Sobre o show do Zé Ramalho em Pelotas e da minha revolta com a burguesia dessa cidade

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“O povo foge da ignorância, apesar de viver tão perto dela…”
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Hoje (14/11/2010) tive o prazer de assistir pela primeira vez um show do Zé Ramalho. Caro demais pra mim. Se tivesse que pagar não iria. Felizmente meu “frila” atual me permite algumas benesses como entrar de graça em alguns shows. “Vamo combiná” que não é de graça para ninguém e eu preferiria ganhar o suficiente para bancar o ingresso dos shows que quisesse ir. Mas… C’est La Vie!

Voltando ao show, Zé Ramalho é um artista raro. Ele curte fazer o show e expressa isso de um jeito que em alguns momentos parece estar curtindo mais que o público. Os músicos que o acompanham, da Banda Z, parecem tocar juntos há meio século e respondem a ele num simples suspiro. O show é redondo, perfeito, e apesar de alguns arranjos em músicas mais antigas serem novos, tu reconheces cada grande sucesso desde o primeiro acorde. E o Zé Ramalho canta uma barbaridade – como dizem aqui nos pampas. Afinado, vozeirão, empolgado, não erra as letras e nem tem o chamado apoio por escrito à mão (Vanusa deve morrer de inveja). Em nenhum momento, nenhum mesmo, ele demonstra estar cansado de cantar os mesmos versos ou tocar os mesmos acordes há 20, 30 anos. Conselho meu: Tendo a oportunidade, não deixe de assisti-lo.

A apresentação foi a parte boa do show.

Sempre que vou a alguma atividade cultural em Pelotas, destoo em tudo. Não uso maquiagem, não me arrumo como se estivesse indo a um casamento e nem uso o saguão do teatro como um picadeiro de circo antes da apresentação em questão. Já aprendi a relevar algumas coisas, mas sempre vou me sentir um peixe fora d’água em meio àquelas pessoas. Acho até bom que seja assim…

Quem conhece o repertório do Zé Ramalho sabe que ele tem músicas com críticas sociais profundas, mesmo que em meio as suas viagens existenciais, transcendentais, espirituais, astrais… A principal delas é seu maior sucesso,”Admirável Gado Novo” — que assim como o disco da roqueira baiana Pitty (Admirável Chip Novo) — tem inspiração na obra ficcional Admirável Mundo Novo, do britânico Aldous Huxley publicado em 1932, que cria uma hipótese interessante de futuro que por si só já é crítica. A música do Zé tem versos que poderiam ser um soco no fígado dos apáticos trabalhadores explorados desse país, que se comportam – na verdade são tratados assim – como gado e são felizes – “povo marcado, ê, povo feliz!

Assistir hoje a burguesia dessa cidade, que é de causar engulhos em qualquer classe média de cidade grande – quem conhece Pelotas sabe do que estou falando -, cantando de pulmão aberto Admirável Gado Novo como se estivesse debochando do povo-gado ou ignorando o que estava cantando (afinal eles podem), me causou uma revolta como há muito tempo não sentia. Assim, o verso que mais deu sentido a essa estranha noite foi “o povo foge da ignorância, apesar de viver tão perto dela“.

Será que o Zé Ramalho de hoje já foi pausteurizado nessa cultura de massa e não se apercebe mais desses detalhes? Ele, viajandão, adorou a energia do público pelotense. Eu, comunista e pelotense, senti vontade de vomitar em meio à tamanha contradição.

Noite confusa, de sensações conflitantes. Hoje sou mais fã do que jamais fui de Zé Ramalho e sou mais crítica e revoltada do que sempre fui com a burguesia, principalmente com a burguesia de Pelotas.

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Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo. Ver todos os artigos de Niara de Oliveira

15 respostas para “Sobre o show do Zé Ramalho em Pelotas e da minha revolta com a burguesia dessa cidade

  • Rosângela rodrigues Queiroz

    Niara, adorei!!!
    Adorei ler seu texto como sempre e infelizmente tenho que concordar com você!
    Vivemos em meio a tantas hipocrisias que até em um dos momentos que se deveria curtir sem perceber nossa volta, aí sim nos pegamos como se numa lama.
    Pelo menos a voz, o violão, as letras do Zé Ramalho não decepcionaram…rs!
    Bj

  • Ju

    Oi, Niara. Ótimo texto.
    Sou de Curitiba, mas moro em Teresina. Um dos fatores que contou muito para eu ter deixado minha cidade foi essa repugnância que, como você [sem trocadilhos com o José Serra], eu sinto.

    No Nordeste, isso é observado de maneira bem mais amena nas pessoas que vão a um show, mas aqui o buraco é mais embaixo. O coronelismo acontece livremente, o povo sabe, mas não faz nada.

    O nojo é não só pelos poucos lá do alto, mas pela negligência dos muitos daqui de baixo que podem [nem todos podem] fazer alguma coisa.

    Um gado permissivo.
    Que triste.

    [vi um show do Zé Ramalho em João Pessoa, à beira-mar, de graça!]

  • Paula

    Eu te entendo perfeitamente………………………IRGH, ixiiiiiiiiii….a burguesia fede em todos os lugares, mas em Pelotas pareçe que fede mais.

  • cidionor de barros

    sou trabalhador assalariado e não possuo carteira para adentrar a qualquer lugar de graça;me admiro vc falar dos ricos de pelotas ,mas no entanto deverias pagar ou ficar de fora do show,e não usar o carteiraço para se valer da sua condição de “JORNALISTA”.não seja IPROCRITA;venha para o bairro conhecer a nossa realidade e arregasar os braços de verdade e não gritar aos quatro cantos como uma voz dos excluidos. Seja verdadeira.

