Jantar de dois

o cardápio… e um pouco da arrumação…

Todo casal passa por crises. Até um não-casal-ogro. Eu e o Gilson passamos por momentos difíceis no último mês. Foi osso, uma barra mesmo. Nem sei se já foi, se já superamos. Tudo indica que sim, mas não gosto de antecipar soluções. Vida não tem receita, relacionamento menos. A gente vai vivendo e vendo no que dá, e faz reajustes onde é preciso, repensa o que é preciso, tenta olhar pelo ângulo do outro, muda de posição. Faz o que é possível.

Essa madrugada, de 14 para 15 de abril, completamos dois anos juntos. E eu decidi comemorar. Queria dizer a ele que foram os melhores anos da minha vida. Principalmente o último, desde que reunimos o que é a nossa família ogra e torta — nós + Calvin + Lalá. Para a comemoração pensei num jantar só nosso, já que todo dia é dia de #dinojantar e fazemos desse momento celebração para os quatro.

Queria num jantar regado a vinho e à luz de vela, com aromas e sabores, como ainda não tínhamos tido. Comprei uma peça de alcatra e deixei marinando desde domingo com sal, pimenta, azeite, cebola, pimentão + muito alho e muito alecrim (alecrim fresco faz toda a diferença num marinado, acreditem em mim). Coloquei para assar com todo o marinado, sem papel alumínio, em temperatura média. Quando a casa estava tomada pelo cheiro do assado, tirei a carne do marinado e recoloquei no forno para criar uma leve crosta, sem secar muito. Bati parte do marinado com uma maçã, meio copo de vinho e duas colheres de farinha no liquidificador para o molho — opcional.

Já tinha feito o molho pesto em casa, para o espaguete, porque não achei por aqui para comprar pronto (receita do molho pesto aqui) e na hora era só cozinhar a ‘pasta’. Para a salada pedi dicas para quem entende mais do que eu (Lu e Re) e me disseram: salada crua, crocante. Aceitei o conselho. Salada de alface, repolho roxo cru cortado fininho, cenoura e queijo canastra ralados e croutons (não tinha, então comprei torrada comum e quebrei três em pedacinhos pequenos) temperada com sal, azeite e molho de mostarda. Ficou tão delícia que poderia ser só ela o jantar, não fôssemos nós os ogros que somos.

Usei coisas que nunca uso no dia a dia por causa do #dinofilhote — toalha branca, taças, pratos especiais — e arrumei a mesa com carinho. Não achei velas para compor a mesa em OuCí, tive que improvisar… Comprei um copo grosso, uma vela de sete dias (sim!!!), sal grosso e umas ervas coloridas e cheirosas e montei o arranjo. Contando parece macumba, mas não era. Durante o jantar, ao som de jazz, revelei o motivo de tanto esmero. Renovar minhas intenções, dizer o quanto fui feliz com ele nesses dois anos e que pretendo continuar sendo por muito mais tempo ainda. Ele perguntou: Pra sempre? Respondi: Enquanto formos felizes. Tinha sobremesa (torta de maçã) na geladeira, mas nem sentimos falta.

Bebemos a última taça de vinho da noite ouvindo a nossa música, e entre sorrisos, beijos, tesão a certeza de que enfrentar as dificuldades e tristezas da vida é mais fácil nos braços um do outro.

Foi mais ou menos assim nosso jantar de dois…


O tempo, e o meu tempo

tempo

Não é segredo pra ninguém meu profundo e sério relacionamento com a depressão. E não posso mentir, esse relacionamento se construiu/constituiu a partir da gravidez do Calvin. Os piores momentos que vivi, óbvio, não tem a ver com a existência do Calvin, mas foram decorrência da gravidez dele. Falta de estrutura minha, talvez. Falta de estrutura do mundo ao redor para nos abarcar… Quem sabe tudo junto.

Lembrar desse tempo é como descer ao inferno. É como tentar nadar no lodo. Não há forças, não há nenhuma mão estendida. Deste lugar ninguém te puxa para te dar colo ou mesmo para ter dar fôlego para mais uma braçada. Impossível pensar noutra coisa senão no fim.

