Obrigada, camaradas!

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Dilma Rousseff, na lente de Carlos Latuff

Finalmente acabou a pior eleição que já acompanhei. E olha que vivi intensamente a de 1989, a campeã em baixaria até então.
O mais marcante da rede de boatos e mentiras dessa eleição foi a existência das mídias sociais e o seu uso como arma para a divulgação dos absurdos inventados para espalhar o pânico e o terror. Até as empresas de telefonia foram envolvidas, principalmente celular (e é preciso investigar como se deu esse envolvimento pela Polícia Federal), com trotes ameaçadores do tipo: “Se você votar na Dilma, terá sua linha telefônica cancelada” ou “sua casa será invadida” e o tom terrorista ao final “sabemos como te encontrar”. Igual aos trotes de falso sequestro emitidos dos presídios tentando extorquir dinheiro das vítimas.
Chamo a atenção para os spams (algo que surgiu junto com a internet), e aos quais in-com-pe-ten-te-men-te a campanha de Dilma se deu ao trabalho de responder no caso do aborto e que fez com que a candidata, agora presidenta eleita, assumisse publicamente o compromisso de não tomar a iniciativa de alterar a legislação sobre aborto durante o seu mandato. E danem-se as mulheres que seguirão morrendo vítimas de abortos mal feitos e clandestinos país afora. Espero sinceramente que a bancada feminista do Congresso tome essa iniciativa. Afinal, Dilma (pelo menos isso) não se comprometeu em vetar uma lei que regulamente o tema vinda do Legislativo.
Mas nem mesmo toda a baixaria impressa pelo PSDB e pela direita raivosa desse país e reverberada pela grande imprensa nessa eleição conseguiu transformar Dilma numa candidata de esquerda. Nem o PT é mais um partido de esquerda. Nada em seu programa de governo ou em suas propostas pode ser classificado como sendo bandeiras esquerdistas. Alguém pode retrucar lembrando do compromisso principal assumido por Dilma – em seu primeiro pronunciamento como presidenta eleita -, a erradicação da pobreza. Não se iludam. É impossível erradicar a pobreza no capitalismo. Tudo o que o governo Lula fez nesse sentido comparado aos lucros dos banqueiros e empresários não passou de migalhas. Distribuir renda é outra coisa. Avançamos, sim. O Brasil de hoje – tal como previ em 2002 – é infinitamente melhor que o Brasil de FHC e do PSDB. Jamais cometeria o erro histórico de comparar Dilma à Serra, mas seus partidos disputam as bandeiras da social democracia. Um com respeito aos movimentos sociais e o outro se utilizando do aparelho repressor do Estado para inibir oposição e com total apoio da grande imprensa. Mas nós, cidadãos, estamos muito longe (muito mesmo) de sermos todos iguais – diante da lei ou de quem quer que seja – como garante apenas na teoria a nossa constituição.
Quero salientar que o fato mais significativo dessa eleição, que é termos a primeira mulher na presidência do Brasil em 510 anos, foi habilmente anulado pelos setores mais retrógrados e reacionários do país durante a campanha. Da mesma forma como hoje, na prática, pouco representa (a não ser simbolicamente) para os negros dos EUA e do mundo ter Barack Obama ocupando o cargo mais importante do planeta. E eu lamento isso profundamente. Queria mesmo estar comemorando o feito de termos elegido uma mulher, mas ainda é cedo para saber se Dilma se comportará diferente de um homem em seu lugar.
Por fim, quero agradecer aos companheiros de luta, de esquerda, que abraçaram essa campanha como se Dilma representasse mesmo a derrota da direita e da grande imprensa. Vocês estarão lado a lado comigo nas críticas às políticas governamentais adotadas nos próximos quatro anos, porque o PT não compra nenhuma grande briga e o PMDB ganhou no futuro governo Dilma muito mais espaço. Aliás, desde o governo Sarney – e eles nunca mais saíram do poder (Collor/Itamar, FHC, Lula) -, esse será o governo em que terão mais espaço. Mas é evidente que reconheço que será muito melhor criticar e levantar bandeiras no governo de Dilma Rousseff. Desejo que sua eleição como presidenta siga refletindo e influenciando outros países da América Latina.
A política de Estado continua a mesma e nos encontraremos nas lutas pelos avanços na legislação sobre aborto e pelo fim da violência contra a mulher, pela reforma agrária, pela abertura dos arquivos da ditadura militar e pela punição aos torturadores, pelo fim do desmatamento na Amazônia, por um amplo programa de educação popular, por saúde pública, … A luta de verdade, da vida real, nunca acaba enquanto houver opressão e oprimidos.
Obrigada, camaradas! Eu pude ser fiel e leal à minha consciência e votar nulo no primeiro e segundo turnos dessa eleição, porque vocês toparam enfrentar a guerra suja desse arremedo de democracia que vivemos. Eu não tive estômago para tudo isso.

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Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo. Ver todos os artigos de Niara de Oliveira

6 respostas para “Obrigada, camaradas!

