Ausência

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Pensei em não me manifestar sobre a morte de José Saramago, achando que o silêncio representaria melhor o vazio. Mas decidi registrar como me sinto sobre a sua ausência. Humanista, libertário, ateu, comunista, mestre das palavras, ativista dos direitos humanos, rebelde, inquieto… Enfim, poderia gastar muitas linhas tentando defini-lo, mas não sou hábil com as palavras como ele e não conseguiria traduzir toda a amplitude de sua existência. Só o que posso dizer é que me sinto órfã nesse momento. Além de alguns livros dele que li (ainda faltam vários), costumava acompanhá-lo em seu blog sempre que possível. Ou seja, o acompanhava à distância. Mas só o fato de saber que ele estava lá, em sua biblioteca, escrevendo e com sua lucidez e visão crítica aguçada, sempre pronto a se manifestar em favor dos injustiçados e oprimidos no mundo, me confortava. Fato é que o mundo ficou infinitamente mais pobre sem Saramago. Às vezes penso que para algumas pessoas o tempo deveria parar… Mas como não haveria consenso sobre quais deveriam ser os imortais, precisamos aprender a viver com a ausência daqueles que partem antes de nós. Saramago deixa aquele vazio imenso, aquela dor, aquela certeza de que nada irá substitui-lo ou preencher o espaço que ocupava. A esse vazio a língua portuguesa define como saudade, já tão imensa e irremediável. Bom saber que vivemos através do nosso legado, de nossa obra, daquilo que construímos. Significa dizer que Saramago é imortal.

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(Vídeo gravado na biblioteca de sua casa em Lanzarote, Ilhas Canárias, com um grupo de artistas e amigos cantando Grândola Vila Morena, o hino da Revolução dos Cravos)
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Último registro em Outros Cadernos de Saramago:

Pensar, pensar

Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma.
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(entrevista à Revista do Expresso, Portugal, 11 de Outubro de 2008)
José Saramago
16/11/1922 – 18/06/2010
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Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo. Ver todos os artigos de Niara de Oliveira

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