Vivi isso várias vezes. Tantas que nem sei dizer como estou aqui. Como que ainda respiro. A sensação de sufocamento é tão forte que se torna física. O peito dói do esforço para respirar, para continuar vivendo mais um segundo, um minuto, uma hora. Quem sabe depois as forças apareçam…

Foi nesse lodo que aprendi a sobreviver. Criei uma tática de sobrevivência — justo eu que sempre me pensei desapegada da vida pelas tantas vezes que pensei em suicídio –. Não entrar em desespero, acumular forças, ficar quietinha, ir devagar, ou ficar, quase imóvel, quase vencida, até um momento de menor densidade do lodo, onde as poucas forças fossem suficientes para arriscar braçadas, e seguir, como se o tempo não existisse.

Sempre me ocorreu que essa talvez fosse uma estratégia indigna, a de adiar o inevitável. Tem dignidade em manter-se vivo assim? Ainda não sei. Peguei o tempo e o moldei do meu jeito. Passei a viver nesse tempo moldado, no meu tempo. Mas ele, o tempo aprisionado e moldado, deixou suas marcas.

É fato que muitas alegrias e encontros vieram depois desse(s) tempo(s) horrível(is), e também tive tempos de calmaria. E se não fosse a indignidade do meu apego não as saberia. Mas… sempre me pergunto: E se acontecer de novo? E se eu cair no lodo novamente?

O mesmo tempo que ameniza, faz esquecer, também aprisiona e causa ferimentos incuráveis… Num momento acho que estou segura, ainda dentro do meu tempo, e nem vejo o cerco se fechando.

.


Justiça ampla, geral e irrestrita

Tenho usado pouco esse espaço e quase nem me reivindico mais blogueira. Só apareço em duas ocasiões: quando a luta exige e quando meu sangue ferve e preciso desabafar escrevendo. Aí que hoje essas duas coisas se fundiram.

Ninguém sabe, mas o jornalista Mário Magalhães —  excelente repórter e hoje famoso pela também excelente biografia de Carlos Marighella — a quem admiro muito, foi fundamental num período crucial da minha vida. Eu, tentando juntar meus cacos e sem saber se conseguiria, tentando retomar minha vida profissional e me aparece o Mário num imeiu tecendo elogios e críticas ao meu trabalho na época, de uma forma tão terna e respeitosa que me comoveu. Ficamos amigos, e muito me honra essa amizade.

O leio quase diariamente e quase sempre concordo e divulgo seus textos e opiniões. Se não concordo com tudo, entendo e sou solidária ao seu ponto de vista, porque é antes de tudo honesto, sério e isento. Entendo demais seu texto indignado de hoje sobre a morte do repórter cinematográfico Santiago Andrade, no qual pede justiça. Leia aqui o texto completo. Mas, preciso discordar. Não do pedido de justiça, claro, mas de algumas ponderações.

Diz o Mário: “Não há legitimidade nos ataques armados aos policiais. O Brasil não vive uma ditadura. É legítimo recorrer às armas contra tiranias, como reconhecem teólogos relevantes. Por mais injusto que o país seja, a ditadura acabou na década de 1980. Jornalistas, como Vladimir Herzog, foram mortos na luta pela democracia.

Não vivemos uma ditadura, fato. Oficialmente, não. É pior. Vivemos uma democracia que permite tortura, assassinato político, desaparecimento de cidadãos sob a tutela do Estado. Nessa democracia temos uma das polícias que mais mata no mundo, 5 cidadãos por dia no que sordidamente convencionaram chamar de “em confronto com a polícia”. Nessa democracia, só no estado do Rio de Janeiro foram assassinadas dez mil pessoas em dez anos. Nessa nossa democracia seis jornalistas foram assassinados em 2013, nos elevando a condição de país mais perigoso da América Latina para o exercício dessa profissão. Mais: lideramos o ranking da impunidade pela morte desses jornalistas.

O repórter cinematográfico Santiago Andrade foi assassinado, e eu lamento muito por sua vida perdida. Porque sei que após a Globo destroçar seu cadáver ele será esquecido e sua morte ficará impune — se é que não será justiçado de forma equivocada, como está parecendo que será. Não dá para chamar de acidente ou incidente. É como a morte de ciclistas o trânsito, não é acidente, é previsível e sabendo disso e não prevenindo se torna assassinato. Simples assim. 

O que não dá é para descontextualizar sua morte. O Santiago morreu em meio a ação irresponsável da PM, que não tem o menor preparo para manifestações, de qualquer natureza. Agem como trogloditas. Se a ordem é dispersar — e a ordem é sempre dispersar. Porque nessa nossa democracia é proibido, não oficialmente mas na prática, se manifestar publicamente — dane-se a população que está na rua.

