Vento Negro é surreal

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capa do primeiro LP de 1975 - clique na imagem para assistir um clipe do grupo na Globo, em PB

Essa madrugada estava conversando com uma amiga publicitária lá de Fortaleza e em meio aos papos pessoais, acabei comentando com ela a música que estava ouvindo e mandei o link para que ela ouvisse também. A música: Vento Negro, de 1975, do extinto grupo Almôndegas – grupo pelotense, precursor da dupla Kleiton & Kledir. A versão que estava ouvindo era ainda mais especial por ser uma gravação amadora num show dos irmãos Ramil no Theatro Guarany aqui em Satolep, com as participações do caçula Vitor e do Quico Castro Neves, vocal original da música no Almôndegas.

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Para quem nunca ouviu falar, Vento Negro está para o Rio Grande do Sul como Andança está para o resto do Brasil. É a música mais tocada em rodas de viola e é a primeira a ser ‘tirada’ quando se aprende a tocar violão. Ou pelo menos era. É uma música significativa, bonita demais, nativista misturada à MPB, e lançada em plena ditadura, cantada por um grupo vocal e musicalmente muito competente. Confira a letra. Era o início da chamada Música Popular Gaúcha.
Mas porque estou falando de Vento Negro? Acreditem, ela é uma composição do agora ex-prefeito de Porto Alegre e candidato ao governo do RS pelo PMDB, José Fogaça. O mesmo hoje envolvido num escândalo de corrupção que envolve o Instituto Sollus e a prefeitura da capital gaúcha e que teve neste final de semana a quebra dos sigilos bancário e fiscal autorizada pela Justiça.
Alguém viu ou ouviu a notícia ser amplamente explorada pela imprensa gaúcha? Pois a notícia foi, sim, veiculada no Grupo RBS. O jornal Zero Hora Online publicou no início da madrugada de sábado, quando – todos sabemos – há uma audiência monstra (sic) e acompanhada da palavra mágica “suposta” estrategicamente já no subtítulo da matéria.
Não bastasse a clara amenização do fato pela imprensa, o tal Caso Sollus ainda envolve um crime. O ex-secretário de saúde de Porto Alegre, Eliseu Santos (PTB), foi assassinado na véspera de seu depoimento na Polícia Federal sobre o caso. Crime ainda não esclarecido, onde a imprensa finge que não vê os erros grotescos da investigação e onde a polícia gaúcha se apressou em “explicar” o caso como latrocínio. (Leia mais sobre o caso Eliseu Santos aqui e aqui)

o Fogaça da época de Vento Negro

Tudo muito estranho. Tão estranho quanto o José Fogaça um dia ter composto uma canção tão linda que termina com os versos:

“Não creio em paz sem divisão
De tanto amor que eu espalhei
Em cada céu em cada chão
Minha alma lá deixei”

Não parece surreal? Fato é que o Fogaça de hoje não é mais o mesmo que escreveu estes versos. E tomara que os irmãos Ramil percebam isso logo. É doloroso vê-los apoiar Fogaça a cada eleição como se ele ainda fosse o mesmo de Vento Negro.

Meu desejo mais sincero e profundo está nos versos do refrão dessa música: “Um vento forte se erguerá arrastando o que houver no chão” e levando embora os velhos hábitos da política e essa ‘tendência natural’ de direitização do passar do tempo.

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Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo. Ver todos os artigos de Niara de Oliveira

6 respostas para “Vento Negro é surreal

  • André HP

    Apesar da qualidade do video, achei legal o som.

  • iaia

    Ni,

    lendo o post lembrei da fantástica mini-série escrita pela Maria Adelaide Amaral, Caros Amigos. ela ali faz uma revisão dos destinos dos bravos jovens que lutarão contra a ditadura e realmente hoje constatamos que vários mudaram muito, mas para pior a ponto de prejudicar o povo que um dai quiseram ajudar. adoro Kleiton e Kledir, uma pena saber que estão iludidos. A música é linda, Fogaça pode ter sido alguém legal, com certeza já não é mais. Beijos.

  • Everton

    Tão infame quanto a corrupção é a condenação sem julgamento…..
    Tão nefasto quanto a “direita inteligente” é a “esquerda burra” ….
    Tão odiável quanto a imprensa que acoberta é a quem expõe sem provas …

  • Niara de Oliveira

    Não acusei o sr. José Fogaça de nada além dele ser de direita. Ele é.
    Quanto às investigações eu só citei-as. Já teve julgamento? Se sim, mande o link por favor. Faço questão de divulgar.
    Obrigada pelo comentário, Everton.

  • Paulo

    Que infâmia… Usar a expressão “envolvido num escândalo” é uma forma torpe de caluniar uma pessoa ligando-a a uma denúncia, mesmo que não haja nenhum fato real que ligue esta pessoa com o caso, Ele não é e nunca foi réu nem indiciado em nenhum julgamento qualquer, inclusive neste que você fala. Por que não se informou sobre isto antes de escrever? Não interessava saber a verdade? Qual era o seu interesse então?

  • Nilson Magnus de Oliveira

    Ontem, o infame votou pela não investigação de Temer… Antes, já havia golpeado um governo eleito nas urnas, para entregar ao golpista Fora da Lei, ora livrado da investigação, no “isento” STF… Alguma coincidência com o âmago do teus argumentos…? Nenhuma. Teu texto, bem escrito e argumentado, é certeiro… e não precisaria de tanto tempo (7 anos!), nestes “novos” ventos tristes… que assolam e atacam as possibilidades de avanço civilizatório fundado na “divisão” justa… Foi pura viração…, de casaca, ocorrida há anos. Pedalemos, lomba acima. Até a pé!

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