende ao ponto de patrulhar a torcida ou não pelo Brasil dos ativistas do #NãoVaiTerCopa. Tem gente achando e dizendo que não podemos gritar e comemorar os gols da Seleção Brasileira durante a Copa. A não ser que algum jogador brasileiro se manifeste em campo homenageando os operários mortos na construção dos estádios ou contra a repressão aos protestos nas ruas (que já começou) ou ainda contra a corrupção da Fifa, ninguém me verá comemorando os gols do Brasil (isso não vale para os gols da Argentina, por motivos de querer ver o constrangimento do prefeito do Rio, Eduardo Paes, porque duvido que ele cumpra a promessa…). Mas comentarei a Copa, é certo.

Não vou comemorar os gols do Brasil, mas poderia, se quisesse. Não dou a ninguém o direito de me dizer o que posso ou não fazer. Estou pelas tampas com os “estamos de olho”. APENAS, PAREM! E não defendo/reivindico essa liberdade só para mim. Vale para qualquer um. Nem fechamos ainda as feridas da ditadura e já tem gente achando razoável patrulhar a vida alheia por questões ideológicas… Eu sei que a mais recente ditadura brasileira não está no currículo escolar como deveria, no caso dos mais jovens, mas vejo gente que viveu a repressão achando correto impingir sua vontade, o que acha correto para si, aos outros. Não, né?

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Digo apenas para quem ainda acha o #NãoVaiTerCopa ridículo e que o seu uso auto-justifica a patrulha, que esse movimento pautou a Fifa, pautou a imprensa (de fio a pavio) e pautou até o Governo Federal. Na noite de ontem, a presidenta Dilma Rousseff gastou dez minutos de tempo e de dinheiro público num pronunciamento em rede nacional para dizer o óbvio, que vai ter Copa. Por favor, né? Até quem protesta sabe que vai ter Copa, sempre soube que teria. Mas, se precisam reafirmar isso ao mundo a todo momento é porque #NãoVaiTerCopa, é porque #NãoTeveCopa, e esse movimento foi muito, mas muito além do que pretendia, que era simplesmente protestar, fazer valer nossa voz e mostrar ao mundo o nosso descontentamento.

Leia também O ópio dos intelectuais #CopaPraQuem #NaoVaiTerCopa

PARABÉNS a todos os envolvidos no #NãoVaiTerCopa. Pautamos o país, e ainda não terminamos de dar o nosso recado. No mais, deixem cada um torcer, secar, torcer contra, como bem quiser. Deu de “ame-o ou deixe-o”. Esse governo já tem semelhanças demais com a ditadura militar para um representante da democracia, eleito pelo voto direto. Já avisei e reforço aqui: continuarei usando o #NaoVaiTerCopa durante a Copa e até depois dela. Reclamem pro Papa se não gostarem.

Uma Copa que tem como logo um “facepalm”, de mascote um tatu e ainda teve a promessa de trem-bala entre Rio e São Paulo, já começou não tendo. Toda a zueira a partir daí está valendo. E vai vendo que nem bem começou e já rolou a “sucupirização” da Copa.

Portanto, senhoras e senhores… Menos patrulha, porque a Copa da zueira já começou!

a Copa da zueira já começou!

E só para deixar bem claro… #NãoVaiTerCopa!!! 😛

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Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo. Ver todos os artigos de Niara de Oliveira

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