A mesma ação desastrada da PM no dia em que Santiago foi ferido matou o vendedor ambulante Tasman Amaral Accioly que tentando fugir das bombas de efeito moral foi atropelado violentamente por um ônibus na Presidente Vargas, em frente a Central do Brasil e não mereceu nenhuma linha da imprensa. Mais um, quase anônimo, também vai ficar impune. A PM chegou a disparar bombas DENTRO da Central. E não estamos falando de UMA ação desastrada onde se perdeu o controle, mas TODAS. Só não teve violência quando a PM não compareceu ou não agiu.

80% de toda a violência praticada contra a imprensa carioca nos atos de maio a outubro de 2013 partiram da PM, segundo o relatório do SindJor-RJ.

Ser jornalista não nos confere nenhum privilégio. Nossa vida tem o mesmo valor que qualquer outra vida. E mesmo achando que ações ou reações violentas não constroem nada também sei que em alguns momentos é preciso enfiar o pé na porta, principalmente diante de uma polícia que tortura, mata e desaparece em plena democracia e em nome do Estado. É nesse contexto que eu não me sinto à vontade para desqualificar ou criminalizar uma tática que pode até errar, mas que evitou que muitas pessoas fossem agredidas pela polícia, vide os atos durante a greve dos professores municipais e estaduais em outubro. Eu posso até não levantar a voz para defender os Black Bloc, mas enquanto eles tiverem uma postura anticapitalista jamais os condenarei.

Não descontextualizar quer dizer também observar que a investigação do caso caminha para a montagem de uma farsa baseadas em suposições, em disse-me-disse, que desrespeitam a vida e tripudiam sobre o cadáver de Santiago. Querer justiça ao Santiago passa por querer uma investigação honesta e criteriosa sobre as condições de sua morte. E eu quero justiça ao Santiago tanto quanto quero justiça à Gleise Nana, ao Fernandão, ao ambulante Tasman Amaral Acciolyaos 13 assassinados da Favela da Maré e a todos os jornalistas agredidos — muitos que só não morreram por um golpe de sorte (estou citando apenas alguns dos casos do Rio de Janeiro; existem outros Brasil afora). Quero justiça também ao Rafael Braga Vieira, morador de rua CON-DE-NA-DO a cinco anos de reclusão por porte de pinho sol, injustamente — o único preso dos protestos de junho.

Quero justiça ampla, geral e irrestrita. 


8ª Blogagem Coletiva #DesarquivandoBR

banner ai5

Na ocasião dos 45 anos do Ato Institucional nº 5, e poucos meses antes dos 50 anos do golpe de 1964, novamente blogueiros e ativistas estão unindo forças para realizar a VIII blogagem coletiva #DesarquivandoBR. Trata-se de uma demanda urgente do país pela justiça de transição, pela memória e pela verdade. Os tímidos resultados, até agora, da Comissão Nacional da Verdade, quase um ano e sete meses após sua instituição, reforçam nossa convicção de que o engajamento da sociedade organizada é essencial.

O AI-5, chamado na época de “antilei”, formalizou o endurecimento da ditadura e forneceu o novo ambiente institucional para que ocorressem, no ano seguinte, a revisão autoritária da Constituição de 1967 e a edição do decreto-lei n. 898, que agravou a punição dos crimes contra a segurança nacional, reintroduzindo oficialmente a pena de morte no direito brasileiro.

Esta blogagem coletiva será um dos atos preparatórios das mobilizações sobre os 50 anos do golpe em 2014. Os objetivos desta iniciativa continuam sendo a abertura dos arquivos secretos da ditadura militar, a investigação dos crimes e violações de direitos humanos cometidos pelo Estado brasileiro contra cidadãos, a localização dos corpos e restos mortais dos desaparecidos políticos, e a revisão da Lei da Anistia para que se possa processar e punir criminalmente os torturadores, além de responsabilizar o próprio Estado pelos crimes de tortura, assassinato e desaparecimento forçado no período da última ditadura.

Sugerimos aos blogueiros e ativistas que se incorporarem à campanha que escrevam sobre esses temas, mas que se sintam livres para abordar qualquer assunto vinculado à última ditadura ou à justiça de transição. Aquele que não tiver um blog ou site e quiser participar poderá enviar seu texto para o email desarquivandobr@gmail.com que o publicaremos no blog DesarquivandoBR, devidamente assinado.

