Considerações sobre inclusão de alunos com deficiência TGD na rede pública de ensino

calvin_balão

Minha grande amiga Renata Lins me mandou um projeto de lei municipal que trata da inclusão de alunos com deficiência TGD (Transtornos Globais do Desenvolvimento) e superdotados na rede municipal de ensino do Rio de Janeiro me pedindo que opinasse a respeito. Sempre evitei opinar sobre o tema porque sempre o farei como mãe e por mais que mães de crianças específicas sejam quase especialistas na síndrome/transtorno de seu rebento isso não as credencia como especialistas de fato. Mas também já passou da hora de escrever alguma coisa a respeito. Então, bóra listar em forma de considerações e/ou questionamentos tudo que venho pensando nesses quase quinze anos em que convivo com essa realidade.

1) A ideia da inclusão é linda, mas irreal. Surreal, eu diria. Por mais que o princípio seja o da universalidade do ensino e de educar cidadãos desde pequenos a conviver e respeitar o diferente — e só por isso o projeto da inclusão já quase se justificaria –, formando um outro perfil de cidadania, ele desconsidera quem está incluindo, a especificidade de cada síndrome, transtorno, caso e principalmente desconsidera a individualidade de cada uma dessas crianças.

2) A escola pública não está preparada para receber sequer os alunos das síndromes mais comuns como down ou as deficiências físicas como visual, auditiva e motora (as escolas cariocas todas tem rampa de acesso para cadeirantes?), quanto mais outras crianças com problemas mais específicos e/ou mais graves e complicados de lidar, tratar. E não é que essas crianças não sejam sociáveis ou socializáveis, é que cada uma das síndromes tem um método de tratamento e de estimulação específica para o aprendizado. Como respeitar o ritmo, método e tratamento de cada um junto com crianças ditas normais (e ainda temos que considerar aqui que muitas dessas crianças normais apresentam dificuldades e ritmos diferentes que precisam ser observados e respeitados dentro do global da sala de aula e da escola). Então, a não ser que estejamos pensando em enlouquecer todos os professores da rede pública — que não receberão um adicional por insalubridade — é bom pensarmos e olharmos para essa questão com mais cuidado e municiados de mais ângulos e opiniões.

3) As escolas públicas são seguras? O poder público não consegue evitar que drogas e armas entrem nas escolas. Fato. Exceto quando há democracia participativa na escola e a comunidade se envolve com a escola. Crianças com deficiência TGD são mais indefesas e a ampla maioria toma medicação pesada, que se misturada com álcool ou drogas pode causar danos irreversíveis. A escola pública está preparada para evitar isso? Ou essas crianças ficariam apartadas das demais (indo contra o princípio da inclusão) durante o recreio ou com horários de entrada e saída diferentes das demais?

4) Crianças ditas normais só por uma pequena diferença na aparência ou nos hábitos sofrem bullying (que inclui violência psicológica e física, podendo incluir violência sexual). Crianças específicas com deficiência TGD não têm preparo nenhum para isso. Pior. Não têm defesa nenhuma, são vítimas fáceis demais (e só de pensar nisso o coração fica esmigalhado). O projeto de inclusão está preparado para lidar com isso?

5) O projeto de inclusão, como está colocado, é como colocar na mesma sala de aula japonês, cachorro e planta e exigir resultados. Sim, porque os governos cada vez mais aderem a programas que exigem aprovação e resultados e desconsideram pessoas, onde professores são estimulados a aprovar mais para aumentar seu salário. É nesse cenário que se pretende cidadania? Tem algo errado nessa conta… É como se existisse a escola do papel (finge que ensina), a escola ideal (inclusiva) e a escola real (alunos nem precisam fingir que aprendem porque o professor vai aprová-lo, pressionado pela direção da escola e por suas contas).