  • Niara de Oliveira

    Por partes, como diria Jack!
    Sou tão assalariada quanto tu. Eu moro na periferia e encaro todos os dias uma jornada tripla de trabalho (por vezes quádrupla), algo normalmente ignorado pelos homens. Não dei carteiraço, fui trabalhar. Considero benesse por ser um show que gosto. Não tirei o lugar de ninguém, assisti o show em pé. E disse no início do texto que preferia receber o suficiente para escolher os shows que quisesse ir e poder pagar por eles.
    Eu poderia te dizer a minha renda mensal, mas seria exposição demais e valorização demais de um comentário grosseiro, ignorante _ no sentido de que ignora a minha realidade _ e praticamente anônimo. Eu mostro a minha cara todos os dias aqui no meu blog e falo de mim, das minhas revoltas, etc. Tu é quem? Mora mesmo no bairro? É mesmo trabalhador braçal?
    De qualquer forma, obrigada por ter lido o Pimenta com Limão.

  • Samyra

    Zé Ramalho é realmente um músico arrebatador. Sua música é realmente poderosa e fiquei contente por saber por você que ele parecia feliz pela resposta do público.
    Agora… sem querer ocultar as evidentes marcas e influências que só um contexto social voltado ao lucro, a competição e a exclusão podem fazer, ao meu ver, sua raiva da burguesia de Pelotas esvazia com muito mais eficiência o discurso e a prática de igualdade e solidariedade próprio do discurso comunista, do que qualquer outra dificuldade de lutar contra o sistema.

    É preciso tomar muito cuidado, pois o embotamento da visão e da clareza é um dos grandes responsáveis pela aparente impotência e inoquidade de um discurso mais solidário e coletivo (não importa muito se ele é comunista, socialista, anarquista). E a raiva, o desprezo e a incapacidade de compreender o outro consistem-se num dos principais obstáculos em realmente fazer, ou seja, descobrir uma prática de vida associada a esse discurso mais solidário.

    Assim, é um tanto inútil sentir tanta raiva e desprezo pela burguesia cantando vida de gado a plenos pulmões. Assim como as permissivas acertivas capitalistas, outros modos de pensar e fazer também podem alimentar em igual proporção sentimentos e atitudes excludentes e com aquele assustador tom de superioridade.

    E qualquer tipo de exclusão é, de fato, empobrecedor de nossa condição de seres humanos. Zé Ramalho converteu suas experiências de vida e suas concepções políticas e sociais em letras espetaculares. Mas ele não escolhe quem as ouvirá. Esse é o espírito da coisa. A música, como qualquer outra prática, tem a beleza de trabalhar em campos bem distantes da razão das teorias sobre o funcionamento do mundo. Assim, quem sabe, naquele momento, um dos burgueses REALMENTE escutou a música e se calou, num profundo entendimento das coisas e a partir dali nunca mais conseguiu ser da mesma maneira. Ou seja, deixou de ser um tanto menos escroto e pequeno.

  • Niara de Oliveira

    Tens razão, Samyra. Obrigada pelo comentário.
    Quando sinto tamanha revolta, preciso desabafar. O faço escrevendo, como uma espécie de expurgo da própria raiva.
    Inverter a lógica capitalista do pensar, agir e sentir tendo que continuar a viver num mundo capitalista é osso, viu? Mas é preciso.
    Minha revolta me manteve no prumo até aqui e posso te afirmar que não é ódio. Mas ficarei mais alerta sobre isso.
    🙂

  • Crystiana Yaz

    Pelotas é assim, é? Putz!
    Que decepção!
    Por isso algumas pessoas se sentem os tais e não entendem nada do que estão cantando. A mim me pareceu que os palhaços do picadeiro de circo, apenas repetem as frases sem prestar atenção no que significam.
    Barbaridade tchê!… kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Só rindo pra não chorar.

  • Samyra

    Vamos ficar então, juntas.
    Porque convenhamos, né?
    Ô coisa difícil de se fazer.

    Não te dei os parabéns pelo blog, mas aí vai: Parabéns!
    🙂
    E continue desabafando e raivosa que só assim é possível transformar as coisas. Nossa raiva e o mundo.

    Um abraço.

  • walter sylva

    ZE RAMALHO O MAIOR POETA DO PLANETA E ATUAL SUCESSOR DO INIGULÁVEL RAUL SEIXAS.FALEI E DISSE OK?

  • hola

    Realmente é lamentável tanta inveja, aposto que você adoraria fazer parte desta burguesia que você tanto tem nojo. Ainda por cima participou do show sem ter pago, é bem esse estilo de “espertinho que adora tirar vantagem” que o nosso país não precisa para ir adiante. Se você vai a um show com essa regalia de não pagar, é muito injusto com todos os outros que ali tiveram que gastar o seu “dinheiro de burguês” para estar ali…isto não é muito dos políticos ou os poderosos que tiram vantagem do povo para se dar bem, apenas em uma menor escala. Tsc…tsc…quanta inveja e hipocrisia, ainda bem que temos um GÊNIO como o Zé que compõe letras para abrirmos nossos olhos aos cânceres que habitam nossa sociedade! Menos inveja e mais luta, fica a dica! ;D

  • Niara de Oliveira

    Adoro opiniões como a tua. Alegram meu dia. 😛

  • Eu

    Sucessor do raul? Duente!

  • Luciano

    O bom é que ele vem aí de novo!Moramos em um lugar que as pessoas ainda vivem de sobre nome, não se pode esperar muito,e por estas e outras que estamos atrasados no minimo a 20 anos comparado com qualquer cidadezinha na volta de POA,o importante é que no momento em que estamos dentro do mesmo ambiente ninguém é melhor do que ninguém.O maior azar foi a nossa região ter sido colonizado por português que só olha para o próprio umbigo,a prova melhor do que estou dizendo é só olhar a serra.

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