O AI-5, editado em 13 de dezembro de 1968, foi a resposta oficial às intensas mobilizações da sociedade brasileiras no ano de 1968. Em significativo paralelo, as manifestações da sociedade brasileira em 2013 reanimaram respostas repressivas do Estado brasileiro, que foram, em regra, acobertadas com a impunidade. Isso nos faz lembrar que há continuidades entre a ditadura militar e os dias de hoje, e que a luta pela punição dos torturadores e assassinos de ontem alimenta as atuais campanhas pelos direitos humanos.

A blogagem coletiva ocorrerá do dia 10 a 13 de dezembro. Pedimos para que os blogueiros que se agregarem a esta iniciativa deixem um comentário a esta chamada com o link do seu texto, que será divulgado no blog DesarquivandoBR. No dia 13 de dezembro, aniversário do AI-5, realizaremos um tuitaço a partir das 21h e concentraremos esforços nas postagens também no Facebook. Participem e acompanhem pelo perfil @desarquivandoBR e/ou pela hashtag #DesarquivandoBR no twitter e na fan page DesarquivandoBR no Facebook, e coloque a marca da campanha no seu avatar.


Selo Inconveniência

 Mas pode chamar também de desajuste ou deselegância

Sem título-1

Foi uma bobagem. Ínfima. Mixaria, mesmo. Mas doeu. Me trouxe de volta aquela sensação de não pertencimento, de desajuste ao mundo e às pessoas, com suas relações cheias de códigos e etiquetas não publicados, mas que ~obrigatoriamente~ precisam ser aprendidos. É aí que não me encaixo. Não gosto da obrigação e sou, sim, inconveniente.

Quebro os códigos e os protocolos, assassino a etiqueta. E quando amigues, com razão, me puxam a orelha por causa desses deslizes eu me magoo. Não porque não possa ser criticada, óbvio que posso, e costumo refletir sobre as críticas, mesmo que reaja mal no momento. Mas esses puxões de orelha doem no coração. Me lembram o quanto não pertenço a esse mundo e nem domino os códigos de boa convivência.

Não é de todo ruim ser colocada no meu lugar. Desde que eu tivesse um lugar… :-(

O puxão de orelhas de hoje foi por uma mixaria. Acho até que poderia ter passado batido… Mas não passou. E doeu tanto, tanto… Estragou meu dia. Preparei meu café da manhã aos prantos e assim, aos prantos, o tomei. Fato que melhorei muito depois que comi. Então, por favor, ao me verem conectada entre 9h e 15h, lembrem de me perguntar se já comi? :P

Enfim… Mais desagradável quando faminta. E ainda mais desagradável comendo.

#SeloIncoveniênciaFull


#ReginaDuarteFeelings e sua influência nas nossas escolhas de um projeto político

ReginaDuarte_MedoQuem não lembra do discurso “eu tenho medo” da Regina Duarte na campanha de 2002 para presidente? Isso ficou mais marcado do que o ano em que foi feito o discurso. O vídeo (linkado) diz que foi em 2006, só que em 2006 o candidato do PSDB era Alckmin. Mas o ponto não é esse, e sim a sua influência no modos operandi do fazer política de lá para cá.

A entrada das redes sociais na campanha política trouxe junto a lógica da política do medo, ou o que chamo de #ReginaDuarteFeelings. O argumento nunca é favorável, mas o inverso dele que te faz ficar favorável. É o velho e ruim “voto (in)útil” chamado agora de ‘mal menor’, do candidato ‘menos pior’. Acostumamos-nos a ele de tal forma que nem ousamos mais pensar no melhor, num projeto para chamar de nosso, para defender.

PSOL e PSTU e demais esquerdistas são classificados pelos governistas como “a esquerda que a direita gosta“, e de colaborar diretamente para o “avanço” dos tucanos sobre o eleitorado. Oi? Que avanço dos tucanos? Primeiro é preciso esclarecer que não criticar o governo não o salva de se atirar nos braços da direita e de ‘desenvolver’ sua política capitalista genocida e nem de se aproximar “ideologicamente” do PSDB. Segundo, não é assim que se estabelecem diferenças, mas com política real, no caso de governos com políticas públicas e econômica. E nesses quesitos, o governo do PT é campeão em mentiras, em fingir ser o que não é e em colocar no outro a culpa da política que faz.

