A maternidade e a culpa das mulheres

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Sábado, 29/05, li num post do blog Politika etc. que os estados americanos de Alabama, Louisiana e Mississipi aprovaram leis que obrigam clínicas de aborto a fazer exames de ultrassom como forma de dissuadir mulheres a interromper a gravidez. Oklahoma passou a obrigar também que as mulheres recebam uma imagem de ultrassom com uma descrição detalhada do feto ou do embrião.
O post questiona então, qual seria a intenção dos conservadores americanos, que ao não conseguirem tornar o aborto ilegal em alguns estados, fazem de tudo para obrigar as mulheres a terem seus filhos indesejados. Quando não pela forma da lei, como essa acima citada, o fazem através da diminuição de verbas destinadas à clínicas públicas. E todos (ou quase todos) sabemos o caos que é saúde pública nos EUA. Pode até parecer piada dizer que o SUS brasileiro é um sonho para a população pobre estadunidense, mas é verdade.
O texto intitulado “Maternidade como situação, não destino” me inspirou um comentário longo. Como ando com problemas de tempo e inspiração para escrever, e há muito tempo não posto nada sobre mulheres ou feminismo, resolvi socializá-lo aqui.
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A opressão através da culpa

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A intenção dos conservadores americanos ao obrigarem as mulheres que intencionam abortar a olharem as fotos do ultrassom de seu “filho” não é para transformá-las em mães, mas para produzir culpa. Toda a opressão de gênero se baseia na culpa.
Atualmente: As crianças estão mal alimentadas sozinhas em casa em frente ao computador é porque a mãe, ao invés de estar em casa cuidando e alimentando-os direito, está trabalhando fora; Se acidentes domésticos acontecem é porque as mães se distraíram em meio às várias jornadas que cumprem paralelamente durante o dia; Se as crianças se tornam individualistas, retraídas, com problemas de relacionamento e acabam, por fim, agressivas e violentas, a culpa é da mulher que não estava atenta observando o comportamento dos filhos.
As mulheres se culpam – e são culpabilizadas! – por não terem o tempo necessário e desejado para cuidar de seus filhos. Se culpam – e são culpabilizadas! – por abandonar a carreira profissional para cuidar dos filhos quando pequenos, e vão sentir falta dessa carreira quando vier o divórcio e for preciso trabalhar para sustentar esses filhos. Se culpam – e são culpabilizadas! – pela opção de não terem filhos. E por fim se culpam – e são culpabilizadas! – até mesmo pelo prazer sexual que originou os filhos ou a gravidez indesejada.
Moral da história: A sociedade que culpa as mulheres por tudo, as deixa sem alternativa de sentir essa culpa em qualquer dos caminhos que venham a escolher. Ao mesmo tempo em que esses conservadores querem obrigar as mulheres à maternidade não dão a menor condição de seu exercício, sem que para isso tenham que se sacrificar de alguma maneira. Quer modo mais eficaz de manter alguém subjugado e dominado do que através de sua própria “consciência”?
A luta das mulheres por sua libertação ainda é longa e está muito longe do fim. Certamente está mais perto do que antes, mas muito, muito longe ainda de alcançar seu objetivo.
Simone de Beauvoir estava certíssima. Torna-se mulher, com tudo de bom e de ruim que traz consigo essa mudança de estado. Ousaria registrar junto à Simone que “Cansa ser mulher”. Carregar no corpo e na alma a sustentação de toda forma de opressão e ainda a culpa por todos os males que assolam a humanidade é cansativo e não é para qualquer um.
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Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo. Ver todos os artigos de Niara de Oliveira

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