“You have to show destruction”

Um relato sobre a situação do Haiti que destoa da cobertura feita pela grande imprensa
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Rodrigo Charafeddine Bulamah
Blog dos Pesquisadores da Unicamp no Haiti

O que vemos hoje em Porto Príncipe, dois dias após o terremoto é um exemplo indescritível de civismo e ajuda. Não há o caos, como parte dos jornalistas que nos procuram querem ouvir, as pessoas não estão em desespero e nem há sinal da “barbárie imaginária” que molda o nosso preconceito sobre o Haiti. Os haitianos estão se virando como sempre fizeram após embargos e avanços econômicos internacionais que implodiram a produção local (como conhecemos no caso do trigo norte-americano).

mulher haitiana fazendo comida na rua

“You have to show destruction” (“Voce deve mostrar a destruicao“) foi o que ouvi de um jornalista norte americano. E de fato há sim sinais de destruicao e morte, que merecem ser retratados. Mas os haitianos encontraram meios criativos e cheios de civismo para contornar essa situação, que nos cabe aqui relatar.

Hoje, saindo ao Champ de Mars com o Omar, a Cris e o Flávio, vimos um acampamento imenso. Pessoas organizadas, fazendo comida, tomando banho, lavando roupa. Nem sinal da ajuda internacional que enche a boca de tantas autoridades. Espera-se o espetáculo da destruição para depois chegar ao espetáculo da cooperação internacional.

As pessoas estão removendo escombros das próprias casas e da vizinhaca, barracas cobertas foram improvisadas para abrigar pessoas. Vemos médicos haitianos espalhados pela cidade fazendo um trabalho de formiga. Algumas ONGs, como a Médicos Sem Fronteiras e o Viva Rio, estão fazendo o possível pra receber a população atingida, mas a ajuda ainda é tímida frente à grandeza da situação.

Além disso, os haitianos encontraram meios de manter a cotidiana rede de comércio, e sem alteração de preços. No Champs de Mars, centro da cidade, as “dames sara”, como são conhecidas as mulheres que constroem as redes de abastecimento “informal” da cidade, continuam na ativa e as cozinhas improvisadas funcionam à todo o vapor, fazendo frango, banana frita e macarrão. Um prato de “chen jambe” continua, impressionantemente, custando 100 gourds (2,5 dólares, aproximadamente). E isso é importante ser retratado. Nossa fotógrafa, em meio a tanto outros que buscavam somente a destruição, pegou sua câmera e, pedindo licença, fez retratos de pessoas orgulhosas com as medidas que encontraram para sobreviver.

os haitianos estão lavando e estendendo suas roupas em praças públicas

Alguns tratores da República Dominicana chegaram hoje, mas, no centro, nem sinal da Minustah ou da ONU. Dois dias depois do terremoto. Há relatos de que a ajuda internacional encontra dificuldades em distribuir a comida que chega. A ajuda internacional é sim necessária, mas mais do que nunca a população local precisa ser ouvida. Só eles sabem o que se passa aqui e a melhor forma de sair dessa situação trágica.

Nota: No blog dos Pesquisadores da Unicamp no Haiti, existem mais relatos sobre a situação do Haiti e seu povo. Este é do dia 14 de janeiro.

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Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo. Ver todos os artigos de Niara de Oliveira

Uma resposta para ““You have to show destruction”

  • milagoudet

    Essa matéria faz todo sentido pra mim.
    O fato dos haitianos construírem saidas de solidariedade coletiva não tem tanto a ver com o terremoto quanto tem a ver com a incrível capacidade de viver coletivamente, de criar modos de vida para escapar da ausência de estado e da miséria absoluta.
    Isso não pode ser doado!!! Nós é que deveríamos aprender com eles.

    O fato cultural haitiano é muito mais relevante e mais produtivo em termos de discussão do que a pretensão de criar um show em torno da destruição e da ajuda humanitária.

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