Vamos colocar alguns pingos nos is, então. Tudo nesse governo é capitalista. Não há nenhuma política de esquerda em que possamos usar aquele atenuante “ah, o governo tem problemas, mas tirou 30 milhões de pessoas da miséria…“. Sério? Mesmo? Quando um governo gerencia um Estado privilegiando sempre os mais ricos, até mesmo na “política” de Direitos Humanos, ele produz miséria ao invés de combatê-la. Ao produzir miséria e miseráveis e usar o braço armado desse Estado contra qualquer oprimido que tente se rebelar/protestar, ter uma única política que tira pessoas da miséria e depois as joga na selva do capitalismo (onde só se prospera pelos “próprios méritos”, como se não houvesse aí exploração do trabalho de outrem/ns), não é tirar pessoas da miséria, mas uma política social-democrata de redução de danos que no final das contas atrela essas pessoas ao voto de gratidão nesse governo. Isso é a velha política clientelista dos coronéis de outrora maquiada de “política social de distribuição de renda”. Tanto assim que os índices de desigualdade social permanecem os mesmos. Enquanto pessoas saem da miséria com esmola do governo os ricos ficam mais ricos — com exceção do Eike, coitado… :P –. Tirou pessoas da miséria? Sim, mas mantém a política que produz a miséria e os miseráveis.

O fato é que transformar miseráveis em consumidores não os transforma automaticamente em cidadãos. Educação e participação política é que transformam miseráveis em cidadãos. Democracia não é apertar um botão a cada dois anos passando um cheque em branco para este governo que clienteliza a população mais pobre. Não se preocupar com os resultados de sua política como crianças vivendo no lixo; prostituição de crianças na esteira do “desenvolvimento” da construção de hidrelétricas para produzir energia suja; remoção de pobres e pretos para a maquiagem das grandes cidades para os grandes eventos; preocupação zero com os danos ambientais de todas as obras e desarticulação dos órgãos fiscalizadores desses danos ambientais; prática de tortura, assassinato e desaparecimento nas delegacias e unidades policiais de norte a sul do país e apoio incondicional ao aparato policial em detrimento do cidadão; coloca o PT e seus governos no rol dos iguais. E nem vou citar mais casos de violações de direitos humanos, como índios assassinados, secretário de governo do PT armado contra sem terra, apoio do governo à milícias do agronegócio, etc., sob pena de ficar linkando até semana que vem. Não são os esquerdistas que colocam o PT no rol dos iguais apenas o dizendo (e nem a palavra da esquerda é tão poderosa assim), é o próprio PT com sua política que se coloca nesse lugar. Observar e evidenciar isso não é mérito nenhum além de não ser cego.

Dizer que quem enxerga e evidencia a real politik do PT — e não a política que o PT diz fazer — é colaborador da direita ou eleitor indireto de Aécio ou Marina é nada mais nada menos que repetir o discurso do medo de Regina Duarte. E, PASMEM, TEM FUNCIONADO! Várixs governistas que estavam finalmente percebendo que não criticar publicamente o governo só o empurra cada vez mais para a direita, estão voltando à política governista de terrorismo nas redes sociais. “Ou tu vota no PT e apóia Dilma ou estará apoiando Aécio ou Marina”, assim, fatalmente. Oi? Não existe voto nulo e não-validação desse sistema eleitoral, dessa falsa democracia?

Para quem cria, estimula ou se deixa enredar nesse terrorismo, deixem-me apenas dizer duas coisas. UMA: o TSE não computa apoio crítico, e nem o PT. Já os votos nulos e a abstenção eleitoral aparecem na contabilidade final das eleições e querem dizer uma única coisa: INSATISFAÇÃO. DUAS: Dizer que não adianta abraçar um projeto político que não tem chances eleitorais é o que dizia o MDB/PMDB lá no início do PT. O PT não nasceu na Presidência da República, mas como um partido pequeno, pentelho, que só tinha gente desconhecida como candidato (muitos ex-presos políticos e barbudos desgrenhados, o que não ajudavam em nada na “imagem vendável” de um partido sério) e foi construindo tijolinho por tijolinho, por acreditar que o seu projeto era o bom, era o justo, era o melhor é que o fez chegar onde chegou (apesar de muitos atribuírem apenas a figura de Lula). Ninguém fez mais campanha contra o voto (in)útil que o PT. Voltar a isso é apostar na despolitização e desconscientização do voto. Cuidado! Esse é um caminho sem volta, não para a política eleitoral nacional, mas para os (até aqui) agentes políticos transformadores da sociedade que fazem uso desse expediente.

