Ano novo, lutas velhas!

Anteontem li alguém dizendo que ano novo é uma mera definição de calendário. Apesar de todo simbolismo, é apenas um dia depois do outro com uma noite no meio. O ano pode ser novo, a década também, mas as lutas são velhas. Algumas muito mais velhas que eu (acredite se quiser!!! <—- ainda sob impacto da crise provocada pelo último aniversário).
Tanto assim que a revoltada aqui segue se debatendo em embates (bem chatos) sobre feminismo, a esquerda, a grande imprensa, a posse da primeira mulher presidente (presidentA) no Brasil, ódio de classe, hipocrisia sobre aborto, preconceitos em geral e discriminações para todos os gostos.
Confesso estar bem cansada de fingir que acredito no feminismo dos meus camaradas da esquerda, e no último embate pelo menos consegui derrubar uma máscara (viva!). Homem feminista (sic) dizendo “é uma questão de estratégia política – é mais ‘inteligente’ unir forças e derrotar o inimigo comum para depois brigar entre si“, afirmando que o machismo da direita e da grande imprensa é mais nocivo, maior e pior que o machismo da esquerda, é a mais nova versão para o velho chavão da esquerda “primeiro libertaremos os trabalhadores da opressão de classe e depois uniremos forças para libertarmos as mulheres da sua opressão específica”. Primeiro a macro política (leia-se política de homem, importante), depois as lutas menores, específicas (leia-se política de mulheres, negros, jovens, deficientes, ambientalistas…) Conhecemos bem essa balela. Conversa para boi dormir (ou enganar a vaca).
A história já provou que [1] a luta das mulheres é prioritária porque a opressão de gênero é o pilar fundamental de sustentação do capitalismo e da opressão de classe, não à toa surgiu junto com a ‘invenção’ da propriedade privada, e [2] nas experiências de ruptura do capitalismo e tentativas de derrotar a opressão de classe, a luta pela libertação das mulheres ficou em segundo plano, não por ser secundária mas porque assim foi determinado pelos líderes camaradas homens das tais revoluções socialistas que nunca cumpriram suas promessas de depois dar atenção a nossa causa e opressão.

Novas Perspectivas – “Em Leipzig, na antiga Alemanha Oriental, surgem indícios que apontam um novo caminho para a sociedade. Nada de capitalismo ou socialismo, senhoras e senhores. O futuro é isso aí.” 28/09/2010. Do blog Memórias do muro, da jornalista Ariane Mondo

Quantos embates mais teremos que travar para provar que não há socialismo nem liberdade sem feminismo? Poxa! Se não aprenderam com as experiências históricas, vão aprender como, quando? Cansa ficar repetindo os mesmos chavões ano após ano. E quando, de tempos em tempos, temos alguma vitória, somos obrigadas a travar uma luta extra de manutenção dessa conquista ou retrocedemos (vide caso da violência contra mulher e feminicídios).
Quem decide qual luta deve ser priorizada, trincheira ocupada ou inimigo a ser combatido primeiro, somos nós mesmas. Não precisamos de orientação nem de comando. Alguém ousa ficar ditando regra ao MST, movimento negro, ambientalista, LGBTs? A esquerda não ousa orientar ou comandar nem mesmo o movimento estudantil, composto em sua amplíssima maioria por jovens e que muitas vezes repetem erros já vividos por militantes mais experientes. Sua autonomia é respeitada e assim está correto.
Ao movimento feminista tem sempre um homem (vide participações e comentários em blogs feministas) dizendo que estamos sendo radicais, que se formos por ali ou por aqui perderemos apoio à nossa causa ou espantaremos apoiadores e tentando nos dizer qual linha do feminismo e/ou pensadora feminista é a mais certa. Oi? Um sincero “VTNC” aos homens pseudo feministas sabichões de plantão. Vão cuidar de suas vidas e suas lutas. Do movimento feminista cuidamos nós, mulheres feministas. Respeitem nossa autonomia e escolhas e nos apóiem como fazem com os demais movimentos. Ou nossa luta não é justa?
Nosso inimigo é um só, o machismo. Seja machismo de direita, esquerda, de homens, mulheres, gays, jovens, negros, na grande imprensa ou blogosfera ou na sociedade como um todo, será combatido da mesma forma e no tempo que surgirem.
As lutas travadas hoje são velhas, seculares, assim como é velha a minha revolta e indignação. Mas um ano e uma década novinhos em folha renovam forças e disposição para lutar e para os “novos” embates. Que venham os machistas todos. Minhas mangas estão arregaçadas e meus punhos erguidos.
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Pronto, desabafei!
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Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo. Ver todos os artigos de Niara de Oliveira

