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O Semeador de Estrelas

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Em uma praça da velha cidade de Kaunas, na Lituânia, há uma estátua de bronze, herança dos tempos da dominação soviética sobre o país (1795, 1920, 1940, 1944-1991), que chama a atenção de quem passa. É a estátua de um homem que, durante a noite, “semeia estrelas”. Desde que foi esculpida e colocada lá, ficou conhecida como a estátua do “Semeador de Estrelas”.
Kaunas, capital da Lituânia, em 1920 (atualmente é Vilnius), foi fundada, provavelmente, no século XIII. Durante sua agitada história, reduziram-na a cinzas diversas vezes e das cinzas renasceu, tendo sido dominada sucessivamente pela Polônia, Alemanha e Rússia. Nos anos 1915-1918 e 1941-1944, esteve ocupada pelos exércitos alemães. Está situada na confluência do rio Vilija com o Niemen, no Báltico, Europa ocidental.
Durante o dia a estátua não chama a atenção de ninguém, sejam moradores locais, de outras cidades e, até mesmo, turistas que todos os dias chegam à Lituânia e visitam Kaunas. Mas, à noite e com o facho de luz sobre ela, é possível ver as estrelas cintilando e flutuando no espaço, à medida que nos dá a impressão de que o homem semeia, com a mão direita, enquanto que, com a esquerda, segura o embornal onde, presume-se, contém outras estrelas.
As estrelas se projetam logo atrás dele, a partir do seu lado direito, criando um mundo de sonhos e ilusão, como se, num passe de mágica, saíssem do embornal ou caíssem do céu, diante de nossos olhos.
Nunca pensei que alguém pudesse semear estrelas, ainda mais em praça pública. Mas, o homem da estátua de Kaunas, semeia. Basta a noite chegar.
Devido à aparência de “estátua velha”, por ser de bronze e oxidada pela ação do tempo, passa praticamente incógnita durante o dia, como qualquer outra estátua da praça. Mas, assim que a noite chega e a luz é acesa, acontece o milagre da transformação e o encanto da ilusão, que fascina e provoca suspiros de admiração nos visitantes, como se ganhasse vida e os convidasse para, com sua magia encantadora, semear estrelas também. E, então, se transforma em ponto de encontro e referência para quem passa, justificando seu título, cujo autor ninguém sabe. É a escuridão, com um único facho de luz sobre ela, que parece lhe dar vida à noite e que a tirou do anonimato. (…)
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(texto de Fernando de Almeida Silva)
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Nota: Uma amiga muito querida enviou essas fotos num imeiu. Fui pesquisar para saber mais da sua história e vi que se repete de tempos em tempos em vários sítios e blogues. Mas é tão lindo, que não resisti a publicar. A frase final que acompanha as fotos na maioria das publicações é essa: “Que possamos ver sempre além daquilo que está diante de nossos olhos, hoje e sempre.” – Parece mensagem de livro de auto ajuda, mas faz sentido diante das fotos.
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Para acompanhar, a gravação original de Estrela, Estrela de Vitor Ramil:
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Em meio ao lodo, uma flor de lótus

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Quem diria que o final idiota de uma novela completamente idiota me inspiraria algo de bom. Pois aconteceu, e me inspirou a escrever depois de quinze dias ausente deste espaço. Depois do depoimento à la Joseph Climber do maestro João Carlos Martins, no apagar das luzes da novela Viver a Vida (Rede Globo), ele regeu a sua Orquestra Bachiana Filarmônica na apresentação daquela que considero a mais linda música da história da humanidade, a Sinfonia nº 9 de Ludwig van Beethoven. Confesso que depois de ouvi-la, tudo o mais me parece medíocre, até mesmo Chico Buarque ou Tom Jobim.

página manuscrita do quarto movimento

Esta foi a última sinfonia completa composta por Beethoven, concluída em 1824 quando já estava quase completamente surdo, perturbado mentalmente e que revolucionou a história da música. Foi a primeira vez que a voz humana ganhou o mesmo destaque que os instrumentos numa sinfonia. Beethoven incluiu parte do poema An die Freude (“À Alegria”), uma ode escrita por Friedrich Schiller (e por isso o quarto movimento da sinfonia é popularmente conhecido como “Ode à Alegria”), cantada por solistas e um coro em seu último movimento. Ele também mudou o padrão das sinfonias clássicas, colocando o ‘scherzo’ antes do movimento lento. Beethoven repetiu isso em outras composições, mas a única (e primeira) sinfonia composta assim, foi a nona.

Apresentada pela primeira vez em 7 de maio de 1824, no Kärntnertortheater, em Viena, Áustria, tendo como regente Michael Umlauf, diretor musical do teatro. Beethoven estava afastado da regência pelo estágio avançado da surdez, mas teve direito a um lugar especial no palco, junto ao maestro.
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Este trecho do filme “Minha Amada Imortal” (1994), de Bernard Rose, com Gary Oldman interpretando o maestro mostra essa primeira apresentação da sinfonia. Nesse filme podemos ter uma ideia do (des)temperamento de Beethoven, sua genialidade em confronto com o humano, e como essa sinfonia foi composta. Ela não só causa uma emoção indescritível, como a sua história é quase inacreditável. E pensar que ele mesmo jamais pode ouví-la…
A flor de lótus foi a possibilidade de milhões de pessoas, sempre aleijadas da cultura, terem acesso à música clássica em pleno horário nobre (sic) da tevê. E com direito à reprise. A trajetória do maestro João Carlos Martins, de fato, é uma história de amor à música e está se transformando na história de alguém que tem vontade de tornar popular o gosto pela música e pela cultura erudita. Merece e tem todo o meu respeito e admiração. Já a Rede Globo e a sua pseudo tentativa de fazer pensar através das novelas é o lodo, onde quase nunca nascem flores.
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