Para os governistas envergonhados que ficam aí dizendo “tenho críticas ao governo, mas não há nada melhor do que isso“, assumam o ônus de defender e votar nesse projeto do PT e o defendam pelo seu melhor, se encontrarem. Chega de #ReginaDuarteFeelings na política! Até porque a própria Dilma jogou por terra todo o terrorismo feito pelo PT na campanha de 2010 ao fazer tudo que ‘disseram que Serra faria’ nos primeiros seis meses de governo e fechando com chave de ouro agora, com a privatização de campos de petróleo. Voltemos urgentemente a lutar pelo melhor, pelo justo, pelo bom. Democracia é antes de tudo um exercício de respeito às escolhas dx outrx. Disputemos antes sua consciência com o nosso melhor, com a melhor proposta — inclusive a do voto nulo, se acreditarmos nele como força de mudança –, mas depois da escolha feita, respeitemos sua escolha e inteligência.

medo eu tenho desse cabelo...

medo eu tenho desse cabelo…

p.s.: Não se perguntem porque não falo diretamente com tucanos e afins. Não me relaciono com eles de forma alguma, não tenho nada a dizer a eles e o que tinha para saber deles já sei. Não sou eu que me aproximo deles com a política que faço, mas o PT.

Já tinha escrito antes sobre a defesa cega do governo e retrocessos suportados…

Texto do Gilson, de hoje, sobre o mesmo tema.

E para quem ainda isenta Lula da política de Dilma no governo, sinto muito (mentira, sinto nada) em decepcionar.


O racismo que existe em mim

Já contei para vocês que amo-amo-amo a Charô? Para quem não a conhece vou defini-la como alguém que desacomoda, perturba, me tira do eixo. Gosto dela não só pela ~função~ que exerce na minha vida, ela é gostável de graça. Procurem-na. A Charô faz bem.

Hoje ela apareceu no feed de uma das redes sociais que compartilhamos com este pensamento

charô 4set

…que trouxe à tona em mim duas lembranças. A primeira um desconforto imenso ao estar cercada por mais negros que brancos numa festa e a segunda da infância, do Jardim de Infância — minha primeira experiência de sociabilização fora da família, aos 5 anos de idade.

O papel da publicidade e da tevê na construção da cidadania e do imaginário como cidadão são cruciais. Tu vais assistindo peças e novelas que te levam a crer que família de comercial de margarina só pode ser branca, classe média e hétero. Logo, todo o resto é estranho. Novelas — mesmo as que retratam favelas e subúrbios — com elenco quase 100% branco nos levam a crer que esse é o país que temos. Não que sejamos idiotas e acreditemos em tudo que assistimos, falo da construção do imaginário, do subconsciente. A crítica fica aqui, no campo da consciência. O meu imaginário também foi formatado assim.

Primeira lembrança. Um dia, durante a campanha para a prefeitura de Pelotas em 1992 — eu era do PT — uma das escolas de samba da cidade abriu a quadra para a nossa candidata a prefeita e fez uma pequena festa. Fui eu e uma amiga. Na entrada da rua da escola, tínhamos que caminhar umas oito quadras mal iluminadas para chegar, nos abraçamos e “de brincadeira” nos despedimos da “civilização” e seguimos, “corajosas”. Duas brancas, quase frescas, no meio de uma favela (plana, em Pelotas não existe morro) à noite. Olha a construção do imaginário, aí… Chegamos na festa. Bem. Não fomos interpeladas, não ouvimos piadinhas e não estivemos sequer perto de qualquer situação de perigo. Era só o imaginário. o.O

Na festa eu era a única pessoa da minha cor, branco fosforescente. Pensa que eu era ‘atração’? Óbvio que não. Fui super bem tratada. Mas, tinha um incômodo. Ele era só meu. E passei o tempo todo me auto-flagelando e tentando entender o porque de tanto estranhamento e desconforto. Afinal, sempre convivi com negros. Talvez o meu incômodo não fosse pela presença negra, mas pela maioria negra. Sim, sempre convivi com negros, mas sempre em minoria. E aí, não há outro nome para o desconforto a não ser racismo.

