Entrevista (atrasada) com Ivan Lins

Tive o prazer, a sorte e a honra de entrevistar Ivan Lins em Pelotas logo após seu show no Theatro Guarany em 16 de novembro de 2010. Ivan iniciou em Pelotas a turnê Perfil para comemorar seus 40 anos de carreira. A entrevista foi tão bacana, mas tão bacana, e o Ivan foi tão gentil e tão disponível, respondendo todas as minhas perguntas que não sentia necessidade de publicá-la. Fiquei tão satisfeita com essa entrevista que a guardei durante mais de um ano só para mim. Pensem que o cara tem quatro décadas de carreira e entrevistas, reconhecimento no Brasil e consagração no exterior e em nenhum momento emitiu opinião sobre minhas perguntas ou se mostrou impaciente. Ivan é um artista ímpar e um ser humano simples e humilde, me respondeu olhando nos olhos (ai ai…), concentrado nas perguntas e no papo.

Não me acho grande coisa como entrevistadora — sou do tipo que fica interrompendo as respostas com pitacos, chata mesmo –, estava morrendo de dor de cabeça, esperei até a última tia velha aflita tirar foto com ele numa fila interminável de fãs no camarim após o show, cheguei a me perder no meio da entrevista (quem não se perderia diante daquele sorriso há apenas meio metro de distância?) e mesmo assim ele foi paciente e atencioso. Um gentleman, comigo e com todos. Quem nunca se apaixonou pelo entrevistado e guardou a entrevista só para si, né? Jornalista doida é isso. 😛

Falamos de música, política (e lembrem-se sempre que a entrevista foi feita em novembro de 2010), sobre o desafio de compor durante a ditadura militar, sobre o Ministério da Cultura, futebol… Confiram.

percebam a distância e avaliem o meu "nervosismo"... meu rosto queimava.

Tem diferença fazer sucesso no Brasil e no exterior?
Existe uma certa diferença pelo fato de que o sucesso que se faz no seu país é um encontro com suas raízes, com os motivos pelos quais levaram você a se dedicar tanto à sua arte. Sou filho desse país, tudo que eu sei, tudo que sou eu devo a essa terra, a esse povo, a todas as pessoas com quem eu tive a oportunidade de conviver, com todo o carinho que eu recebi através dos meus shows. Esse sucesso para mim é o melhor de todos. O sucesso que a gente faz lá fora a gente simplesmente está levando o nosso país para lá, eu canto meu país lá fora, eu sempre levo o que há de melhor daqui para falar lá, porque meu país é um lugar especial, de um povo muito especial. O sucesso que a gente faz lá fora é diferente, não sou eu sozinho, sou eu e o meu povo todo.

Em todas as profissões tem aquelas coisas que fazemos com mais prazer e outras que fazemos pela obrigação no exercício do ofício. O que mais te dá prazer na tua profissão?
É a liberdade que eu tenho para desenvolver a minha arte. Eu criei o meu próprio espaço e faço com que esse espaço seja mais amplo possível e ao mesmo tempo eu não fecho nem portas e nem janelas. Estou sempre aberto a tudo que possa vir. A beleza não é um privilégio meu, é de todas as pessoas. Todos têm um pouco de beleza dentro delas…
Todos têm a capacidade de ver o belo…
Isso… Eu sou muito fã dos meus colegas e me permito deixar influenciar por eles, e trabalho tanto com os mais velhos quanto com os mais jovens. Talvez esse seja o segredo. Eu me permito muito que os jovens me contaminem.

Ivan Lins sempre convida para seus shows um novo talento e em Pelotas o escolhido foi Leandro Maia, que além de mostrar uma composição sua, cantou "Bilhete" com Ivan na hora do bis

(Conheçam o trabalho do talentoso Leandro Maia em seu blog Palavreio e entendam porquê ele foi apadrinhado por Ivan Lins)

Falaste em liberdade de criação. Começastes numa fase difícil. Como foi criar e compor durante a ditadura,quando era preciso andar na corda bamba para não ser preso ou não ser censurado?
Foi um exercício de criatividade. Eu até acho engraçado isso, é um paradoxo. Assim como dizem que a dor é cafetina da arte, os momentos difíceis são também os momentos em que arte tem que se desenvolver com mais criatividade.
Tirar leite de pedra…
Exatamente. Os anos 60 e 70 foram o auge da criatividade da música no Brasil.

Gostas de futebol. Tricolor, né?
Eu sou tricolor, lá e aqui (infelizmente para os colorados).
(Tá tudo bem, não sou colorada…)
Até que ponto és torcedor? Vai a estádio, assiste jogo na televisão…?
Vou a estádio, assisto na tevê, fico nervoso, sofro, xingo.
Vai ser campeão?
Olha, não sei. Não consigo prever. Não acho que o Fluminense tenha o melhor time. Tem um grande técnico (Muricy Ramalho), mas não tem o melhor time. Acho que tem times melhores jogando. O time do Grêmio é muito bom, o time do Internacional é um time muito bom. Eu acho que os dois são melhores que o do Fluminense, apesar de estarem mais atrás na tabela. Sou um apreciador do bom futebol, gosto do espetáculo. Meu time não oferece um grande espetáculo nos jogos, tem ganho inclusive sem fazer boas apresentações, eu tenho gostado mais do time do Botafogo por exemplo. O time do Santos também tem oferecido um melhor espetáculo. Gostaria muito que o Fluminense fosse campeão, mas não sei se vai conseguir.