11 respostas para “Ano novo, lutas velhas!

  • Karla

    Niara
    é verdade que não passa de um dia após o outro. Mas gosto de ver o ano novo como uma possibilidade de renovação. As lutas são velhas, mas pelo menos a gente se recarrega.
    abraço
    Karla

  • Barbara Manoela

    Niara,

    o desafio é diário. Até bem pouco tempo atrás, as mulheres não podiam votar!!! E hoje, temos uma mulher na presidência do país. Nós somos mais inteligentes e espertas, e devagar, chegaremos lá.

    beijos
    Babi

  • Thayz

    Niara, vc tocou em um ponto ótimo: os homens de “esquerda e progressista” sempre querem nos falar por onde ir. Isso me irrita. Acho que eles falam isso pq eles ainda se reconhecem machista, é demais pra eles.
    Ótimo post, como já disseram, nossa luta é diária!
    Beijo!

  • Luka

    Niara,

    Concordo contigo quando falas de encararem a luta feminista como uma segunda luta, assim como já encararam a nós como o segundo sexo e ainda o encaram com a dificuldade de discutirmos cotas para mulheres em organizações (sejam ongs ou partidárias), a divisão sexual do trabalho e afins.
    Porém, há um equívoco no que falas, pois toda essa lógica que colocas de encararem o feminismo como segunda luta é uma lógica que foi consolidada com o Stalinismo, quando as mulheres perderam o que haviam conseguido de emancipação com a Revolução Russa, óbvio que teve receio junto aos companheiros naquela época, sim, até por que nunca devemos desconsiderar a conjuntura da época e a Rússia era um país agrário, ortodoxo e a pqp e mesmo assim elas Krupzcaia e Kolonttai conseguiram como política do programa revolucionário a legalização do aborto, socialização do trabalho doméstico, medidas para diluir a importância do núcleo familiar na nova sociedade que vinha se construindo. Coisas que foram destruídas pelo Stalinismo para se colocar novamente a mulher no papel de mãe dos revolucionários e fortalecer a família e é bom lembrar que a revolução cubana e a revolução comunista chinesa acontecem após a ascenssão do stalinismo na URSS, então a referência que a esquerda tinha e os regimes anti-capitalistas tinham era justamente uma forma conservadora de tratar a mulher.
    Outra coisa que é importante lembrar é que sim óbvio que as mulheres não devem deixar que outros pautem o que devem ser lutas destas, novamente um dos maiores exemplos disto é a própria revolução russa que teve seu início deflagrado pela greve das téxteis de 23 de fevereiro (nosso 8 de março), passando por cima das lideranças revolucionárias da época, homens e mulheres, tanto que depois o próprio Trotsky reconhece isso no história da revolução russa se não em engano.
    A luta das mulheres é todo dia contra a objetificação, mercantilização e afins, porém muitas vezes o que vejo é a construção de um ódio de gênero que não se justifica nem historicamente e nem teoricamente, e olhe não estou falando de que não existe machismo ou patriarcado, mas é preciso sim compreender quem são nossos aliados e quem não são. já citei a Lídia Cirilo várias vezes por que acho que ela tem uma ótima análise sobre, os homens da esquerda já estão em um movimento para mudar o mundo, é mais fácil disputá-los assim para o feminismo, pois eles querem mudar o que aí está colocado, os homens de direita querem mantê-lo de todas as formas.
    Mas este debate não se acaba em um post, nem nada, é um debate de séculos já.