Segunda lembrança. Antes, deixa eu contextualizar. Sou filha e neta de proletários. Pai mecânico, filho de um descendente direto de portugueses da Ilha da Madeira e de uma italiana que nunca conheci. Mãe dona de casa, multifuncional, filha de um português e de uma mezo polonesa mezo alemã. Esse pai português da minha mãe era capitão de corveta da Marinha, mas deixou minha avó viúva aos 22 anos. Ela se juntou então com um ferroviário, negro, em 1947. Foi ele que conheci como avô. E embora minha família negasse sua negritude (não faço ideia de como eram capazes disso… ele tinha a pele muito escura e o nariz mais largo que já vi ao vivo na vida — imaginário? eu tinha 6 anos quando ele morreu), diziam que ele era “bugre” — coisas do Rio Grande do Sul…

Devidamente apresentada, minha primeira experiência de sociabilização foi numa escola mantida pelo padre da paróquia, para os filhos dos trabalhadores da comunidade ficarem mais debaixo da asa e dos olhos dos pais. De uma turma de 20, apenas três colegas eram negras. Uma em situação social idêntica a minha. As outras duas era mais pobres, filhas de mãe solteira, netas de uma senhora de “reputação não muito boa”, diziam, e a minha avó as chamava de sarará, o cabelo delas era amarelo. Eu olhava para todos com curiosidade, meninos e meninas. Só tinha um irmão mais velho em casa, a quem idolatrava nessa época. Estranho para mim eram as meninas e eu as observava mais. Aí, que um dia percebi que as duas meninas mais pobres não sentavam com todos na hora da merenda — todos levavam seu lanche de casa. Observei um pouco mais e me dei conta que não se juntavam ao grupo — achei eu — porque não tinha merenda. Eram orientadas em casa a não constranger os demais, não pedir. Ficavam apartadas, com fome, sem nem olhar para o que comíamos. Passei a levar merenda para mim e para elas, dispostas a incluí-las. Não funcionou. Eu acabei me apartando do grupo maior para lanchar com elas.

Um dia, indignada, subi no banco do pátio da escola e fiz discurso pela inclusão das duas gurias. Não funcionou. Elas não se exluíam e auto-excluíam só por serem negras, mas também por serem pobres. No caso, mais pobres que os demais. Segui levando lanche para elas (eu fazia sanduíches de bolacha cream cracker com patê, um pacote inteiro todos os dias — sim, aos 5 anos eu mesma preparava meu lanche), até minha mãe, intrigada de como eu conseguia comer tanto, ir até a escola investigar. A avó das meninas achou linda minha atitude, mas se ofendeu quando minha mãe ofereceu dar os pacotes de bolacha e patê diretamente a ela, para as gurias levarem seu próprio lanche para a escola. Aí, brigaram e tal e coisa, e as gurias foram instruídas a sequer falar comigo e eu idem.

Já me perguntei se não fosse o fato delas não terem merenda se perceberia o apartamento delas e o racismo embutido ali, já que no grande grupo tinha uma negra e era uma das líderes do frege. Também não sei dizer se me indignei mais pelo persistente apartamento delas — já que isso deixou de me incomodar depois — ou pelo fato da minha tentativa de inclusão ter fracassado. Não sei responder.

Nunca me achei imune ao racismo pela minha trajetória e vivências. Cresci entendendo que raça e condição social apartam, criam cisões. NÃO, PERA… O que aparta não é a raça ou a classe, mas o preconceito e sua construção no nosso imaginário. E esse nos acompanha por toda a vida, está impregnado em tudo, em cada ação, atitude, interação. Eu mesma escorreguei hoje, e nessa postagem da Charô que cito lá em cima, fiz um comentário torto, racista. Estava querendo dizer uma coisa, mas disse de uma forma que revelou o racismo que existe em mim. Ao dizer que meu imaginário foi formatado para pensar e agir assim não estou me desculpando, apenas tentando entender de onde vem para melhor combatê-lo. Luta infinda essa. :/

O que me fez perceber que tinha feito um comentário racista? O reli a partir do silêncio da Charô diante dele. Ela não precisou nem bater… Entendem porque a amo tanto? As pessoas que nos fazem sentir bem, confortáveis são necessárias, mas as que nos desacomodam são imprescindíveis, e nos tornam pessoas melhores.


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 87 outros seguidores