Gravado no coração

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Dia 28 — Um livro que você pode citar de cor

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Acho que não sei citar um livro de cor. Lembro de trechos inteiros de Cartas a um Jovem Poeta do Rilke, de A Moral Deles e a Nossa ou A Revolução Permanente de Trotsky, de Felicidade Clandestina da Cecília, de Memórias do Fogo ou d’O Livro dos Abraços do Galeano, de Mrs. Dalloway da Virginia e de muitos outros livros especiais para mim. Mas a única coisa que sei de cor mesmo é um poema do jornalista, poeta e teatrólogo pelotense Francisco Lobo da Costa, chamado Na Cela.

E como eu sou muito óbvia, já o recitei diversas vezes e em alguns casos mais graves o mandei escrito de próprio punho. Sanidade? Não trabalhamos.

Lobo da Costa viveu na Pelotas rica do período das charqueadas em que a cidade respirava cultura por todos os poros. Francisco, de classe média, muito inteligente e boêmio, era suportado pela elite pelotense nos saraus muito comuns em todos os salões e salas das famílias tradicionais de toda a região. Ele se apaixonou por uma jovem abastada, Saturnina Elvira, e dedicou a ela muitos de seus poemas. Inclusive esse que sei de cor, e que eu acho o mais lindo de todos.

Na Cela

Talvez tua leias meus versos
Ao longe, onde quer que estejas
E neles de manso vejas
Uns traços de quem chorou
Como do fúnebre arbusto
No triste e medroso galho
Treme uma gota de orvalho
Depois que a noite passou
Talvez tu leias e saibas
Do meu infortúnio a mágoa
E os olhos bem rasos d’água
Te fiquem por compaixão
E procures no silêncio
Da tua tristonha herdade
Abafar uma saudade
Que nasce do coração!
Mas, se soubesse que a parca
Roçou-me a fronte já fria
Uma lágrima sombria
Deixa dos olhos rolar
Mas não fales – não blasfemes
Contra os rigores da sorte
Pois bem sabes só a morte
Nos podia separar.

Conheci a história de Lobo da Costa numa peça de teatro quando tinha 16 anos na antiga Escola Técnica Federal de Pelotas, dirigida por Valter Sobreiro Junior, chamada “Em Nome de Francisco“. E as coincidências dessa vida são tantas que anos mais tarde, o filho mais velho do Valter que era ator e que interpretou Lobo da Costa nessa peça casou com a minha melhor amiga, Fernanda, e eu sou madrinha do filho dos dois — hoje um baita guri, com 16 anos.

Lobo da Costa foi encontrado morto aos 34 anos por um carroceiro numa sarjeta de Pelotas, nu, na manhã de 19 de junho de 1888 (inverno), depois de fugir da Santa Casa de Pelotas onde estava internado. Viveu seus últimos três anos entre hospitais e bares.

Coisas de Satolep.

Leia aqui outro poema de Lobo da Costa, “Adeus“.

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No desafio 30 livros em um mês a Renata do As Agruras e as Delícias de Ser, a Marília do Mulher Alternativa, a Grazi do Opiniões e Livros, a Mayara do Mayroses, a Cláudia do Nem Tão Óbvio Assim, a Juliana do Fina Flor, a Renata do Chopinho Feminino, a Júlia do Uma Noite Catherine Suspirou Borboletas e o Eduardo do Crônicas de Escola. E tem mais a Fabiana que posta em notas no seu perfil no Facebook.

A Luciana do Eu Sou a Graúna, a Tina do Pergunte ao Pixel, a Rita do Estrada Anil e o Pádua Fernandes de O Palco e o Mundo já terminaram o desafio.

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Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo. Ver todos os artigos de Niara de Oliveira

Uma resposta para “Gravado no coração

  • Luciana

    Puxa, gostei muito da poesia (e da história de bastidores ainda mais). Eu sempre fui mais prosa que poesia, mas quando a poesia me toca é pra toda vida. Não à toa Soneto do Amor Total é praticamente um mantra. E menos ocasional ainda é vir aos lábios: “eu faço versos como quem morre”.

    Beijos

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