  • Cleiton

    Ótimo texto. Só fico um pouco incomodado com o uso da categoria mulheres sem problematizá-la enquanto construção social. Conhece a Wittig? De qualquer forma, gostei muito do teu texto, não só por questões formais, mas também pela relevância do problema apontado. Sempre querem reduzir os movimentos das minorias como se estes fossem lutas secundárias, foda isso! Abraços

  • Niara de Oliveira

    Sem falar que mulheres não são minorias. Pelo menos não mais. Obrigada por comentar. 🙂

  • Rosa Maria

    É a luta continua,nós mulheres precisamos ser mais ativas.impor nossas opiniõs a qualquer custo!Gostei de seu texto como sempre perfeito,direto na veia ! Parabéns

  • ariane

    Obrigada por linkar meu blog.
    Ainda que eu não aborde esse tema especificamente por lá, certamente este é um assunto que me interessa – e muito!
    Vou voltar por aqui mais vezes. 😉
    Abraço!
    Ariane

  • Diego

    Digna de pena. Poderia discorrer sobre cada frase desse projeto de rebelde-filósofa-revolucionária-libertária que almeja ser, mas o conteúdo superficial e aspereza do discurso é tão improdutivo quanto a luta imaginária que parece nutrir. Poderia citar o universo incontável de entidades, políticas públicas e o protecionismo legal destinado às mulheres, muito embora o artigo 5º da constituição federal assegure a igualdade de direitos. Poderia dizer que o número de advogadas, enfermeiras, professoras, jornalistas e doutoras e etc. é maior que o de homens. Poderia dizer que apenas os homens estão nos serviços braçais da construção civil, nas minas de carvão e sílica, nos serviços perigosos e pesados sem que alguma feminista lute por uma equiparação numérica, e que, muitos deles, abandonam precocemente os estudos pois recai, socialmente, o peso de sustentar uma família. Poderia dizer que o número de mendigos, presos, doentes e mutilados homens é infinitamente superior ao de mulheres, sem que existam medidas públicas efetivas para lidar com o problema. Poderia dizer que o câncer de próstata cresce 7 vezes mais que a incidência do câncer de mama. Poderia dizer que as mulheres tem penas mais brandas por crimes iguais e que levam flagrante vantagem nos processos de guarda dos filhos. Poderia dizer que a luta das mulheres, o feminismo, hasteando a bandeira da liberdade sexual, escravizou, ao invés de libertar, as mulheres em um ideal estético ainda mais opressor. Passaria horas e horas relatando fatos e apontando números, mas contra o radicalismo, nunca nada será suficientemente forte. Sempre questiono qual o mundo ideal das feministas e que papel teriam homens e mulheres e ser seriam, objetivamente, mais felizes com toda essa sua retórica intolerante. Você se alistou na esquizofrênica disputa por uma igualdade que não existe. O espelho está aí para mostrar. O que você quer, com toda essa virulência, travestida de discurso positivista, e ainda não descobriu, nada tem a ver com igualdade de direitos, artigo 5º da constituição federal. Mulher, mulher, não precisa desse discurso de vítima, autopiedoso e descompassado, orientam-se rumo a ação. Catarina da Russia, Elizabeth, Marie Curie e outras milhares de mulheres que, em detrimento da vitimização alucinógena, fizeram valer sua força e habilidades para que, com ações, não discursos, beneficiassem o mundo. Um país onde uma mulher foi eleita democraticamente, onde existam cotas políticas, delegacias, comitês e onde você pode se expressar como pensa, é um lugar sexista? Sinceramente, municiada por esse ódio irracional, o que você quer vai além do que chama de igualdade, evidencia a necessidade por algo para recuperar, quem sabe, um vazio existencial latente.

  • Niara de Oliveira

    Embora um comentário tão longo merecesse mais atenção minha, prefiro poupar energia para a minha luta contra o machismo que é duríssima e diária. Até porque está meio óbvio que não queres ser convencido. Vieste aqui despejar tuas certezas e convicções contra o feminismo e não para debater. Taí teu comentário, aprovado.

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