(para a alegria de Ivan e dos tricolores cariocas o Fluminense foi o campeão brasileiro de 2010)

Teu nome foi incluído numa carta de artistas em apoio a José Serra e depois teve um desmentido. Como foi isso? (o segundo turno das eleições de 2010 tinha acabado de acontecer)
Foi oportunismo do pessoal que trabalhava para o Serra, assim como fizeram para a Dilma também. Incluíram meu nome numa lista de apoio à Dilma ainda no primeiro turno. Mandei desmentir e disse que ia votar na Marina. Eles tiraram, tudo certo. Depois no segundo turno tava quieto, não ia votar mais em ninguém, eu anulei meu voto no segundo turno porque os dois candidatos deveriam se chamar Pinóquio e Pinóquia porque estavam mentindo demais pro meu gosto e eu não gosto de gente mentirosa, é uma das coisas que mais detesto. Então, anulei meu voto. Mas quando apareceu meu nome lá (lista de apoio à Serra) eu fiquei passado, muito passado. Não gosto do Serra, nunca gostei dele e se me perguntassem ‘de quem você gosta menos’ responderia Serra.

Como foi ter um colega como ministro da Cultura? Como ficou a música no período em que Gilberto Gil foi ministro?
Eu acho que a gestão do Gil foi fundamental para que a classe criasse mecanismos próprios para poder defender seus direitos e isso só começou com Gil no ministério, apesar do monte de críticas que fizeram a ele e que particularmente achei muito injustas, porque o Ministério da Cultura não é o ministério da música, o que falta é uma secretaria da música e essa é uma reivindicação, uma questão seríssima. De todas as artes a música é a que tem o maior poder de alcance, inclusive internacional, e por isso a necessidade de uma secretaria especial, mas isso não quer dizer que ela tenha ou vá ter prioridade de verbas, pelo contrário, porque eu acho que a cultura começa com a preservação das raízes, da memória, do patrimônio. Não existe um país se não tiver sua memória preservada. Esse é o grande trabalho que precisa ser feito no Brasil. O Brasil é um país que se distrair perde a memória fácil, diferentemente dos países da Europa. Nós tivemos muito do nosso patrimônio dilapidado, destruído dentro das grandes cidades e eu acho que esse é um trabalho que tem que ser feito e exige um investimento muito alto. Esse foi um dos trabalhos que foram feitos, principalmente a partir de Gil e do Juca Ferreira, que é o grande responsável por essa área. Juca Ferreira é o homem que está fazendo o melhor trabalhado de toda a história de preservação de memória, de patrimônio e de folclore desse país. O Brasil tem manifestações folclóricas que estão desaparecendo e as novas gerações não estão acompanhando, e o grande esforço para que essas manifestações se preservem foram iniciadas a partir do Gil. Mas essas iniciativas não chegam ao grande público, não chegam aos interessados. Cada um olha muito pro seu próprio nariz… os músicos, o pessoal do teatro, do cinema… Todo mundo só querendo ver o seu lado, mas ninguém pensou que antes disso o país precisa ter suas raízes e essências preservadas. Se eu fosse ministro também me dedicaria 80% a preservação do patrimônio e 20% ao resto. Foi isso que o Gil e o Juca fizeram e apanharam de todo mundo. Eu sou um dos grandes defensores do trabalho feito e se o Juca Ferreira puder ficar no próximo governo sou totalmente favorável.

(Infelizmente, Juca Ferreira não ficou no Ministério da Cultura)

Estás sempre compondo, é um hábito?
Eu sou muito compulsivo para criar, mas ultimamente não tenho tido é tempo. Tenho trabalhado demais e é uma consequência da crise financeira e de mercado da música brasileira. As grandes gravadoras acabaram, a pirataria de uma certa forma acabou com um lado da indústria, o outro lado, da internet com os downloads (que é a chamada pirataria informal) prejudica muito. Essa principalmente me prejudica bastante.
Não és tão popular para vender em camelô…
É… Exatamente. Então hoje eu sou obrigado a trabalhar mais para pagar minhas contas e não tenho tido muito tempo para compor, infelizmente.

Gostas de viajar pelo interior, conhecer o país nessa rotina de shows?
Adoro viajar, adoro conhecer… Adoro conhecer a arquitetura e a história, vou a museus…
Essa é uma questão importante para ti, da preservação do patrimônio…
Tenho muita vontade de fazer um trabalho pelo Brasil, se alguém financiasse, fazendo documentários, criar movimentos de preservação. Eu sou um entusiasta do folclore brasileiro, da preservação das nossas raízes. Esse país é incrível! E olha que eu conheço só 20% dele.

Se fosses te definir… Quem é Ivan Lins?
Eu sou um cidadão brasileiro, um bom cidadão brasileiro, compromissado com a beleza. Tenho um compromisso com a beleza no seu sentido real, amplo, interior. E por amar demais esse país eu me indigno e sou muito crítico. Eu sou um brasileiro que cobra e ama muito.

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(Fotos Murilo Paulsen, Portal VIP Pelotas)

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PS: Agradecimento especial aos queridos Alex e Martha Fonseca, sem os quais não teria chegado nem perto do Ivan Lins.

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Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo. Ver todos os artigos de Niara de Oliveira

2 respostas para “Entrevista (atrasada) com Ivan Lins

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