6) Pensando sobre os pais de crianças específicas, sindrômicas e com deficiência TGD e a dúvida entre escola normal ou específica (teve uma novela que tratava do tema, a mãe tinha que escolher entre matricular a filha down numa escola específica ou numa escola normal — detalhe: ela podia escolher porque tinha dinheiro para pagar uma escola particular disposta à inclusão e estava preparada psicologicamente para a batalha diária de disputa de cada espaço), fico com as escolas específicas. Não as particulares, mas as assistenciais mesmo. Estão totalmente voltadas para atender cada criança em sua especificidade, são totalmente adaptadas fisicamente, os professores, direção e funcionários sabem como lidar com crises, gritos e situações de emergência como convulsões, menstruação antes do tempo no caso das meninas (porque a única coisa normal em crianças especiais é o desenvolvimento sexual) e externalização de excitação no caso dos meninos, fugas e tentativas de fugas, entre uma infinidade de detalhes que nem eu que já vivenciei essa rotina e realidade teria como lembrar de tudo para listar aqui. E é preciso observar que todo ser humano, normal ou com qualquer tipo de transtorno, desenvolve e aprende melhor num ambiente onde se sinta bem, confortável, aceito. Essas crianças têm suas potencialidades melhor desenvolvidas e aproveitadas nesses ambientes, das instituições e fundações assistenciais, que não visam lucro, e geralmente são dirigidas por pais de crianças com algum transtorno.

7) Alguém faz ideia do gasto — caso cada município decida se preparar de fato — que é adaptar e equipar fisicamente todas as escolas da rede para a inclusão? Capacitação de professores, funcionários e direções para lidar com todas essas crianças tão diferentes e com tantas diferenças juntas? Detalhe: Nas instituições vão trabalhar profissionais que tem empatia com essas crianças e/ou se dedicam, escolheram a causa da inclusão dessas crianças no mundo e se voltam para prepará-la da melhor forma possível. Na escola pública como garantir a “boa vontade” e dedicação de todos os profissionais com essas crianças e seus transtornos, especificidades? Existe garantia desse investimento para inclusão? Sim, essa última pergunta parece deboche. Porque né…

Sou contra a inclusão? Não. Mas tenho muitas dúvidas sobre como se processará essa inclusão, na escola pública que temos e com o respeito (NOT) que temos (sociedade e Estado) pelos educadores.

Se me perguntassem qual a melhor solução, dada a realidade que temos e falta total de condições de lidar com o tema, acharia melhor o Estado investir 10% do que teria que gastar (sabemos que não gastaria um centavo a mais, então isso é hipotético, como hipotético é o compromisso dos governantes com a educação em geral no Brasil) para que a inclusão se desse na rede pública, e distribuísse entre as escolas/instituições/fundações assistenciais que já cuidam de crianças específicas. E cuidam bem, porque pensam o desenvolvimento de forma global, incluindo fisioterapia e pequenas conquistas de independência e autonomia.

Nem pensei nos itens transporte, alimentação e escola de turno integral — porque há que se considerar a realidade das famílias das crianças específicas, e que quase a totalidade delas é chefiada por mulheres que precisam dar conta do sustento e de outros filhos. Não vou tratar também da tendência da sociedade em achar que as mães de crianças específicas precisam se transformar em heroínas (sem amparo ou condição alguma), exemplos de superação e abnegação e abrir mão de suas vidas para viver exclusivamente a vida desse filho/a específico/a, ignorando os/as demais filhos/as quando há.

Essas são apenas considerações e questionamentos e opinião da mãe de um portador de deficiência TGD com características muito específicas, e que já tentou mantê-lo em escola normal e viu o filho ser melhor tratado e alcançar melhores resultados de desenvolvimento, aprendizagem e autonomia numa instituição assistencial, sem pagar um centavo por isso, embora não fosse atendido todos os dias da semana pela falta de recursos.

p.s.1: Tudo que vi de inclusão até hoje só serviu para desobrigar o Estado dessas crianças e da educação específica.

p.s.2: Detesto a expressão “especial”, e alterei nesse texto toda vez que ela aparecia por “específica” (atualização em 18/01, 14h45), seguindo a dica da amiga jornalista Letícia Sallorenzo. Grata.

p.s.3: Se eu estiver desatualizada da discussão ou tiver cometido alguma gafe, AVISEM! Não acho que sou dona da verdade e ficarei muito grata. A ideia do post é provocar a discussão e a reflexão sobre o tema.