  • Carlos Renato

    Querida Niara, posso até discordar pontualmente de você,porém considero seus textos lúcidos e que me puxam a realidade quando devido a “emoção da batalha” acabo criando falsas expectativas sobre política principalmente. Vencida a batalha contra a extrema-direita(por enquanto) e passado esse período eleitoral, vamos debater temas que devem avançar em nossa legislação como você bem disse.
    É sempre um prazer ler seus textos minha querida camarada, Parabéns

  • walter braz

    Análise fria mas objectiva.A tentativa de colocar regiões contra regiões mostra que a direita vai agir. Vão tentar pôr as regiões ricas contra as pobres e camadas sociais contra camadas sociais.O resultado das últimas eleições americanas vai influir em acções de direita similares ás de Honduras ou na tentativas de pôr regiões ricas em matérias primas contra regiões pobres como grupos fascistas fizeram em Santa Cruz na Bolívia. A direita militar sul americana obediente ao Pentágono,tudo vai fazer para criar bolsas independentistas ,ricas em matérias primas ,em toda a sul américa para combater estratégicamente a unasur. Querer queimar etapas pode conduzir ao isolamento das forças progressistas da América Do Sul.As bocas anti.nordestinas fazem parte da estratégia da extrema -direita. Algumas das reacções também não ajudam porque empolam os regionalismos e favorecem a estratégia da extrema -direita que procura aproveitar e manipular os votantes de Serra a favor da sua estratégia.Contam-se os votos em alguns quartéis para criar bases de apoio.

  • Andréa

    Niara,

    Obrigada pela reflexão. De certa forma, colocaste tudo que ando pensando com uma clareza fenomenal. Como sempre. aliás.
    É isso aí.
    Beijo!

  • Guilherme Argenta Souza

    Olá, recém hoje estou lendo este texto, não por falta de vontade, mas por falta de tempo. Confesso que esta soma de letras resultaram num soco no meu estômago, pois tentei tomar a mesma atitude que a sua, porém, não sei se venci ou se fui derrotado ao ter assumido e defendido meu Partido, o PT, a minha candidata Dilma. Não apenas defendi, como militei muito para que PT, Dilma, esquerda saíssem vitoriosos (considero, em alguns pontos, defesa diferente de militância). Sei, e falo isso sem problema algum, que o meu PT não é o mesmo que conheci quando ainda era criança. Também, reconheço que o Governo Lula me frustrou em muitos aspectos, como não me iludo que será diferente no Governo Dilma, mas não vejo projeto mais próximo da minha ideologia que este. Sou, continuarei sendo não sei até quando, militante deste Partido, mas minha ideologia é maior que qualquer sigla, mas alguém(s) estará(ão) no comando do Estado e preciso defender o que mais chega perto das minhas utopias. Jamais considero Governo Lula=FHC nem PT=PSDB, pois só o PT ainda me permite sonhar com uma sociedade mais justa. Não concordo com algumas políticas assistencialistas do atual/ futuro governo, mas não deixo de reconhecer que mudaram a vida de muitas pessoas, que deram dignidade a muitos brasileiros. Não são transformações, mas acredito que são “mudanças” que permitem tornar esse Brasil menos desigual.
    Ah, quando a conheci, pensei que fosse PTista, depois vi que era uma “ex”-PTista, foi a minha melhor desilusão. Beijo Grande.

  • por ti

    Depois da leitura de sua reflexão, afirmo que: sim, existe polítca, além do voto!

    “Considerando nossa fraqueza os senhores forjaram

    Suas leis, para nos escravizarem.

    As leis não mais serão respeitadas

    Considerando que não queremos mais ser escravos.

    Considerando que os senhores nos ameaçam

    Com fuzis e com canhões

    Nós decidimos: de agora em diante

    Temeremos mais a miséria do que a morte.

    Consideramos que ficaremos famintos

    Se suportarmos que continuem nos roubando

    Queremos deixar bem claro que são apenas vidraças

    Que nos separam deste bom pão que nos falta.

    Considerando que os senhores nos ameaçam

    Com fuzis e canhões

    Nós decidimos, de agora em diante

    Temeremos mais a miséria que a morte.

    Considerando que existem grandes mansões

    Enquanto os senhores nos deixam sem teto

    Nós decidimos: agora nelas nos instalaremos

    Porque em nossos buracos não temos mais condições de ficar.

    Considerando que os senhores nos ameaçam

    Com fuzis e canhões

    Nós decidimos, de agora em diante

    Temeremos mais a miséria do que a morte.

    Considerando que está sobrando carvão

    Enquanto nós gelamos de frio por falta de carvão

    Nós decidimos que vamos toma-lo

    Considerando que ele nos aquecerá

    Considerando que os senhores nos ameaçam

    Com fuzis e canhões

    Nós decidimos, de agora em diante

    Temeremos mais a miséria do que a morte.

    Considerando que para os senhores não é possível

    Nos pagarem um salário justo

    Tomaremos nós mesmos as fábricas

    Considerando que sem os senhores, tudo será melhor para nós.

    Considerando que os senhores nos ameaçam

    Com fuzis e canhões

    Nós decidimos: de agora em diante

    Temeremos mais a miséria que a morte.

    Considerando que o que o governo nos promete

    Está muito longe de nos inspirar confiança

    Nós decidimos tomar o poder

    Para podermos levar uma vida melhor.

    Considerando: vocês escutam os canhões

    Outra linguagem não conseguem compreender

    Deveremos então, sim, isso valerá a pena

    Apontar os canhões contra os senhores!”

    BRECHT

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