O caso Battisti

STF declarou hoje, 18, legítima a extradição de Cesare Battisti para seu país de origem, mas a decisão não deve ser obrigatoriamente acatada pelo presidente Lula

Cesare Battisti

Sempre que a grande imprensa taxa alguém como “bandido”, logo desconfio (por motivos óbvios) e jogo meu olhar na direção contrária. Desde o início desse imbróglio jurídico-diplomático, quando o ministro Tarso Genro concedeu asilo político a Cesare Battisti – condenado à prisão perpétua na Itália pela morte de quatro pessoas –, e a grande imprensa saiu acusando-o de terrorista e bandido, fiquei apenas observando, tentando ler todas as opiniões.
Inicialmente influenciada por um jornalista a quem respeito muito, Mino Carta – da revisa Carta Capital (talvez tenha considerado o fato de Mino ser italiano e, possivelmente, maior conhecedor do caso e história), pensei que talvez quem sabe, dessa vez, a grande imprensa pudesse não estar apenas emitindo juízo de valor pré-concebido aos “temerosos comunistas”, e tivesse alguma razão. Afinal, constavam quatro assassinatos na condenação do cidadão.
Como fiquei afastada do mundo virtual por seis meses e, portanto, à mercê da grande imprensa, permaneci durante esse curto retiro apenas com aquela desconfiança inicial.
Minha volta coincidiu com a proximidade do julgamento da extradição de Battisti pelo Supremo Tribunal Federal. Pelo meu desconhecimento quanto à biografia e militância política de Battisti durante o período dos assassinatos que pesam sobre ele, fiquei surpresa com o voto do ministro Marco Aurélio Mello. Ele encontrou na sentença da justiça italiana 34 passagens onde se caracteriza o crime atribuído a Battisti como político.
“Mentem vergonhosamente os que afirmam que vigorava o Estado Democrático de Direito na Itália dos anos 70. Como atesta a Anistia Internacional, o Estado de Exceção que vigorou no país naquele período instituiu práticas equivalentes às da ditadura no Brasil, como tortura a granel e julgamentos baseados em ritos sumários – além de ter sido instrumentalizado politicamente como meio de perseguição a dezenas de milhares de cidadãos cujo único crime era ser de oposição. Mas quem quer continuar a acreditar que um Estado cujas leis autorizavam um limite para a prisão preventiva de 12 anos era democrático, fique à vontade. A auto-ilusão, esta sim, é democrática” – afirma o jornalista Maurício Caleiro em seu blog.
Comecei a observar quem eram as pessoas que defendiam a extradição e quem se posicionava contra, na contramão da opinião oficial. Descobri que todas – ou pelo menos a grande maioria – das pessoas que respeito e admiro, como ex-presos políticos, jornalistas, intelectuais e ativistas dos direitos humanos, são favoráveis a Battisti. Seria possível tantas pessoas de lucidez incontestável, com uma história de vida respeitável  e inatacável, estarem erradas? Seria possível apenas o PiG (*) e o senhor dos três pesos e três medidas, Gilmar Mendes, estarem certos?
Desculpem-em os “juristas incautos de plantão” e os “especialistas em direito internacional de última hora”, estou me orientando pelos meus pares. De tudo que li até agora, estou convencida que o ministro da Justiça Tarso Genro tomou a decisão correta. E se é para confiar em especialista em Direito, fico com a opinião de Genro, que tem notório saber na área.
Paira ainda uma outra desconfiança sobre a postura da grande imprensa – o PiG – no caso Battisti. Tarso Genro é a única voz, com peso político de fato, no governo Lula a pedir a punição dos torturadores brasileiros. Já foi desautorizado por Lula e Dilma que claramente demonstram a sua má vontade em abrir os arquivos secretos da ditadura. Se eu estivesse do outro lado, contrária à punição dos torturadores e querendo que esses arquivos permanecessem secretos para sempre, acharia muito interessante e conveniente ver Tarso Genro desmoralizado nesse caso com Battisti. Não é, não?!
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* PiG – Partido da Imprensa Golpista.

 

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Sobre Niara de Oliveira

ardida como pimenta com limão! marginal, chaaaaaaata, comunista, libertária, biscate feminista, amante do cinema, "meio intelectual meio de esquerda", xavante, mãe do Calvin, gaúcha de Satolep, avulsa no mundo. Ver todos os artigos de Niara de Oliveira

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