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Para quem não conhece, aqui tem um pedaço grande da minha história com o Calvin.

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Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo. Ver todos os artigos de Niara de Oliveira

6 respostas para “Considerações sobre inclusão de alunos com deficiência TGD na rede pública de ensino

  • TiTa Fereira

    Um artigo que estava faltando. Uma opinião realista, coerente e sensata.
    Acrescentaria apenas que estas crianças são sensíveis e muitas são conscientes de suas possibilidades. Fico imaginando como deve ser triste para essas crianças, ao final de cada ano, ver seus coleguinhas avançarem e eles continuarem no mesmo patamar… Não importa nem se os acompanhem na turma, mas a sua capacidade de aprendizado diferente dos demais já os torna diferentes, por tanto, discriminados.

  • Renata Lins (@repimlins)

    Niara querida, te agradeço imenso o cuidado e a atenção com a resposta. Tenho muitas, muitas dúvidas com relação a essa questão, mas tendo a achar, como vc, que a forma como as coisas estão colocadas – “inclusão” sem as condições necessárias para isso – são as piores possíveis. Continuemos conversando.
    Sobre a novela, eu achei que ela prestou um desserviço, pois não lidava com dificuldades: a menininha era linda, bem aceita por todos, enfim, o universo onde ela estava era idílico. Se é para se discutir a questão, que se discuta a questão, não é mesmo? Seu texto cuidadoso e sincero abre espaços para essa conversa. Beijo!

  • Niara de Oliveira

    Na verdade são mais dúvidas que exatamente uma opinião. E juro que gostaria de ser convencida do contrário. Mas… Obrigada, Tita. Beijos

  • Niara de Oliveira

    É isso que me aflige nessa questão, Renata. Porque depois que inicia o processo dessa inclusão – sem condições, preparo, capacitação -, como faz para parar, voltar atrás? Como resolve os “estragos” que deixar pelo caminho?
    Com relação a novela concordo integralmente contigo, citei naquela questão específica da escolha da escola porque achei que ali valia como exemplo, de resto acho que não se aproveita para muita coisa. Só teve uma coisa que aquela novela deixou muito claro: a maior carga do preconceito contra crianças sindrômicas ou com TGD quem carrega são os pais (mais as mães, né), e é isso mesmo. Pelos menos os autistas vivem num mundo meio apartado, e meio que a salvo das pequenas maldades. E, de novo, o que me preocupa dessa inclusão é que pode expô-los às grandes maldades.
    Os meus questionamentos e observações são também meus medos.
    Beijo!

  • Fernanda Nunes Ávila

    Eu sempre fico com a impressão que isto de forçar uma inclusão sem a prévia mudança cultural e estrutural necessária é como aquela piada de “colocar a vaca na sala”. Ao mesmo tempo o estado obriga as escolas a receberem (o que poderia ser interpretado como ação afirmativa), privatizando a frustração dos pais que passam a trocar seus filhos “especiais” sistematicamente de escola até encontrarem alguma que se enquadre no seu atendimento específico… Me incomoda e muito pensar que o melhor que se possa oferecer para a diferença seja o pensamento linear para uma universalidade obrigatória. A pluralidade é um exercício e a singularidade um direito inalienável (inclusive nos processos da educação). Sou solidária e uníssona na tua opinião, Niara. Penso que há muito a se pensar, discutir e arriscar neste caminho de incluir pessoas e suas histórias diferentes em um processo histórico insuficiente e igual.

  • Taicy Ávila

    Bom, pelo q compreendi, seu filho é adolescente, o q me faz pensar q vc tentou a inclusão dele há mais de 10 anos atrás. 10 anos atrás a situação da inclusão escolar era MUITO diferente da de hj. Se vc fosse visitar a escola onde trabalho [sou professora e trabalho com educação inclusiva, na rede pública do DF], onde temos em torno de 60 alunos ANEE, dentre eles cadeirantes, deficiente visual, deficientes mentais, autistas, disléxicos e TDAH… acho q ficaria bastante surpresa com o q PODE acontecer e JÁ ACONTECE em muitas escolas! 😉 No mais, acho os questionamentos válidos!

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